Capítulo 3 3

Ela passou boa parte da manhã olhando para o teto branco do quarto, acompanhando distraidamente o ritmo constante do monitor cardíaco. O tempo parecia diferente dentro de um hospital. Os minutos se arrastavam de uma forma quase cruel, dando espaço para que sua mente tentasse preencher um vazio que insistia em permanecer vazio.

A memória.

Era frustrante perceber que bastava fechar os olhos para encontrar apenas escuridão.

A porta se abriu suavemente.

— Bom dia — disse a Dra. Sully, entrando com um sorriso discreto.

— Bom dia.

— Como está se sentindo?

Ivy respirou fundo antes de responder.

— Acho que um pouco melhor fisicamente.

— E emocionalmente?

Ela soltou uma risada baixa, sem humor.

— Ainda tentando descobrir quem sou.

A médica aproximou uma cadeira da cama e sentou-se.

— Isso é completamente compreensível.

— Não parece.

— Por quê?

— Porque todos esperam que eu me lembre de alguma coisa.

Sully permaneceu em silêncio.

— Eu também espero — Ivy completou. — Fico repetindo nomes na minha cabeça, imaginando ruas, casas... qualquer coisa. Mas não aparece absolutamente nada.

A médica cruzou as mãos sobre o colo.

— Às vezes, quanto mais tentamos forçar uma lembrança, mais difícil ela se torna.

— Então o que eu faço?

— Viva um dia de cada vez. Seu cérebro sofreu um trauma importante. Ele precisa de tempo.

Ivy desviou o olhar.

Tempo.

Era exatamente o que parecia não ter.

Depois que a médica saiu, uma terapeuta ocupacional entrou carregando uma pequena caixa de plástico.

— Olá. Meu nome é Elisa.

— Prazer...

A mulher sorriu.

— Hoje vamos fazer alguns exercícios simples.

Ela colocou diversos objetos sobre uma pequena mesa móvel.

Uma colher.

Uma escova de cabelo.

Uma caneca.

Um livro.

Um chaveiro.

— Quero que observe cada objeto e me diga se algum desperta alguma sensação.

Ivy pegou primeiro a colher.

Nada.

Depois a escova.

Nada.

Folheou algumas páginas do livro.

As letras estavam um pouco embaçadas por causa do inchaço, mas conseguia identificá-las.

Ainda assim...

Nada.

Por último, segurou o chaveiro.

Era pequeno, metálico, em formato de estrela.

Ela o virou entre os dedos lentamente.

Por um segundo...

Seu coração acelerou.

Uma sensação estranha atravessou seu peito.

Não era exatamente uma lembrança.

Era apenas...

Familiar.

— O que foi? — perguntou Elisa.

— Eu... acho que já vi algo parecido.

— Consegue lembrar onde?

Ivy fechou os olhos.

Respirou fundo.

Forçou a mente.

Uma imagem quase surgiu.

Luzes.

Uma estrada.

O vento.

Então desapareceu.

Ela abriu os olhos novamente.

— Sumiu.

A terapeuta anotou alguma coisa.

— Não tem problema. Pequenas sensações como essa costumam acontecer.

— Isso significa que minha memória está voltando?

— Significa apenas que seu cérebro continua tentando organizar as informações.

Quando Elisa foi embora, Ivy permaneceu segurando o chaveiro por mais alguns minutos.

Mesmo depois de devolvê-lo.

A sensação permanecia.

Como uma lembrança escondida atrás de uma porta que ela ainda não conseguia abrir.

Naquela tarde, o Dr. Schultz voltou ao quarto acompanhado de uma pasta.

— Recebemos novas informações sobre o acidente.

Ela imediatamente ergueu a cabeça.

— Descobriram quem eu sou?

— Ainda estamos aguardando a confirmação oficial da sua identidade.

A esperança desapareceu novamente.

— Mas conseguimos confirmar que você não carregava documentos quando foi resgatada.

— Então alguém pode ter levado minhas coisas?

— É uma possibilidade.

Ela ficou em silêncio.

Tudo parecia um quebra-cabeça com metade das peças perdidas.

— Também encontramos alguns pertences que estavam próximos ao local do acidente. Assim que a polícia autorizar, talvez possamos mostrar alguns deles. É possível que despertem alguma lembrança.

Ivy assentiu.

Qualquer coisa era melhor do que continuar naquele vazio.

Depois que o médico saiu, ela voltou a fechar os olhos.

Tentou imaginar o próprio rosto.

Não conseguiu.

Tentou lembrar da voz da mãe.

Não sabia nem se sua mãe ainda estava viva.

Tentou imaginar uma casa.

Uma cama.

Um quarto.

Nada.

As horas passaram lentamente até que o cansaço venceu a ansiedade.

Antes de adormecer, uma única pergunta voltou a ocupa

r sua mente.

Se um objeto simples havia provocado aquela estranha sensação de familiaridade...

A manhã seguinte começou diferente.

Ivy despertou antes mesmo de ouvir o movimento dos corredores. Permaneceu imóvel, encarando o teto por longos minutos. A dor de cabeça diminuía aos poucos, mas a sensação de vazio continuava exatamente igual.

