Capítulo 4 4
A corrente permaneceu sobre a mesa de apoio durante o restante da tarde.
Ivy não conseguia desviar os olhos dela.
Era apenas um objeto simples, mas havia despertado algo que nenhuma pergunta, exame ou conversa conseguira provocar. Ainda que a lembrança tivesse escapado quase no mesmo instante em que surgiu, ela agora tinha uma certeza: seu passado ainda existia em algum lugar dentro de sua mente.
Só precisava encontrá-lo.
Com cuidado, estendeu a mão e voltou a tocar o metal frio.
Fechou os olhos.
Respirou profundamente.
Esperou.
Nada.
Nem a voz masculina.
Nem a sensação de calor que havia sentido segundos antes.
Apenas o silêncio.
Ela soltou um suspiro frustrado.
— Está tentando de novo?
A voz da Dra. Sully a fez abrir os olhos.
— Achei que pudesse funcionar outra vez.
A médica aproximou-se da cama e observou a corrente.
— É normal querer recuperar tudo de uma vez.
— Mas eu não consigo recuperar absolutamente nada.
— Consegue.
Ivy franziu a testa.
— Como?
— Você reconheceu uma sensação. Ouviu uma voz. São fragmentos muito pequenos, mas são um começo.
Ela não parecia convencida.
— Parece pouco.
— Para alguém que acordou sem nenhuma lembrança, é um grande avanço.
Aquelas palavras aliviaram um pouco a angústia que a acompanhava desde o despertar.
Talvez estivesse exigindo demais de si mesma.
Talvez seu cérebro realmente precisasse de tempo.
Pouco depois, uma fisioterapeuta entrou no quarto.
— Boa tarde. Vamos tentar caminhar um pouco?
Ivy olhou para as próprias pernas.
Ainda se sentiam pesadas.
— Acho que consigo.
Com ajuda, colocou os pés no chão.
A primeira tentativa foi desajeitada.
As pernas tremeram imediatamente.
— Devagar — orientou a fisioterapeuta, segurando seu braço. — Seu corpo ficou muito tempo sem fazer esforço.
Ela deu o primeiro passo.
Depois outro.
Cada movimento exigia concentração.
Quando chegou perto da janela do quarto, apoiou as mãos no parapeito.
Lá fora, o sol iluminava o estacionamento do hospital.
Carros entravam e saíam.
Pessoas caminhavam apressadas.
A vida seguia normalmente.
Enquanto a dela parecia ter parado completamente.
— Bonita a vista, não é? — comentou a fisioterapeuta.
Ivy sorriu de leve.
— Deve ser.
— Ainda está enxergando embaçado?
— Um pouco menos do que ontem.
— Isso é ótimo sinal.
Depois de alguns minutos, voltou para a cama, exausta.
Apesar do cansaço, sentia-se satisfeita.
Era a primeira pequena vitória desde que acordara.
Mais tarde, o Dr. Schultz apareceu novamente.
Trazia uma expressão séria, mas tranquila.
— Tenho uma novidade.
Ivy imediatamente ergueu a cabeça.
— Encontraram minha família?
— Ainda não.
Ela respirou fundo, escondendo a decepção.
— Então o que aconteceu?
— A polícia está reconstruindo os acontecimentos do acidente. Algumas informações começaram a fazer sentido.
Ela permaneceu em silêncio.
— Descobrimos que você e o homem que estava com você viajaram uma longa distância antes do acidente.
— Para onde?
— Ainda não sabemos.
— E ninguém reconheceu meu rosto?
— Sua fotografia foi enviada para vários órgãos responsáveis. Também estamos aguardando respostas de outros estados.
Ivy abaixou os olhos.
Era estranho pensar que sua identidade dependia de alguém olhar uma fotografia e dizer: "Eu conheço essa mulher."
Depois que o médico saiu, ela permaneceu olhando para o teto.
Pensou em todas as possibilidades.
Talvez tivesse pais preocupados.
Talvez irmãos.
Talvez amigos.
Ou talvez...
Ninguém.
A ideia fez seu peito apertar.
Naquela noite, demorou a adormecer.
Quando finalmente conseguiu, uma imagem surgiu pela primeira vez desde que acordara.
Ela caminhava por um lugar iluminado.
Não conseguia distinguir o ambiente.
À sua frente, um homem alto estendia a mão.
Ela tentou alcançar seu rosto.
Antes que pudesse vê-lo, ouviu apenas uma palavra, pronunciada com carinho:
— Ivy...
Ela despertou de repente.
Sentou-se na cama, ofegante.
O monitor cardíaco acelerou junto com seus batimentos.
Levou a mão ao peito.
Aquela voz parecia incrivelmente real.
Mas havia um detalhe que a deixou completamente confusa.
Ela não sabia se aquele homem estava chamando por ela...
...ou se aquele nome nunca tinha sido dela.
O restante da madrugada transcorreu sem que Ivy conseguisse voltar a dormir.
A voz continuava ecoando em sua mente.
"Ivy..."
Ela repetiu o nome em silêncio diversas vezes.
Não despertava nenhuma lembrança concreta, apenas uma estranha sensação de pertencimento, como se aquela palavra estivesse ligada a ela de alguma forma.
