Capítulo 2 Capítulo - 02 - Bella McNight

O teto branco de meu quarto sinalizava o mesmo vuoto em meu peito. Em alguns meses farei dezenove anos e logo depois me casarei com um homem que nunca sequer vi em minha vida. 

Nasci para ser a esposa troféu. Era meu papel, meu dever com a nossa família, uma vertente da máfia italiana. Meu pai a muito custo se tornou um dos maiores nomes no submundo. E fora dele, Henry McNight sustentava a imagem impecável. A imagem que eu carregava como legado. 

E dentre muitas mulheres da máfia, podia dizer que tinha sorte, pois depois de muitos anos de tradição, meu pai me possibilitou a escolha de me unir ou não a um homem, sem amá-lo, e uma parte minha, queria aceitar essa escolha. Contudo, apesar de meu pai ser o capo di Capi e sua palavra ser lei, eu sabia que tinha que fazer sacrifícios pela minha família. Porque na máfia não existia outra forma de fazer uma trégua de paz e expandir os negócios além de usando a união que vem junto com o casamento. E era exatamente isso que teríamos, quando eu me casasse com Thomas Rossi Kuhn, o herdeiro da máfia alemã.

— Vamos, Bella. — Ouvi a voz da minha mãe do outro lado da porta de meu quarto, me trazendo de volta a realidade. 

— Já estou descendo — gritei de volta, me levantando e encarando o meu reflexo que acabava por parecer… estranho. 

Há pouco tempo eu era uma menina, que podia sonhar e escolher mais do que a cor que iria usar naquela noite, e logo… eu me tornaria a esposa de alguém. 

O vestido longo delineava meu corpo e me fazia parecer mais “adulta” e talvez tenha sido isso que me fez titubear por um momento, porque a imagem à minha frente não demonstrava meu verdadeiro eu. 

— Pipoca? — o meu pai chamou, e eu acabei sorrindo. Ele realmente não tinha jeito, sempre impaciente, e se Jenny estivesse aqui, ela certamente diria que ele está ansioso e que eu deveria me apressar.

Céus.

Eu queria Jenny aqui, e agora. Contudo, mesmo ela sendo minha prima de coração, esse era um momento… de família. E isso queria dizer pai, mamãe, meus irmãos e eu.  

Enquanto descia pelos degraus da escada de madeira escura e o carpete vermelho, me dei conta de como tudo na minha casa — que antes era comum — agora parecia teatral e totalmente envolvida naquela trama.

— Ah, meu Deus! Você está tão linda! — ela murmurou com a voz esganiçada, as lágrimas já prestes a serem derramadas. 

— Mamma[1], não chore — pedi enquanto encarava meu pai, que agora estava ao lado dela. — Como estou, papá[2]? — eu o perguntei, descendo enfim o último degrau e dando uma voltinha para que eles pudessem me ver, por completo.

— Maravilhosa, minha pipoca. — Ele estendeu sua mão grande, enlaçando a minha tão pequena, me puxando para si e depositando um beijo na minha testa. 

Minha mãe, que parecia querer fugir do assunto para não chorar, fungou enquanto dizia:

— Eu vou apressar os gêmeos, eles estão demorando demais e não é de bom tom aparecer no noivado da irmã, atrasados. — A ruga em sua testa demonstrava o quando ela estava tentando fingir que não estava brava ou preocupada, antes de finalmente ir para a cozinha.

Meu pai suspirou.

— Desculpa por isso — ele disse quando teve certeza de que estávamos sozinhos. — Eu realmente não queria que você estivesse nesse tipo de situação, pipoca. 

— Papá, eu concordei com o casamento, mas gostaria de saber se... 

— O que você quer dizer com isso? — me interrompe, seu rosto contraído de preocupação. Seria um grande vexame para minha família eu voltar atrás sobre o casamento em última hora. 

Apesar do acordo não estar totalmente decidido, eu era a princesa da máfia italiana, e quando eu dava minha palavra, eu não voltava atrás. Entretanto, não era uma completa idiota em entrar de cabeça nisso e não tirar um proveito.

