CAPÍTULO 6: A NOITE AINDA NÃO ACABOU

KRISTIAN

Expiro lentamente, observando meu hálito formar uma nuvem no ar frio da noite. Meu corpo ainda está tenso, e meu coração se recusa a se acalmar. Isso foi muito perto.

Sinto o olhar de Adrian sobre mim, mas não consigo encontrar seus olhos.

“Chris?”

“Eu deveria ir,” digo imediatamente. Por mais que eu queira voltar ao momento que acabamos de compartilhar no clube, minha mente está a mil.

Será que o homem lá dentro conseguiu tirar uma foto? Baixei a guarda esta noite; e se mais alguém me reconheceu? Esqueci por um momento que minhas ações não são só minhas; tudo que faço afeta meu país.

Neste ponto, estou em uma espiral interna. É uma sorte eu ter dominado a arte de manter minhas emoções sob controle, ou estaria hiperventilando no chão agora.

Respiro fundo, tentando me acalmar. Primeiro de tudo, preciso sair daqui—preciso ir para casa. Começo a me mover, mas antes que eu possa passar por Adrian, ele se coloca na minha frente, bloqueando meu caminho.

Suas mãos estão casualmente enfiadas nos bolsos; seus olhos brilham enquanto ele sorri confiante.

“A noite ainda não acabou.”

Balanço a cabeça. “Já tive o suficiente por uma noite.”

Dou um passo para o lado, mas ele se move, me espelhando.

“Que tal isso? Se minha leitura de você estiver correta, você tem que ficar,” ele diz, inclinando-se um pouco mais perto. Sinto o cheiro do seu perfume novamente, e isso embaralha meu cérebro.

Passei a vida toda aperfeiçoando a arte de ser enigmático. Este quase estranho não será capaz de me ler. Então endireito minhas costas e cruzo os braços. “Tudo bem, Adrian. Qual é a sua leitura sobre mim?”

Seu sorriso se alarga, mas seus olhos ficam sérios. “Você é um viciado em regras e regulamentos. Você acha que o peso do mundo está em seus ombros e acredita que um passo fora da linha, um movimento fora do caráter, e o mundo vai desmoronar.”

Ele pega minha mão, e um arrepio percorre meu corpo.

“Então, enquanto os outros saem e se divertem, você fica no seu quarto pensando em mil razões pelas quais você não deveria. Você se convence de que está fazendo um sacrifício pelo time, quando a verdade é que está tão acostumado a se esconder que tem medo do que aconteceria se arriscasse e se expusesse.”

Cerrei os dentes enquanto ele me examina de cima a baixo e ri. Sem soltar minha mão, ele continua. “Posso apostar minha bunda sexy que você fugiu de casa esta noite—provavelmente uma casa chique, também. Seus dois pais amorosos provavelmente acham que você está no seu quarto, se preparando para...” Ele acaricia o queixo com a mão livre. “...um exame enorme, talvez, ou um grande evento.” Ele dá de ombros. “De qualquer forma, é algo muito importante, então esperam que você passe com louvor e traga ‘honra’ ao nome da família.”

Adrian poderia muito bem ter jogado água fria em mim. Quando eu apenas fico ali, olhando e sem dizer nada para contradizê-lo, ele sorri. Sua precisão assustadora me surpreende. Como ele conseguiu tudo isso com apenas alguns minutos de dança?

“Vamos lá, Chris. Qual é o ponto de fugir se você vai desistir agora?”

Eu não deveria. Eu sei que não deveria. Mas algo na maneira como ele me olha—como ele vê através de mim—me faz hesitar. Me faz querer fazer algo imprudente.

Suspiro e passo a mão livre pelo cabelo, bagunçando os fios arrumados.

Adrian balança nossas mãos de maneira brincalhona enquanto insiste. “Se você vai fazer algo, por que não fazer direito?”

Não. Vá para casa, Kristian.

“Tudo bem,” murmuro.

O sorriso triunfante de Adrian é ofuscante. “Esse é o espírito.”

Ele me conduz para fora do beco, ainda segurando minha mão. “Então, onde você gosta de ir para se divertir na cidade?”

