Capítulo 5 A Proposta
Saí do hotel antes que Barcelona despertasse por completo. Mantive o rosto abaixado enquanto atravessava o saguão, com medo de encontrar algum jornalista ou conhecido. Depois do escândalo no meu casamento, a última coisa de que precisava era ser fotografada deixando um hotel com as roupas da noite anterior.
Entrei no primeiro táxi disponível, mas não dei o endereço de casa. Ainda não estava preparada para enfrentar meus pais, muito menos Camila e Santiago. Pedi ao motorista que me levasse até uma praia onde costumava buscar silêncio quando precisava organizar os pensamentos.
O céu estava coberto por nuvens escuras, e o vento soprava com força. Caminhei até um deque de madeira que avançava sobre o mar. No final dele havia um pequeno gazebo com um banco. Poucas pessoas frequentavam aquele lugar pela manhã, principalmente quando havia previsão de chuva.
Apoiei as mãos na grade e observei as ondas agitadas.
As lembranças da noite anterior retornaram sem que eu pudesse impedir. Eu havia passado três anos namorando Santiago sem permitir que nossa intimidade avançasse além do que eu considerava seguro. Queria esperar pelo casamento porque acreditava que aquele momento seria especial.
No entanto, poucas horas depois de descobrir sua traição, entreguei-me a um desconhecido.
💭 O que foi que eu fiz?
Recordei os beijos, as mãos cuidadosas e a voz grave perguntando mais de uma vez se eu tinha certeza. Também me lembrei do rosto dele adormecido naquela manhã. Era um homem muito bonito, mas eu provavelmente morreria de vergonha se voltasse a encontrá-lo.
A chuva começou fraca e logo se tornou mais intensa. Eu deveria ter ido embora, porém permaneci no deque. Deixei algumas gotas atingirem meu rosto, como se pudessem apagar a maquiagem borrada e tudo que havia acontecido nas últimas horas.
Ouvi passos rápidos sobre a madeira e me virei.
Dois homens altos, vestidos com ternos escuros, caminhavam em minha direção. Um deles mantinha as mãos levantadas, demonstrando que não carregava nenhuma arma, mas isso não me tranquilizou. Eles eram grandes, sérios e não pareciam estar ali por acaso.
— Senhorita, afaste-se da borda — pediu um deles. — O mar está perigoso.
Olhei para trás. Eu estava perto da grade, mas não havia pensado em saltar.
— Quem são vocês?
— Só queremos levá-la de volta em segurança.
— Para onde?
Os dois trocaram um olhar.
— Por favor, venha conosco.
Dei alguns passos para trás.
— Não vou a lugar nenhum com homens que se recusam a dizer quem são.
O segundo levou a mão ao ouvido. Só então percebi o pequeno dispositivo preso junto ao cabelo. Ele falou algo em voz baixa, provavelmente informando minha localização a outra pessoa.
— Não se aproximem — avisei.
— Ninguém pretende machucá-la.
— Então vão embora.
Eles continuaram avançando devagar, como se estivessem tentando cercar um animal assustado. Minhas costas tocaram a grade. Sem pensar direito, subi na estrutura de madeira e passei uma perna para o outro lado.
Os dois pararam imediatamente.
— Senhorita Isadora, não faça isso.
O sangue gelou em minhas veias.
— Como sabem meu nome?
Outro homem apareceu no início do deque, correndo sob a chuva. A camisa branca estava colada ao corpo, e o cabelo escuro, molhado. Reconheci-o antes mesmo de conseguir enxergar seu rosto por completo.
Era o desconhecido da cobertura.
Ele diminuiu o passo quando se aproximou.
— Isadora, saia daí. A madeira está escorregadia.
— O que está fazendo aqui?
— Impedindo que meus homens assustem você a ponto de provocar uma tragédia.
— Seus homens? Foi você quem mandou que me seguissem?
— Pedi que a encontrassem e garantissem que estivesse bem.
— Isso se chama perseguição.
— Você saiu do meu quarto sem se despedir e deixou dinheiro na mesa. Eu queria conversar.
Senti meu rosto queimar apesar da chuva fria.
— Não temos nada para conversar. O que aconteceu terminou quando o sol nasceu.
— Para você, talvez.
— Quem é você?
Ele sustentou meu olhar.
— Leonardo Valdés.
Conhecia aquele nome. Todos em Barcelona conheciam. O Grupo Valdés Imperial controlava hotéis, resorts e residências exclusivas espalhados pela Europa. Eu havia visto fotografias de Leonardo em revistas de negócios, mas nunca o encontrara pessoalmente.
Antes que eu respondesse, meu pé escorregou.
Meu corpo tombou para trás, e a água gelada me atingiu com violência. Engoli água salgada e me debati, tentando descobrir onde estava a superfície. As ondas me empurravam contra a estrutura do deque.
Então, um braço forte envolveu minha cintura.
Leonardo havia saltado atrás de mim.
