Capítulo 7 Damien Carter

Enquanto analisava os documentos da Elysium Holdings, tentando traçar uma estratégia para o acordo de distribuição, ouvi leves batidas na porta. Soltei um suspiro e coloquei a caneta de lado. Sem tirar os olhos dos papéis, respondi em voz baixa, mas firme:

— Entre.

Os passos elegantes que seguiam em minha direção eram familiares. Minha mãe entrou no escritório como quem já sabe que está no comando, com a postura impecável e um brilho característico nos olhos. Era aquele olhar que sempre significava problemas — ou, como ela preferia chamar, “soluções”.

— Pela sua cara, parece que não está feliz em me ver.

Começou, balançando levemente a cabeça, como se minha expressão contrariada fosse um exagero.

Esforcei-me para manter a calma. Quando Celine Carter aparecia daquele jeito, cheia de confiança, significava que eu estava prestes a ser envolvido em mais uma de suas tramas. Respirei fundo e tentei manter a paciência.

— Mãe, estou no meio de algo importante. Vá direto ao ponto, por favor. O que você quer?

Ela sorriu, satisfeita por conseguir prender minha atenção com tanta facilidade. Celine sempre teve essa habilidade de conduzir qualquer conversa para onde mais lhe convinha.

— Seu pai me contou sobre a competição. Sinceramente, acho que isso é uma perda de tempo. Ethan não está nem um pouco interessado na empresa e você, sem dúvida, é a escolha óbvia.

Ela fez uma pausa dramática, observando atentamente minha reação.

— No entanto, a Elysium Holdings não é uma empresa comum. Tenho uma amiga, Natasha, que investigou a empresa para mim.

Soltei um suspiro silencioso, já cansado daquela conversa, mas ergui os olhos para demonstrar que estava prestando atenção. Sabia que ela não continuaria até receber algum sinal de interesse.

— Estou ouvindo.

Ela acomodou-se melhor na cadeira, como se estivesse prestes a iniciar uma palestra.

— Eles valorizam muito os princípios familiares. Se Sean ainda estivesse vivo, com certeza fecharia esse acordo. Mas com você e Ethan…

Ela suspirou, como se estivesse prestes a anunciar uma tragédia.

— Será impossível.

Franzi o cenho. Sabia que Ethan era uma causa perdida quando o assunto era responsabilidade, mas comigo seria diferente.

— Para ele, talvez. Mas eu não vejo dificuldade alguma.

O sorriso de minha mãe desapareceu, dando lugar a uma expressão completamente séria.

— Damien, por mais inteligente que você seja, às vezes me pergunto como consegue ser tão ingênuo. Não fale assim do seu irmão. E quanto a você… falta-lhe algo essencial.

— E o que seria isso, mãe?

Respondi com um evidente tom de sarcasmo, já cansado daquele jogo de mistérios.

Ela ergueu uma sobrancelha, como se a resposta fosse óbvia.

— Humanidade. Empatia. E… um casamento.

Quase ri, mas o olhar frio dela me fez perceber que não estava brincando.

— O quê?

— Você é frio, Damien. Autoritário. As pessoas têm medo de você. Além disso, não existe ninguém na sua vida. Aos olhos da Elysium, um homem da sua idade, inserido no mundo dos negócios, deveria ser casado ou, no mínimo, estar em um relacionamento sério. O mercado pode estar mudando, mas as tradições ainda prevalecem.

— E o que isso tem a ver com a empresa?

Retruquei, sentindo a irritação crescer.

— Meu sucesso não depende de um anel no dedo.

Ela simplesmente ignorou meu comentário.

— Marquei um jantar para você conhecer uma das filhas de Natasha. Talvez ela seja uma boa esposa. Ou uma boa namorada. Não importa, desde que você tenha alguém para apresentar. Expandir as operações da Orion na Europa seria um enorme ganho para nós, Damien. Não estrague tudo.

Ela deixou um envelope sobre minha mesa e saiu sem dar espaço para qualquer discussão.

Fiquei sentado por alguns segundos, com o olhar fixo no envelope que agora continha todos os detalhes daquele encontro arranjado.

Era tudo tão previsível vindo dela. Eu conseguia até antecipar os próximos passos. Mas, naquele momento, a ideia de conhecer alguém por obrigação me causava ainda mais repulsa do que o normal.

O jantar foi exatamente tão desconfortável quanto eu imaginava.

A filha de Natasha, Nesta, era deslumbrante, mas sua beleza perdeu o encanto conforme a conversa se arrastava. Ela falava sem parar sobre viagens, joias e eventos sociais, como se isso fosse suficiente para criar alguma conexão entre nós.

Eu apenas concordava mecanicamente, enquanto minha mente vagava, contando os minutos para que aquilo terminasse.

— Então… o que acha de marcarmos um segundo encontro?

Ela perguntou, com os olhos brilhando de expectativa.

— Talvez.

Murmurei, sem qualquer convicção. Ao fim do jantar, mal consegui esconder minha impaciência. Despedi-me de Nesta com educação, prometendo uma ligação que jamais aconteceria, e deixei o restaurante o mais rápido possível.

A noite havia sido longa e cansativa. Depois de um dia tenso no trabalho, tentando fechar acordos, e de um jantar arranjado que não poderia ter sido mais frustrante, encontrei-me no meio da multidão de um dos clubes mais badalados da cidade.

A música era ensurdecedora, as luzes piscavam em um ritmo frenético, e o calor das pessoas ao meu redor me lembrava do quanto eu precisava, desesperadamente, de um momento para me desligar da realidade sufocante que me cercava.

Desde o instante em que entrei no clube, senti a pressão sobre meus ombros diminuir, ainda que apenas por alguns momentos. Pedi uma bebida forte, algo que queimasse o suficiente para me fazer esquecer o fiasco que havia sido aquele jantar.

A filha da amiga da minha mãe… como era mesmo o nome dela? Nesta.

Não que isso fizesse alguma diferença. Nada nela havia despertado meu interesse. O jantar foi uma sequência interminável de momentos constrangedores. Eu fazia o possível para evitar nossos olhares enquanto ela falava sobre viagens, joias e festas exclusivas. Em determinado momento, sequer consegui prestar atenção. As palavras dela se dissolviam em um ruído distante.

Minha mãe tentara, mais uma vez, controlar minha vida, minha carreira e meu futuro. Casamento. Sério? Como se fosse simples assim.

A ideia de dividir minha vida com alguém como aquela mulher deixava um gosto amargo na boca. O sorriso ensaiado, os elogios cuidadosamente calculados, as perguntas sobre a empresa, os interesses da família…

Era evidente que tudo fazia parte de um jogo. E eu sempre odiei esse tipo de jogo. Levei o copo aos lábios. O uísque desceu queimando pela garganta, trazendo um breve alívio.

Observei o salão ao meu redor. As pessoas dançavam como se o mundo fosse acabar naquela noite. Havia uma liberdade ali que eu invejava.

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