Quando os primeiros raios de sol atravessaram a janela, ouviu a porta se abrir.
A Dra. Sully entrou acompanhada do Dr. Schultz.
Os dois perceberam imediatamente que ela estava acordada.
— Parece que a noite não foi das melhores — comentou a médica.
Ivy balançou a cabeça.
— Eu sonhei.
Schultz puxou a cadeira para mais perto da cama.
— Consegue descrever?
— Não vi muita coisa. Só um homem... ou melhor, a silhueta dele. Eu tentava enxergar seu rosto, mas não conseguia. Então ele falou um nome.
— Qual?
Ela respirou fundo.
— Ivy.
Os dois médicos trocaram um olhar discreto.
— Acha que esse nome é meu? — perguntou ela.
Schultz respondeu com cautela.
— Ainda não podemos afirmar. Sonhos nem sempre representam lembranças reais. Mas também não devemos ignorá-los.
Ela abaixou os olhos para as mãos.
— É estranho... quando ouvi esse nome, senti como se ele fosse importante.
— Isso é o que mais nos interessa — respondeu Sully. — A emoção costuma permanecer armazenada mesmo quando as lembranças desaparecem.
Ivy permaneceu em silêncio.
Queria acreditar naquilo.
Precisava acreditar.
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Depois do café da manhã, uma assistente social apareceu no quarto.
Era uma mulher de meia-idade, de voz calma e olhar acolhedor.
Sentou-se ao lado da cama com uma pasta sobre o colo.
— Meu nome é Helena. Vim conversar um pouco com você.
— Tudo bem.
— Enquanto sua identidade não é confirmada, precisamos organizar algumas questões práticas.
Ivy franziu a testa.
— Como quais?
— Caso ninguém apareça para identificá-la nos próximos dias, o hospital precisará comunicar outros órgãos responsáveis. Também continuaremos divulgando sua descrição para tentar localizar familiares.
Cada palavra aumentava a sensação de abandono.
— Então... realmente ninguém me procurou?
Helena hesitou antes de responder.
— Ainda não.
O silêncio que se instalou foi pesado.
Ivy desviou o olhar para a janela.
Talvez ninguém soubesse onde ela estava.
Ou talvez...
Ninguém estivesse procurando.
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Mais tarde, a fisioterapeuta voltou para ajudá-la a caminhar novamente.
Dessa vez, Ivy conseguiu percorrer todo o corredor da ala.
Observava discretamente cada pessoa que passava.
Um senhor lendo jornal.
Uma mulher empurrando o marido na cadeira de rodas.
Uma adolescente abraçada à mãe.
Famílias.
Todos pareciam ter alguém.
Ela era a única completamente sozinha.
Ao retornar ao quarto, encontrou uma pequena sacola sobre a mesa.
— O que é isso? — perguntou.
A enfermeira sorriu.
— Alguns produtos de higiene que recebemos por doação para pacientes sem pertences.
Ivy encarou a sacola por alguns segundos.
Uma escova de dentes.
Um pente.
Um hidratante.
Objetos simples.
Mesmo assim, sentiu um nó na garganta.
Até aquelas pequenas coisas precisavam ser emprestadas.
Ela não possuía absolutamente nada.
Nem roupas.
Nem documentos.
Nem uma fotografia.
Era como se sua existência tivesse desaparecido junto com suas memórias.
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No fim da tarde, o Dr. Schultz voltou ao quarto trazendo um envelope pardo.
— Recebemos autorização para lhe mostrar mais alguns itens encontrados próximos ao acidente.
O coração de Ivy acelerou.
Ele abriu cuidadosamente o envelope.
Sobre a cama colocou um relógio feminino quebrado.
Um brinco pequeno.
E um pedaço rasgado de tecido escuro.
— Temos certeza de que esses objetos estavam no veículo — explicou.
Ivy observou cada um deles atentamente.
Primeiro pegou o relógio.
Nada.
Depois o brinco.
Também nada.
Por último, segurou o tecido.
Assim que seus dedos tocaram o material, uma sensação intensa percorreu seu corpo.
Sua respiração falhou.
Por um breve instante...
Ouviu chuva.
O som de pneus deslizando no asfalto molhado.
Depois...
Uma buzina.
Muito alta.
Assustadora.
Ela levou as mãos à cabeça.
— Ivy?
Sua visão escureceu.
O coração disparou.
— Eu... eu...
Respirava com dificuldade.
As imagens surgiam rápidas demais.
Luzes.
Vidros quebrando.
Alguém gritando.
Então...
Silêncio.
Ela abriu os olhos assustada.
As lágrimas escorriam sem que percebesse.
— O que aconteceu? — perguntou Schultz.
Ivy respirava de forma irregular.
— Acho... acho que lembrei de uma parte.
— Do quê?
Ela fechou os olhos novamente.
As imagens já começavam a desaparecer.
— Do acidente...
Foi a primeira lembrança verdadeira desde que despertara naquele hospital.
E, pela expressão preocupada do médico, ela tinha a impressão de que aquilo era apenas o começo de uma história muito maior do que conseguia imaginar.
