Capítulo 4 Quem é ela?

O convite permaneceu fechado sobre a minha mesa durante três dias. Eu não precisava abri-lo para saber quem o havia enviado. O brasão prateado da família Montaner ocupava o centro do envelope, acompanhado por uma caligrafia cuidadosamente escolhida.

Santiago Montaner estava se casando.

Anos antes, eu teria comparecido sem pensar duas vezes. Santiago fizera parte do pequeno grupo de amigos que conservei desde a juventude. No entanto, depois do que aconteceu entre nós, deixei de considerá-lo uma pessoa digna da minha confiança.

Mandei que entregassem um presente em meu nome, acompanhado de um cartão formal. Não pisaria naquela cerimônia. Eu conhecia Santiago o suficiente para saber que o convite não era uma tentativa de reconciliação. Ele queria mostrar que estava feliz, bem-sucedido e pronto para unir sua empresa a outra família importante de Barcelona.

O Grupo Valdés Imperial possuía empreendimentos em vários países, e meu nome aparecia com frequência em revistas de negócios. Eu construíra uma reputação de homem exigente e pouco acessível. Não me incomodava. Ser chamado de frio afastava curiosos e mantinha minha vida particular longe dos escândalos.

Um homem não se tornava bilionário antes dos quarenta anos permitindo que qualquer pessoa ocupasse seu tempo.

A porta do escritório se abriu sem que minha assistente anunciasse ninguém. Apenas uma pessoa tinha coragem de fazer aquilo.

— Você ainda não aprendeu a bater? — perguntei, sem tirar os olhos do relatório.

Samuel Ortega ocupou a cadeira diante de minha mesa.

— Se eu esperar sua autorização, envelhecerei no corredor.

— Você é meu advogado. Deveria respeitar regras.

— Sou seu amigo há tempo suficiente para saber quais regras posso ignorar.

Assinei a última página e fechei a pasta.

Samuel era um dos poucos homens em quem eu confiava. Conhecíamo-nos desde a infância e, com o passar dos anos, ele se tornara responsável pelos assuntos jurídicos mais importantes do Grupo Valdés Imperial. Também possuía a péssima mania de tentar controlar minha vida social.

— O que deseja?

— Saber o que fará esta noite.

— Trabalharei. Depois irei para casa.

— Resposta errada. Você sairá comigo.

— Não.

— Não aceito.

— Esse problema é seu.

Samuel apoiou os braços sobre a mesa.

— Leonardo, há meses você só trabalha. Existe vida depois das reuniões, dos hotéis e das obras. Se continuar assim, chegará aos cinquenta anos conversando apenas com acionistas e arquitetos.

— Ainda tenho trinta e nove.

— Exatamente. Aproveite enquanto ainda consegue dançar sem reclamar da coluna.

Lancei-lhe um olhar impaciente, mas ele apenas sorriu.

— Uma hora — cedi. — Depois disso, vou embora.

— Mesmo lugar, no mesmo horário.

— Agora saia antes que eu mude de ideia.

Samuel levantou-se satisfeito. Antes de chegar à porta, apontou para o envelope sobre minha mesa.

— Não vai ao casamento de Santiago?

— Não.

— Fez bem.

Ele saiu sem acrescentar nada. Samuel conhecia parte do que havia acontecido entre mim e Santiago. O restante eu preferia manter enterrado.

Passei em casa no início da noite, tomei banho e troquei o terno usado nas reuniões por uma camisa preta e uma calça social. A casa noturna escolhida por Samuel funcionava no subsolo de um dos hotéis do Grupo Valdés Imperial. Os funcionários me reconheceram e liberaram minha entrada sem perguntas.

Meus amigos ocupavam uma mesa na área reservada. Depois de pouco mais de uma hora ouvindo conversas, recusei outra bebida e consultei o relógio.

Eu estava pronto para ir embora quando Verónica Salvatierra apareceu.

— Que surpresa encontrar você fora do escritório — ela comentou.

Verónica havia sido minha namorada na época da faculdade. Naqueles anos, enquanto eu me preparava para assumir as empresas da família, cheguei a acreditar que construiríamos uma vida juntos. Ela destruiu essa possibilidade da pior forma e, desde então, eu evitava qualquer aproximação.

— Boa noite, Verónica.

— Isso é tudo que tem para me dizer?

— É mais do que pretendia.

Samuel percebeu a mudança em meu humor e tentou conduzir a conversa para outro assunto, mas já não desejava ficar.

— Divirtam-se. Tenho trabalho pela manhã.