Levou a mão ao peito, respirando fundo.

Ainda era estranho acordar sem saber quem era.

Sem saber se alguém sentia sua falta.

Uma batida leve interrompeu seus pensamentos.

— Posso entrar? — perguntou a Dra. Sully.

— Claro.

A médica entrou carregando uma pequena bandeja com um copo de água e os medicamentos da manhã.

— Como passou a noite?

— Melhor do que as anteriores.

— Teve algum sonho?

Ivy refletiu por um instante.

— Não sei se foi um sonho... ou apenas minha imaginação.

A médica ergueu os olhos, interessada.

— Conte para mim.

— Lembro de ter ouvido risadas. Muitas pessoas conversando ao mesmo tempo. Depois senti um cheiro... parecia perfume misturado com gasolina. Quando tentei ver quem estava comigo, acordei.

Sully fez algumas anotações.

— Isso pode não ser exatamente uma lembrança. Nosso cérebro costuma criar imagens enquanto tenta reorganizar informações. Mas também pode ser um pequeno fragmento de memória.

— Então existe esperança?

— Sempre existe.

Assim que a médica saiu, Ivy voltou a pensar naquele cheiro.

Gasolina.

Por algum motivo, aquilo lhe causava um aperto no peito.

Tentou insistir.

Fechou os olhos.

Inspirou profundamente.

Mais uma vez, apenas escuridão.

Nenhum rosto.

Nenhum nome.

---

No início da tarde, uma enfermeira apareceu empurrando uma cadeira de rodas.

— Vamos dar uma volta?

Ivy a encarou surpresa.

— Posso sair do quarto?

— O doutor autorizou. Um pouco de movimento pode fazer bem.

Com cuidado, ajudou-a a se sentar na cadeira.

Ainda sentia as pernas fracas.

Enquanto percorriam os corredores, Ivy observava tudo ao redor.

Pessoas caminhavam apressadas.

Médicos conversavam.

Uma criança ria enquanto segurava um balão colorido.

Ela sorriu sem perceber.

— Faz bem ver outras pessoas, não é? — comentou a enfermeira.

— Faz.

Poucos metros depois, passaram pela recepção principal.

Sem pensar, Ivy virou a cabeça.

Seu coração acelerou.

Havia um homem usando um boné escuro.

Ela não conseguia distinguir seu rosto com clareza, mas algo nele parecia... familiar.

— Espere.

A enfermeira parou a cadeira.

— O que aconteceu?

Ivy continuou olhando para o homem.

Ele conversava rapidamente ao telefone.

Segundos depois, virou-se e saiu pela porta principal.

A sensação desapareceu no mesmo instante.

— Achei que o conhecesse.

— Tem certeza?

Ela balançou a cabeça.

— Não...

Na verdade, não tinha certeza de mais nada.

---

De volta ao quarto, encontrou o Dr. Schultz aguardando por ela.

— Como foi o passeio?

— Estranho.

— Por quê?

— Vi um homem... e por alguns segundos achei que o conhecia.

O médico assentiu.

— Isso pode acontecer. Nem toda sensação de familiaridade significa uma lembrança verdadeira. Seu cérebro ainda está tentando preencher lacunas.

Ela respirou fundo.

— Estou começando a odiar ouvir essa frase.

Schultz sorriu discretamente.

— Imagino.

Ele abriu a pasta que carregava.

— A polícia conseguiu recuperar mais alguns objetos ligados ao acidente.

O coração de Ivy acelerou.

— Encontraram alguma coisa minha?

— Ainda não sabemos.

Sobre a pequena mesa ao lado da cama, ele colocou um saquinho transparente.

Dentro dele havia uma corrente delicada de prata.

Sem pingente.

Apenas a corrente.

— Ela foi encontrada próxima ao veículo.

— Era minha?

— Ainda não podemos afirmar.

Ivy estendeu a mão.

Assim que seus dedos tocaram o metal frio, um arrepio percorreu seu corpo.

Uma respiração.

Uma voz masculina.

"...não tira essa corrente."

Ela arregalou os olhos.

A imagem desapareceu antes mesmo que pudesse entendê-la.

Sua respiração ficou ofegante.

— Ivy?

Ela piscou várias vezes.

— Eu... ouvi alguém.

O médico aproximou-se.

— O que ouviu?

— Era uma voz de homem.

— Consegue lembrar do que dizia?

Ela fez força.

Tentou prender aquela lembrança antes que escapasse.

Mas já era tarde.

— Não...

Baixou a cabeça, frustrada.

— Sumiu de novo.

Schultz anotou cuidadosamente cada detalhe.

— Isso é importante.

— Mesmo sem lembrar de quem era?

— Principalmente por isso.

Ivy permaneceu olhando para a corrente.

Talvez aquele objeto realmente tivesse pertencido a ela.

Talvez tivesse sido um presente.

Ou talvez não significasse absolutamente nada.

Naquele momento, qualquer pequena sensação era preciosa.

Era a primeira vez que o passado parecia tentar encontrá-la.

Mesmo que apenas por um breve instante.

O que aconteceria quando ela finalmente encontrasse algo que realmente tivesse feito parte da sua vida?

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