Capítulo 6 Ethan Carter
— Você vai participar dessa competição?
Pergunto a Damien assim que saímos da sala de reuniões da empresa.
Ele para no corredor, ainda com os olhos presos aos documentos que segurava, mas logo ergue o olhar para mim. Seus olhos frios parecem me analisar, como se estivesse pesando cada palavra antes de falar. Esse é o estilo dele: sempre calculado, sempre um passo à frente — ou, pelo menos, ele acha que está.
— Isso não é uma competição, Ethan.
Ele responde com o tom casual de quem faz uma constatação óbvia.
— Para que fosse uma competição, seria necessário um adversário à altura. E você, definitivamente, não é um.
O desprezo escorre em suas palavras como veneno, e a tensão no ar é palpável. É um padrão em nossas interações: Damien sempre tenta me diminuir. Mas, desta vez, sinto uma estranha neutralidade tomar conta de mim. Nossa relação nunca foi boa, e eu já deixei de me importar em tentar entender quando as coisas começaram a se romper entre nós.
— Se eu não fosse um adversário à altura, você não estaria tão ocupado procurando formas criativas de me diminuir, Damien.
Rebato, cruzando os braços enquanto mantenho o olhar firme no dele.
Vejo um leve sorriso curvar o canto de seus lábios. Ele sempre acha graça quando o confronto. Acredita que isso o coloca acima de mim, como se nada do que eu dissesse pudesse realmente afetá-lo.
Ele se aproxima. Os passos firmes ecoam pelo corredor de mármore da empresa e, quando para ao meu lado, murmura:
— Trate de se vestir decentemente para o leilão de amanhã. Não será como as festas patéticas que você costuma frequentar.
Seu tom de voz é carregado de superioridade. Em seguida, ele segue em direção ao próprio escritório, deixando-me no corredor com a sensação familiar de que sempre terei de lutar para ser levado a sério por ele.
Suspiro, observando Damien desaparecer pela porta de vidro do andar executivo, antes de seguir meu próprio caminho em direção ao elevador.
Ao sair da empresa, a luz do fim da tarde em Nova York é forte o suficiente para que eu coloque os óculos escuros. Caminho pelo lobby amplo e moderno do prédio, acenando para a recepcionista antes de chegar ao estacionamento. Minha BMW já está à minha espera. Entro no carro e dirijo calmamente pelas ruas movimentadas de Hudson Yards. O trânsito, de certa forma, me acalma, mesmo em meio ao caos organizado da cidade.
Levo cerca de vinte minutos até chegar a Tribeca. Estaciono em frente ao edifício e subo diretamente para a cobertura. Assim que entro, o ambiente é tomado por um silêncio que me faz relaxar instantaneamente. A cidade pode ser barulhenta e caótica, mas, aqui em casa, tudo parece mais calmo. Um contraste que eu aprecio.
— Astor.
Chamo, jogando as chaves sobre a mesa de centro enquanto me acomodo no sofá de couro.
Em questão de segundos, Astor aparece, sempre eficiente e pronto para qualquer demanda.
— Sim, senhor Ethan?
— Ligue para Donna e peça que me envie os arquivos do acordo de distribuição com a Elysium. Preciso deles o quanto antes.
— Claro, senhor.
Astor responde com sua habitual discrição antes de se retirar.
Fecho os olhos por um momento, tentando processar o peso das últimas horas. A tensão constante entre Damien e eu é sufocante. Nosso pai quer que sejamos implacáveis nos negócios, mas parece que isso se transformou em um jogo de poder entre nós, uma batalha silenciosa para descobrir quem conseguirá provar mais lealdade e competência.
Damien pode ser o favorito do nosso pai, mas eu ainda não desisti de mostrar o meu valor.
Decido ir para o quarto. Faço uma rápida higiene pessoal e troco de roupa por algo mais confortável. Deito-me na cama com o celular nas mãos, e minha mente inquieta começa a vagar.
Resolvo investigar um pouco mais sobre a família Montenegro.
Orlando Montenegro, o patriarca, é uma figura imponente. Ele tem três filhos: Alex e as gêmeas Olívia e Ofélia.
Alex, assim como o pai, é advogado e parece ser o sucessor natural dos negócios da família. Já encontrei Ofélia em alguns eventos, mas ela nunca chamou muito a minha atenção. É uma socialite como tantas outras.
Já sobre Olívia, nunca ouvi falar muito. Ela parece manter um perfil discreto, o que desperta minha curiosidade. Em nossa sociedade, onde todos querem ser vistos, ser invisível é quase um ato de rebeldia. Talvez ela seja diferente.
Alex, por outro lado, é o clássico herdeiro perfeito: competente, seguro de si e dedicado aos negócios da família. Será que ele é uma versão de Damien entre os Montenegro?
Fecho a pesquisa e me pego pensando nos próximos passos. Não sou do tipo que gosta de entrar em competições, mas talvez tenha chegado a hora de provar que, embora eu não tenha o mesmo interesse obsessivo de Damien, sou capaz de lidar com o peso da nossa herança.
Amanhã, o leilão será uma oportunidade de mostrar exatamente isso.