Ele me puxou até a pequena faixa de areia ao lado do deque. Quando conseguimos sair da água, nós dois estávamos ofegantes. Leonardo apoiou as mãos nos joelhos e respirou fundo antes de me encarar.
— Você enlouqueceu? — perguntou. — Acha que vale a pena tirar a própria vida por causa das pessoas que traíram você?
— Eu não estava tentando me matar! Foram seus seguranças que quase me fizeram cair!
— Você subiu na grade durante uma tempestade.
— Porque pensei que eles fossem me sequestrar!
Leonardo passou a mão pelos cabelos molhados, tentando controlar a irritação.
— Eu deveria ter vindo pessoalmente.
— Não deveria ter vindo de maneira nenhuma.
Ele retirou o paletó encharcado que um dos seguranças lhe entregou e colocou sobre meus ombros. O gesto cuidadoso não combinava com a frieza de sua expressão.
— Preciso fazer uma proposta.
— Se for uma indenização pelo mergulho, pode guardar.
— Case-se comigo.
Fiquei em silêncio, certa de que havia entendido errado.
— O quê?
— Quero que se case comigo.
— Você bateu a cabeça quando pulou na água?
— Estou falando sério.
Dei uma risada nervosa.
— Nós nos conhecemos ontem.
— Mesmo assim, passei a noite com você e descobri esta manhã que era sua primeira vez. Não costumo fugir das consequências das minhas decisões.
— Não existe consequência. Nós dois quisemos. Somos adultos e podemos seguir nossas vidas.
— Também posso ajudá-la a enfrentar sua família e seu ex-noivo.
— Não quero vingança.
— Eles a humilharam diante de toda Barcelona e assumiram o controle das empresas como se você não tivesse importância. Se estiver ao meu lado, não poderão tratá-la daquela maneira.
— Então sua proposta é um acordo comercial?
— Um casamento com condições claras e vantagens para ambos.
— E quais seriam as suas vantagens?
Leonardo desviou o olhar por um instante.
— Tenho meus motivos.
— Essa resposta não é suficiente.
— Samuel Ortega, meu advogado, poderá preparar um documento com todas as condições. Você terá liberdade para analisar e recusar qualquer cláusula.
— Minha resposta já é não.
— Isadora...
— Não vou me casar com um estranho para punir Santiago e Camila. Os dois são iguais e merecem um ao outro. Não vou permitir que transformem minha vida novamente.
Afastei o paletó de meus ombros e o entreguei a Leonardo.
— Estou congelando e quero ir embora.
— Eu a levo para casa.
— Não, obrigada.
Peguei um táxi e voltei para a residência da minha família. Durante o caminho, tentei esquecer a proposta absurda, mas a voz de Leonardo continuava presa em minha mente.
Ao entrar em casa, encontrei meus pais na sala com Camila e Santiago. Os recém-casados estavam abraçados, sorrindo enquanto falavam sobre os dias que passariam fora em lua de mel. Algumas malas já estavam próximas da escada.
Camila olhou para minhas roupas molhadas.
— Olha quem resolveu aparecer. Onde você passou a noite, irmãzinha?
— Isso não é da sua conta.
— Estou apenas preocupada. Você não estava em casa quando voltamos.
— Pare de fingir que se preocupa comigo.
Ela levou a mão à barriga.
— Não quero ficar nervosa. Isso pode fazer mal ao nosso bebê.
— Não use essa criança para justificar o que fizeram.
— Respeite sua irmã — exigiu Renata. — Ela está vivendo um momento delicado.
— E eu? Alguém nesta casa se importou com o que fizeram comigo?
— Já chega — ordenou Vicente.
Olhei para todos eles. Camila usava uma aliança que deveria estar em meu dedo. Santiago não demonstrava culpa. Minha mãe protegia a filha que me traíra, enquanto meu pai parecia irritado por eu ainda estar sofrendo.
— Vocês são repulsivos. Nunca serão felizes depois do que fizeram.
Vicente se aproximou e acertou uma bofetada em meu rosto.
— Não volte a falar assim com sua irmã!
Levei a mão à face, sentindo a pele arder. Meu pai nunca estivera ao meu lado, mas aquela agressão destruiu o pouco que ainda me prendia àquela família.
Saí de casa correndo. As lágrimas atrapalhavam minha visão, e acabei esbarrando em alguém do lado de fora. Mãos firmes seguraram meus braços antes que eu caísse.
— Isadora, o que aconteceu?
Reconheci a voz de Leonardo.
Ergui o rosto e encontrei seus olhos atentos ao sinal deixado pela mão de meu pai. Naquele instante, lembrei-me da proposta que havia recusado e de tudo que Leonardo dissera sobre fazê-los pagar.
— Eu aceito — falei, antes que a coragem desaparecesse.
Ele franziu a testa.
— Aceita o quê?
Respirei fundo.
— Sua proposta. Eu aceito me casar com você.
