Capítulo 3 Ofélia Montenegro | parte 02

— E agora, vendo você assim, percebo o quanto representa tão bem essa imagem. Diga-me, como é viver do lado feio da moeda?

Olívia levanta-se da cama com a rapidez de um predador ferido. Seus olhos estão frios, e seu corpo inteiro parece pulsar de raiva. Ela caminha até mim. Sua proximidade seria intimidadora para qualquer outra pessoa, mas tudo o que sinto é o cheiro forte de cavalo que ela carrega. É quase nauseante, mas me recuso a deixar transparecer qualquer sinal de fraqueza.

— Saia do meu quarto agora, Ofélia.

Sua voz sai tensa, controlada, como se estivesse se segurando para não me atacar ali mesmo.

— Não quero.

Respondo calmamente, inclinando a cabeça.

— Os incomodados que se retirem. Está incomodada? Então vá embora. Pare de fingir, Olívia. Nossas vidas seriam muito melhores se você não estivesse aqui. Todos nós sabemos disso.

A tensão no ar é palpável. Consigo ver o esforço dela para manter a calma, os punhos cerrados ao lado do corpo, as narinas dilatadas a cada respiração forçada. Ela está à beira de um colapso, e isso só me faz querer continuar.

— Você odeia o fato de que sou tudo aquilo que você sempre quis ser, desde criança.

Dou mais um passo à frente, ficando perigosamente perto.

— Mesmo tendo um rosto igual ao meu, você nunca vai conseguir. És tão medíocre que nem um rosto bonito te coloca no mesmo patamar que eu. Mas relaxa, Olívia, você não é a única. Eu também odeio o fato de termos o mesmo rosto. Seria muito mais fácil se você tivesse morrido naquele sequestro.

O tapa veio mais rápido do que eu poderia prever, e a dor queimou em meu rosto imediatamente. Sinto o impacto reverberar pela pele, mas tudo o que faço é rir. Rir alto, quase de forma histérica.

— Está batendo porque ouviu verdades?

Minha voz sai baixa, carregada de sarcasmo.

— Você não pode fugir de quem é, Olívia. Você sempre será um fracasso.

— Estou batendo porque essa é a única forma aceitável que tenho de descontar a raiva que sinto toda vez que você ousa abrir a boca.

Sua voz é quase um sussurro, cada palavra carregada de ódio.

— Saia daqui, Ofélia. Se você não sair em três segundos, eu juro que não me responsabilizo pelos meus atos.

— Você realmente acha que pode me intimidar?

Dou mais um passo à frente, encurtando ainda mais a distância.

— Escuta aqui, é melhor você não aparecer no leilão. Faça qualquer coisa, mas não estrague…

Minha fala é interrompida por outro tapa, ainda mais forte que o primeiro. Desta vez, cambaleio e caio no chão, mas me levanto imediatamente, tomada pela fúria. Parto para cima dela, empurrando-a contra a cama. O que se segue é uma confusão de tapas, gritos e puxões de cabelo. Não há mais controle. Tudo o que quero é destruí-la.

Os empregados entram apressados, tentando nos separar. Suas vozes em pânico ecoam pelo quarto, mas eu não consigo parar. Minhas mãos se agarram aos cabelos de Olívia, puxando-os com força, enquanto ela faz o mesmo comigo. Sinto o gosto de sangue nos lábios, mas ignoro. Alex, nosso irmão mais velho, entra correndo e me puxa pela cintura, separando-me à força de Olívia.

— Vocês estão loucas?

Ele grita, o rosto contorcido de raiva.

— Que inferno é esse?

— Você vai pagar por isso, Olívia.

Rosno, enquanto limpo o sangue que escorre do meu nariz.

— O que é teu está guardado.

— Você vem aqui me provocar e acha ruim quando eu revido?

Olívia grita de volta, ofegante, com o cabelo desgrenhado.

— Pois venha, Ofélia. Estarei pronta para acabar com você.

— Chega!

Alex berra, e o silêncio imediato que se segue é quase tão violento quanto a briga. Ele nos encara com olhos duros, exasperados.

— Vocês são irmãs! Será que podem, pelo menos, tentar ser civilizadas uma com a outra? Vocês deveriam ser unidas!

Eu rio, fria e amarga.

— Ela é só uma esquisita que tem o mesmo rosto que eu.

Respondo, saindo do quarto, ainda consumida pela raiva.

Alex nunca fica do meu lado. Ele sempre protege Olívia, como se ela fosse a vítima de tudo. Caminho até o meu quarto, fechando a porta com força. Minha respiração está pesada, e a raiva borbulha em mim como um vulcão prestes a explodir. Sem pensar, arranco um dos sapatos e o arremesso contra o espelho, que se estilhaça com um estrondo.

Um grito de frustração escapa dos meus lábios e, logo em seguida, minha mãe entra no quarto, alarmada. Seus olhos percorrem o ambiente até pousarem no meu rosto machucado. Sabendo que aquela era a minha chance, corro até ela, fingindo um choro desesperado.

— Minha bebê, quem fez isso com você?

Ela pergunta, horrorizada.

— Que tipo de monstro faria isso?

Abraço-a com força, aproveitando o momento. Desfaço o abraço devagar e abaixo os olhos, fingindo vulnerabilidade.

— Foi a Olívia, mãe.

Sussurro, com a voz trêmula.

— Eu só queria ajudá-la, porque sei o quanto o leilão é importante, e ela simplesmente me atacou como se fosse um animal.

O horror no rosto da minha mãe é tudo o que eu precisava. Ela me abraça novamente, com a força de alguém que deseja proteger a filha do mundo. No fundo, já sei como isso vai acabar: Olívia será repreendida, e tudo sairá exatamente como planejei.

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