Capítulo 2 2

A maca deslizou pelo corredor com um rangido discreto das rodas sobre o piso encerado. Deitada de costas, mantive os olhos semicerrados. A claridade das lâmpadas brancas atravessava as frestas entre minhas pálpebras inchadas, obrigando-me a desviá-las sempre que podia. Ainda enxergava apenas formas desfocadas, manchas de luz e sombras que cruzavam meu campo de visão.

O cheiro forte de antisséptico impregnava o ar.

— Está confortável? — perguntou a Dra. Sully, caminhando ao meu lado.

Demorei um instante para responder.

— Acho que... sim.

A verdade era que nada parecia confortável. Meu corpo inteiro doía. A cabeça pulsava em um ritmo constante, como se alguém apertasse meu crânio entre duas placas de ferro. Cada movimento da maca fazia uma nova dor surgir em algum lugar diferente.

— Já estamos voltando para o quarto. Os exames terminaram.

Assenti de leve.

Silêncio.

Eu queria fazer perguntas, mas tinha medo das respostas.

— Doutora...

— Sim?

— Alguém... apareceu para me procurar?

Ela hesitou por um breve momento.

— Ainda não.

A resposta fez um vazio estranho crescer dentro do meu peito.

Ninguém.

Nem um amigo.

Nem um familiar.

Nem alguém perguntando se eu estava viva.

Será que eu realmente não tinha ninguém? Ou ninguém sabia que eu estava ali?

Engoli em seco.

— Há quanto tempo estou internada?

— Alguns dias.

Dias.

Eu havia passado dias inconsciente.

Dias suficientes para alguém sentir minha falta... caso existisse alguém.

A maca entrou novamente no quarto. Reconheci o som contínuo dos aparelhos antes mesmo de sentir o colchão da cama sob minhas costas quando fui transferida com cuidado.

A enfermeira ajustou os fios ligados ao meu tórax e recolocou o cobertor sobre minhas pernas.

— Pronto.

Ouvi o barulho da porta se fechando.

Fiquei sozinha.

O silêncio parecia muito mais alto do que qualquer conversa.

Respirei lentamente, tentando organizar os pensamentos.

Quem era eu?

Quantos anos tinha?

Onde morava?

Tinha irmãos?

Pais?

Filhos?

Casada?

Noiva?

As perguntas surgiam uma atrás da outra, mas nenhuma encontrava resposta.

Fechei os olhos.

Forcei minha mente.

Imaginei ruas.

Casas.

Rostos.

Vozes.

Qualquer coisa.

Nada.

Era como olhar para uma folha completamente em branco.

Uma lágrima escorreu pela lateral do meu rosto.

Não havia uma única lembrança para me provar que eu existira antes daquele quarto de hospital.

---

Algum tempo depois, ouvi batidas suaves na porta.

— Posso entrar?

A voz era masculina.

Desconhecida.

Virei a cabeça na direção do som.

— Sim...

Os passos eram lentos.

— Sou o psicólogo do hospital. Meu nome é Daniel. O Dr. Schultz pediu que eu conversasse um pouco com você.

Psicólogo.

Aquilo significava que a situação era realmente séria.

Ele puxou uma cadeira.

— Como está se sentindo?

Soltei uma pequena risada sem humor.

— Acho que essa é a pergunta mais difícil que alguém poderia fazer.

Ele permaneceu em silêncio.

Esperando.

— Não sei quem sou. Não sei se tenho família. Não sei se alguém está me procurando. Não sei nem se sou uma pessoa boa.

As palavras saíram mais rápido do que eu pretendia.

— Tenho medo de descobrir quem fui.

— Também existe a possibilidade de descobrir que foi alguém extraordinário.

Balancei a cabeça.

— E se eu tiver feito coisas horríveis?

— Você não tem nenhuma lembrança que indique isso.

— Também não tenho nenhuma que diga o contrário.

Outra pausa.

— O cérebro costuma reagir de maneiras imprevisíveis após traumas importantes. A ausência de memória não define quem você é.

— Mas define tudo o que eu perdi.

Ele não respondeu imediatamente.

Talvez porque não houvesse resposta.

Depois de alguns minutos conversando, ele se despediu.

— Voltarei amanhã.

— Obrigada.

A porta tornou a se fechar.

Respirei fundo.

Pela primeira vez desde que acordara, senti o peso real da minha situação.

Eu não estava apenas hospitalizada.

Eu havia perdido minha história.

E, sem ela, era como se nunca tivesse existido.

Enquanto o monitor cardíaco mantinha seu bip ritmado, uma única pergunta ocupava toda a minha mente:

Se ninguém aparecesse para me reconhecer... quem decidiria quem eu seria dali em diante?

A noite caiu silenciosa sobre o hospital.

Percebi isso não porque conseguia enxergar o céu pela janela, mas porque os sons mudaram. Os corredores ficaram menos movimentados, as conversas diminuíram e o vai e vem constante de macas deu lugar ao ruído distante de passos ocasionais. O único som contínuo era o monitor cardíaco ao meu lado, marcando cada batimento como se quisesse me lembrar de que, apesar de tudo, eu continuava viva.

Dormir parecia impossível.