— Eu quero negociar, acrescentar algumas cláusulas. — Levantei a cabeça, indicando ao meu pai que estava decidida a isso, e que como uma boa McNight, não iria baixá-la!

Eu sabia que esse acordo não dependia apenas do meu pai, mas ainda queria saber se tinha uma chance, se as coisas poderiam realmente ser diferentes do que estavam destinadas a ser. Eu era alguém que acreditava no amor, e estava disposta a encarar esse casamento pelo bem da minha família, mas isso não queria dizer que eu não entendesse o que vinha com preço, e se eu tinha a chance, eu iria negociar. 

Eu queria ter a chance de me resguardar, eu e meu futuro noivo nunca tivemos contato, mas os boatos sobre ele corriam por toda a Itália. Um homem sem escrúpulos que fazia tudo para conseguir o que queria sem medir as consequências. Impiedoso e sanguinário. E eu queria ter a possibilidade de voltar para minha família, respaldada e com honra estabelecida caso ele não cumprisse nosso acordo, como nunca me tocar contra minha própria vontade. Ou tocar em outra, pelo menos fazendo o que seus casos fazem na imprensa e eu seja envergonhada. 

— Bella, querida… você sabe que isso não depende apenas de mim, esse é um trato entre Vicente e eu, então, também depende dele — pai me lembrou, fazendo uma pausa, para olhar em direção a cozinha, obviamente checando se minha mãe estava vindo antes de continuar. — Você sabe que em primeiro lugar virá sempre sua segurança, eu sei o que deve estar passando em sua cabecinha. E não se preocupe, mia figlia[3]. Não há contrato ou acordo nenhum que me impossibilitaria cuidar do seu bem-estar, eu iria ao inferno por você. Mas ainda assim eu vou te perguntar mais uma vez, você realmente quer se casar com o Thomas?

Suspirei. 

— Papá… se não for com ele, será com outro desconhecido, não será? — eu perguntei, porque sabia bem como aquela conversa terminaria. — Eu sei que no fundo eu fui educada para ser uma esposa troféu, por mais que minha mãe não aceite isso, é uma tradição da máfia — afirmei —, então eu sei que não seria tão simples mudar. Se não me casar com ele, será outro. 

— Eu posso fazer tudo pela sua felicidade, querida, porém, claro, terá questionamento de algumas partes e, com certeza, muito derramamento de sangue — meu pai me explicou, enquanto colocava uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha, mas isso era algo que eu já tinha conhecimento.

— E para isso, um casamento arranjado é a melhor opção — eu murmurei, frisando meus lábios enquanto fechava minhas mãos em punhos. 

Eu queria tanto uma chance para falar a verdade ao meu pai, que eu amava outro homem, que tinha me apaixonado por ele da forma certa e que dificilmente… meu coração poderia pertencer a outra pessoa. 

— Pronto! — Pude ouvir o som do salto da minha mãe enquanto se aproximava novamente, me trazendo de volta e interrompendo nossa conversa antes que eu pudesse finalmente falar. — Vamos? — ela perguntou, se pondo ao lado do meu pai e ele assentiu.

Meus irmãos gêmeos, Donna e Tefo vinham logo atrás dela. Eles definitivamente não eram idênticos, mas agiam como uma unidade. Nós tínhamos quase três anos de diferença, e talvez isso tenha influenciado também com que eu os visse como realmente são unidos, mas totalmente diferentes, no físico e na personalidade. Stefano sempre teve os traços da minha mãe: nariz fino, mas do tamanho perfeito. Olhos verdes, orelhas pequenas, os lábios carnudos e cabelo loiro escuro. Mas ele sempre foi genioso como nosso pai. Donna, por outro lado, tinha olhos verdes, assim como os meus, cabelo longo e loiro claro. O nariz fino igual ao da nossa mãe e, como eu, ela tinha algumas sardas de leve no rosto.

Essas diferenças tornava os gêmeos tão únicos e também, era o que me fazia amá-los, porque eu amava todos na minha família e por isso também pensei que poderia negociar meu casamento com o meu pai, mas obviamente me enganei, eu teria que ir além. Teria que conseguir que Vicente me ouvisse e aí, talvez, eu pudesse ter o meu final feliz.

