Capítulo 4 Alex Montenegro

Meu olhar acompanha os passos de Ofélia enquanto ela sai do quarto, com os lábios apertados de frustração. Os empregados, que haviam assistido à situação à distância, parecem aliviados quando percebem que o clima tenso finalmente se dissipou. Um a um, eles saem em silêncio, fechando a porta do quarto de Olívia atrás de si.

Solto um suspiro pesado, sentindo meus ombros relaxarem um pouco. Quando me viro para Olívia, encontro-a sentada no chão, com os olhos vidrados, perdidos em algum ponto do assoalho de madeira. Seus dedos finos arranham a própria pele com uma leveza quase automática, um reflexo da angústia silenciosa que eu conhecia bem. Sinto um aperto no peito ao vê-la assim, tão fragilizada e tão distante.

O silêncio entre nós é denso, mas sei que ela precisa desse tempo. Aproximo-me devagar, quase sem fazer barulho. Tiro o paletó e o jogo sobre a cama, sentando-me ao lado dela no chão, o mais próximo possível. Sem pedir permissão, envolvo seus ombros com um braço, puxando-a delicadamente para junto de mim. Aquele gesto é o único consolo que posso oferecer naquele momento.

Ela não esboça resistência, mas também não retribui o abraço. Sua cabeça repousa sobre o meu ombro, e nós permanecemos assim, em um silêncio pesado, porém familiar.

Fico pensando nas palavras certas para dizer, escolhendo cuidadosamente como abordar o que preciso falar sem pressioná-la demais. Finalmente, rompo o silêncio, com a voz suave.

— Liv…

Começo, hesitante.

— Tu sabes que não vou prolongar essa discussão, certo?

Ela ergue lentamente o olhar para mim. Seus olhos castanhos estão carregados de cansaço, como se já soubesse o que eu estava prestes a dizer. Ela não fala nada, mas aquele olhar basta. Estamos acostumados a nos comunicar assim, apenas com um olhar, quando as palavras não parecem suficientes ou são difíceis demais de serem ditas.

— Precisamos encerrar ciclos, Liv.

Continuo, com cautela.

— Não podemos continuar assim. Já passou da hora de deixarmos isso para trás. Precisamos recomeçar em um lugar onde as coisas sejam melhores para nós.

Fico em silêncio por um instante, observando suas reações, antes de acrescentar, quase em um sussurro:

— Minha proposta de morarmos juntos ainda está de pé.

Ela desvia o olhar, mordendo levemente o lábio inferior, claramente em dúvida. O silêncio se prolonga, e eu espero pacientemente pela sua resposta. Quando ela finalmente fala, sua voz sai baixa, quase um sussurro.

— Eu não quero incomodar-te, Alex.

Diz ela, com a hesitação evidente em cada palavra.

— O teu apartamento… o teu espaço. Eu não quero ser um peso.

— Tu nunca serás um peso, Liv.

Respondo imediatamente.

— Muito pelo contrário. Eu adoraria ter a tua companhia. O apartamento é grande, vazio e, sinceramente, é bem solitário sem ti por lá.

Ela sorri de leve, um sorriso tímido, mas suficiente para iluminar seu rosto. Esse é o sorriso que eu queria ver mais vezes, um lampejo da Olívia de antes, daquela que sempre encontrava um motivo para sorrir, mesmo nas situações mais difíceis.

— Tu vais dormir aqui hoje?

Ela pergunta, com a voz um pouco mais animada.

— Sim.

Respondo, relaxando um pouco.

— Tenho que aproveitar que amanhã temos o leilão. Então, o que me dizes? Aceitas a minha proposta?

Ela hesita novamente, brincando com os dedos, mas seu semblante revela que está pensando seriamente sobre isso.

— Eu preciso pensar um pouco mais.

Responde com sinceridade.

— É tentador, mas ainda não sei se estou pronta para sair daqui.

— Não há pressa.

Digo suavemente.

— Leva o tempo que precisares. Só quero que tu te sintas bem e segura, seja onde for.

Acaricio seus cabelos antes de inclinar a cabeça e depositar um beijo suave em sua testa. Levanto-me e aliso as roupas, tentando afastar a sensação de peso que paira sobre nós.

— Vou te deixar descansar agora.

Falo, com um sorriso gentil.

— O pai me pediu para resolver algumas coisas, mas, mais tarde, podemos ver um filme, se quiseres. O que achas?

— Que tal assistirmos aos filmes do Tim Burton?

Ela sugere, com um brilho no olhar que eu não via havia muito tempo.

— Faz tempo que não assistimos.

— Ótima escolha.

Digo, sorrindo.

— Então, até mais tarde.

Saio do quarto com um último olhar para Olívia, ainda sentada no chão, agora com uma expressão um pouco mais leve. Fecho a porta atrás de mim e dou alguns passos pelo corredor, mas paro abruptamente ao ver minha mãe vindo na minha direção. Seu andar é apressado, e a expressão dura em seu rosto deixa claro que ela não está nada satisfeita.

— A Olívia está aí?

Ela pergunta, sem rodeios. Faço que sim com a cabeça.

— Ótimo.

Ela diz, ainda mais séria.

— Ela precisa ouvir umas boas verdades. Estou farta dessas atitudes, Alex. Sabe o que aconteceu? Ela atacou a Ofélia! Sem motivo algum!

Minha mãe tenta passar por mim, mas rapidamente bloqueio a porta, impedindo sua passagem.

— Alex, deixe-me passar.

Ela diz, com a voz carregada de autoridade.

— Eu sou sua mãe.

— E eu sou o irmão dela.

Respondo, mantendo a postura firme.

— Ser minha mãe não te dá o direito de vir aqui e julgar a Olívia sem ouvir o lado dela. Sabemos como a Ofélia pode ser provocativa, mãe.

Ela me encara, chocada com minha resposta, como se não acreditasse no que estava ouvindo.

— Alex, isso não justifica. Ela a atacou! Violência não se resolve assim.

— E eu concordo. Mas também não podemos ignorar que a Ofélia provocou. E, se vamos resolver isso, tem que ser de forma justa, com as duas presentes. Você sabe que isso nunca acontece.

Insisto. Minha voz está mais firme do que antes.

— Não podemos continuar com esse favoritismo. Se você quer justiça, precisa ouvir os dois lados.

Minha mãe cruza os braços, balançando a cabeça.

— Ofélia é sensível, Alex. Ela não aguenta esse tipo de situação. Quero resolver isso sozinha.

— Sensível?

Rio, sem humor.

— Mãe, Ofélia não é mais uma criança. Você a trata como se fosse frágil, mas ela sabe muito bem o que está fazendo. E lembre-se de uma coisa: Olívia também é sua filha.

O silêncio entre nós se prolonga enquanto ela me encara, os olhos escurecidos pela frustração. No fim, porém, ela não diz mais nada. Dá meia-volta e vai embora.

Solto um suspiro pesado e pego o celular ao sentir a vibração de uma notificação. Uma mensagem de Olívia aparece na tela:

“Obrigada, Alex.”

Passo a mão pelo rosto, exausto. Eu sabia que os próximos dias seriam desafiadores.

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