Sempre que fechava os olhos, esperava que alguma lembrança aparecesse. Um rosto. Uma voz. Um cheiro familiar. Qualquer fragmento que me dissesse quem eu era.

Nada.

Apenas uma escuridão profunda.

Virei a cabeça devagar, sentindo o pescoço reclamar do movimento. Ainda enxergava tudo embaçado, mas o inchaço parecia diminuir aos poucos. As luzes já não se misturavam tanto quanto antes.

A porta se abriu.

— Boa noite.

Era a mesma enfermeira que havia me impedido de arrancar o cateter.

Dessa vez, sua voz parecia menos rígida.

— Vim verificar seus sinais vitais.

Assenti em silêncio.

Ela conferiu os aparelhos, anotou algumas informações em uma prancheta e ajustou o soro preso ao meu braço.

— A dor continua muito forte?

— Sim.

— Vou pedir um analgésico mais potente.

Fiquei observando sua silhueta.

Ela parecia conhecer aquele ambiente como ninguém.

Enquanto preparava a medicação, uma pergunta escapou antes que eu pudesse pensar.

— Você sabe meu nome?

Ela parou por um instante.

Depois voltou a mexer na seringa.

— Ainda não.

Meu peito apertou.

— Então... como vocês me chamam?

A enfermeira permaneceu em silêncio por alguns segundos.

— Ainda não definimos um nome. O doutor preferiu esperar os resultados dos exames e algum possível reconhecimento.

Aquilo doeu mais do que imaginei.

Nem mesmo um nome.

Era apenas a paciente do quarto.

A mulher sem passado.

Ela aplicou o medicamento lentamente no acesso venoso.

— Isso deve aliviar a dor.

— Obrigada.

Antes de sair, lançou um último olhar em minha direção.

— Tente descansar.

Assim que a porta se fechou, o quarto voltou ao silêncio.

---

Na manhã seguinte, acordei com vozes do lado de fora.

Meu corpo parecia um pouco mais leve, embora a cabeça continuasse pesada.

Ouvi a maçaneta girar.

— Bom dia.

Reconheci imediatamente a voz grave do Dr. Schultz.

Ele entrou acompanhado da Dra. Sully.

— Dormiu bem?

— Acho que sim.

Ele consultou alguns papéis.

— Recebemos parte dos seus exames.

Meu coração acelerou.

— Eles dizem quem eu sou?

Ele levantou os olhos.

— Ainda não.

A esperança que havia surgido desapareceu tão rápido quanto apareceu.

— Mas descartamos algumas complicações mais graves no cérebro.

Respirei devagar.

Era uma boa notícia.

Mesmo assim, não parecia suficiente.

— Então... minha memória vai voltar?

Schultz cruzou os braços.

— Não posso prometer. Algumas pessoas recuperam as lembranças em poucos dias. Outras levam semanas ou meses. Também existem casos em que parte das memórias nunca retorna.

Meses.

A palavra ecoou na minha cabeça.

Como alguém vive meses sem saber quem é?

— Há algo que eu possa fazer?

— Descansar. Evitar esforço excessivo e permitir que o cérebro se recupere. Forçar lembranças normalmente produz o efeito contrário.

Assenti.

Não havia outra escolha.

Antes de sair, o médico fez mais uma pergunta.

— Continua sem lembrar de absolutamente nada?

Fechei os olhos por alguns segundos.

Concentrei-me.

Silêncio.

Escuridão.

Vazio.

— Nada.

Ele anotou alguma coisa.

— Entendo.

Os dois deixaram o quarto novamente.

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Pouco antes do almoço, ouvi passos apressados no corredor.

Dessa vez, havia mais pessoas conversando.

A porta abriu depressa.

— Doutor!

Reconheci a voz de uma enfermeira.

Ela parecia ofegante.

— Encontramos.

Meu coração disparou.

Schultz voltou imediatamente para dentro do quarto.

— Encontraram o quê?

A enfermeira respirou fundo.

— A polícia conseguiu localizar alguns documentos relacionados ao acidente.

Minha garganta secou.

Acidente.

Então era verdade.

Eu havia sofrido um acidente.

— Conseguiram me identificar? — perguntei, quase sem voz.

Ela trocou um olhar rápido com o médico.

— Ainda não completamente.

Meu coração voltou a afundar.

— Mas descobriram que você não estava sozinha.

Prendi a respiração.

Schultz aproximou-se da cama.

Seu semblante havia mudado.

Estava mais sério.

— Existe um homem envolvido no mesmo caso.

— Ele... está aqui?

O silêncio respondeu antes mesmo que alguém falasse.

— Não.

A resposta saiu baixa.

— Infelizmente, ele não sobreviveu.

Meu peito apertou sem que eu entendesse o motivo.

Eu não fazia ideia de quem aquele homem era.

Mesmo assim...

Uma tristeza inexplicável tomou conta de mim.

Como se alguma parte escondida da minha memória reconhecesse aquela perda antes da minha própria consciência.

Uma única lágrima escorreu pelo meu rosto.

E, pela primeira vez desde que acordei naquele hospital, tive a estranha sensação de que minha vida jamais voltaria a ser a mesma.

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