Saí apesar dos protestos. No caminho para a escada, uma mulher esbarrou em mim e caiu sentada. Ela tinha longos cabelos loiros e cacheados, olhos claros e um vestido que chamava atenção sem parecer vulgar.

Estendi a mão.

— Você se machucou?

— Minha dignidade já estava ferida antes da queda. Então, não fez muita diferença.

Ajudei-a a se levantar e pedi desculpas. Ela respondeu que só me perdoaria se eu dançasse com ela. Quase recusei, mas havia uma tristeza escondida atrás do sorriso daquela mulher.

Dancei uma música. Depois outra. Quando a terceira terminou, afastei-me, pretendendo ir embora. Ela segurou minha camisa e me beijou.

— O que está fazendo? — perguntei, surpreso.

— Tentando esquecer alguém.

A resposta não me agradou. Também notei que ela havia bebido.

Perguntei quanto consumira e ouvi que foram dois drinques, seguidos por água. Ainda assim, levei-a até a cobertura para afastá-la da pista lotada e permitir que se recuperasse em segurança.

Ela revelou que se chamava Isadora, mas não contou o sobrenome.

Deixei água sobre a mesa e permaneci a uma distância segura. Quando tentei ir embora, ela se aproximou novamente.

— Você sabe quem é e onde está? — perguntei.

— Sei. E também sei o que quero.

— Não farei nada enquanto houver dúvida.

Isadora bebeu a água, conversou comigo por algum tempo e continuou firme em sua decisão. Quando afirmou claramente que desejava ficar, eu cedi ao beijo que ela iniciou.

Não costumava levar mulheres para minha cama sem conhecê-las. Entretanto, naquela noite, Isadora me fez esquecer regras que eu seguia havia anos. Mesmo com a tristeza marcada nos olhos, ela era encantadora, espirituosa e muito diferente das mulheres que se aproximavam de mim por causa do sobrenome Valdés. A luz do sol atravessava as cortinas quando despertei. Eu não costumava dormir até tão tarde. Por alguns segundos, procurei entender onde estava. Então me lembrei da mulher loira que adormecera ao meu lado.

A cama estava vazia.

Levantei-me e conferi o banheiro. Nenhum sinal dela. Quando retornei ao quarto, encontrei algumas notas sobre a mesa de cabeceira.

Ela havia deixado dinheiro.

Peguei as notas, incrédulo. A cobertura pertencia ao meu hotel, mas Isadora provavelmente acreditara que eu era apenas um hóspede. Ainda assim, a ideia de que ela pagara pela noite atingiu meu orgulho de uma maneira que eu não sabia explicar.

Ao procurar minhas roupas, percebi um pequeno vestígio no lençol. As lembranças da noite anterior retornaram com mais clareza: a hesitação dela em alguns momentos, a insegurança escondida e a confiança que depositara em mim.

💭 Aquela foi .a primeira vez dela.

Peguei o celular e liguei para o chefe da segurança.

— Preciso que identifique uma mulher que esteve comigo nesta noite. Verifique as câmeras da entrada e descubra como ela chegou ao hotel. O primeiro nome é Isadora.

— Entendido, senhor Valdés.

— Quero as informações o mais rápido possível.

Tomei banho e retornei à minha residência. Antes que terminasse de me vestir, recebi a ligação.

— Encontramos a mulher, senhor. O nome completo é Isadora Ferrer. Ela mora com os pais e a irmã.

O sobrenome chamou minha atenção. Eu conhecia a Ferrer Arquitetura e Design. A empresa estava entre as avaliadas para um importante projeto de restauração do grupo.

— Continue.

— Isadora Ferrer deveria ter se casado ontem. Existem várias notícias sobre o cancelamento. Ela encontrou o noivo com a própria irmã antes da cerimônia. Revelou a traição diante dos convidados, mas a irmã se casou no lugar dela.

Meu corpo ficou tenso.

— Qual é o nome do noivo?

— Santiago Montaner.

Olhei para o convite que levara comigo do escritório e deixara sobre uma mesa.

A mulher que passara a noite em minha cama era a noiva de Santiago. A mesma mulher que ele havia humilhado publicamente.

Uma coincidência como aquela parecia impossível.

— Descubra onde Isadora está e mantenha alguém por perto. Ninguém deverá abordá-la ou assustá-la. Quero apenas saber se está segura.

— Recebemos a informação de que ela foi vista em uma praia nos arredores de Barcelona.

Peguei as chaves do carro.

— Fiquem de olho nela. Estou a caminho.

Desliguei e guardei o dinheiro deixado por Isadora no bolso interno do paletó.

Eu ainda não sabia por que o destino colocara a noiva de Santiago em minha cama.

Mas não perderia a oportunidade de descobrir.

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