A pergunta me pega desprevenida. Diversão? A palavra soa estranha, até ridícula. "Ah..." eu gaguejo, procurando desesperadamente algo, qualquer coisa, para dizer. "Eu... não sou daqui."

"Sério?" Ele levanta uma sobrancelha, divertido.

"Sim." Eu limpo a garganta, tentando soar convincente. "Eu não conheço muito bem a cidade."

Adrian dá uma risada suave. "Eu também não. Acho que estamos ambos perdidos, né?" Ele inclina a cabeça em direção à rua. "Vamos lá. Vi algumas coisas legais no caminho. Vamos explorar juntos."

Eu o sigo, meus pés se movendo antes mesmo que eu possa pensar. Sua confiança me puxa como uma maré, levando embora minhas reservas.

"O que você gosta de fazer?" ele pergunta enquanto caminhamos.

Outra pergunta que me pega desprevenida. Uma pergunta que eu nunca realmente considerei.

O que eu gosto de fazer?

Minha mente fica em branco, passando por funções reais, aparições públicas e atividades intermináveis. Além do fato de que não posso contar nada disso a ele, essas coisas são simplesmente obrigações que tenho que cumprir desde que nasci. Não sei se contam como coisas que eu gosto de fazer.

"Música," eu digo finalmente. Minha irmã e eu aprendemos pelo menos três instrumentos enquanto crescíamos. Também era uma obrigação, mas eu não odiava.

A expressão de Adrian se ilumina. "Sério? Que tipo?"

"Ah... clássica." Meu rosto queima. Parece estúpido admitir, como se eu estivesse dizendo a coisa mais chata do mundo.

Mas Adrian não ri. Em vez disso, seu sorriso se suaviza, tornando-se pensativo. "Vamos encontrar algo diferente então," ele diz. "Acho que vi alguns músicos de rua por perto."

Ele me guia por ruas sinuosas até chegarmos a uma pequena praça. Os sons me atingem primeiro—guitarras, pandeiros, vozes harmonizando de uma maneira que é crua e não polida, mas cheia de vida. Um grupo de artistas de rua está no centro, cercado por uma multidão dispersa.

A música não é nada parecida com as peças que toco ou ouço. É selvagem, indomada—como se pertencesse às próprias ruas. Não consigo parar de olhar.

Adrian se inclina, seu ombro roçando o meu. O calor de seu corpo corta o frio, e eu tremo, embora não seja pela temperatura. "O que você acha?" ele pergunta em voz baixa. "É..." Eu paro, procurando as palavras certas. "Lindo."

Os artistas mudam para uma melodia mais rápida, e o ritmo é contagiante. A multidão vibra, batendo palmas e balançando ao som. Não consigo evitar sorrir. Há uma liberdade aqui que eu nunca senti antes, e é intoxicante.

Estou começando a pensar que não era só o clube. É o fato de que estou fazendo algo que eu quero, sem nenhuma restrição.

Eu me viro para Adrian, querendo saber o que ele sente sobre o momento, e o encontro já me olhando. Seus olhos estão mais escuros agora, as luzes da rua capturando o dourado em suas íris castanhas.

"Você é fascinante," ele sussurra, como se estivesse falando consigo mesmo.

"Fascinante?" Minha voz falha ligeiramente, e eu limpo a garganta.

Ele não responde imediatamente. Em vez disso, dá um passo mais perto, tão perto que sinto o roçar de sua manga contra a minha. "Você sabia que seus olhos brilham com tudo? Como se você estivesse em um mundo completamente novo. Eu gosto disso."

O calor se espalha pelo meu peito, subindo até o rosto. Não consigo dizer se é vergonha ou algo completamente diferente.

Antes que eu possa responder, ele estende a mão, e seus dedos tocam levemente minha bochecha. É o toque mais sutil, mas me envia um choque. Seu olhar se desvia para algo atrás de mim, e quando eu me viro, vejo dois homens grandes se aproximando.

"Vamos," ele diz, sua voz mais suave agora, com um toque de urgência. "Ainda há mais para ver."

Eu não discuto. Apenas pego sua mão pela segunda vez nesta noite, e começamos a correr.

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