Eu passei tanto tempo pensando nisso que nem vi o tempo passar, e quando me dei conta, o nosso carro estava parado em frente a uma enorme mansão. 

— Todos prontos? — meu pai perguntou, me tirando dos meus pensamentos e me trazendo de volta a vida real, aos meus irmãos e a minha mãe, que desciam sem preocupações. Ele sorriu e então, estendendo a mão para mim, me perguntou. — E você, minha pequena? 

— Eu vou ficar bem, papá — falei e no fundo eu nem sabia se estava falando aquilo para tranquilizar ele ou a mim mesma, porque a verdade era que eu estava cheia de medos em relação a esse casamento arranjado. 

As borboletas começaram a crescer dentro da minha barriga. E uma parte minha não consegue evitar a ansiedade de tudo isso estar se tornando real. Mas era hora de ser forte, de fazer algo importante pela família e não pensar em um futuro que não irá se concretizar — eu Charles e tudo o que desejamos para nós dois. E eu não iria falhar. 

Eu vi meu pai entregar a chave do nosso carro para um manobrista e enquanto tomava o braço da minha mãe, eu via Jenny, Pietro e Dante vindo atrás dos meus tios, Paola e Hendrick, que tinham nos acompanhado em outro carro. 

Quanto todos nós colocamos os pés na entrada daquela mansão, eu soube que não havia volta, porque todos os convidados ficaram em silêncio e olharam para nós. Para… o verdadeiro centro das atenções. 

Com naturalidade, meu pai sorriu e enquanto ele ia em direção a um homem de cabelo grisalho, terno azul e olhos escuros, eu via uma linda mulher vir em direção a minha mãe e a mim.

— Oh, Deus! Essa é a Bella, não é? Que menina mais linda! — aquela mulher disse olhando para mim, como se eu fosse algo precioso, e quando sorri, sem graça, mamãe se adiantou em perguntar:

— Sim, e onde está o noivo?

— Ele já está descendo... Entre e fiquem à vontade em minha casa, em breve seremos apenas uma família.

A mulher loira sorriu alegremente.

O grande salão da mansão dos Kuhn parecia majestoso, e entrar aqui pela primeira vez me causava calafrios. Nossas mães praticamente enlouqueceram e decidiram entre si que cada uma faria um evento, Francesca faria o noivado e minha mãe, Liz, faria o casamento.

Ao percorrer meus olhos pelo ambiente, minha atenção foi arrebatada pelo homem sobre o mezanino. Sua pose máscula e forte, sua aura sombria, seus olhos de um tom azuis penetrantes se prenderam nos meus, sugando todo o ar de meus pulmões. Seus passos firmes sobre a escada entalhada de cristais — como se ele estivesse sugando minha alma para si, ele era o diabo em forma física de anjo — e por alguns segundos eu apenas quis que ele envolvesse minha cintura com suas mãos que imaginava serem grandes por estarem escondidas nos bolsos de sua calça escura, que abraçava perfeitamente suas pernas tonificadas. O terno de três peças elegante, o sorriso sedutor e os cabelos perfeitamente alinhados, penteados para trás. Porra, o homem mais lindo que já vi em minha vida. 

—  Ah, aí está ele — Francesca anunciou apontando para o homem que caminhava em nossa direção, sem desviar os olhos dos meus. 

Não podia ser ele. Deus, eu estava perdida. 

No que eu estava pensando?

— Suponho que a senhorita seja a minha prometida, Srta. McNight — ele disse, estendendo para mim, uma de suas mãos. — É um prazer conhecê-la, Bella. 

Eu senti meu corpo inteiro estremecer quando minha mão tocou a sua, e pude jurar que meu coração idiota errou uma batida antes que eu pudesse responder. 

— É um prazer conhecê-lo, senhor Kuhn. — Eu tentei impregnar a minha voz com calmaria, mas a verdade era que eu estava perdida, desconsertada, e os olhos profundamente azuis de Thomas pareciam enxergar dentro da minha alma. É claro que para piorar a situação, todos ali nos encaravam, como se fossemos algum tipo de espetáculo.

— Se me dão licença… — Thomas disse, me pegando de surpresa, e obviamente, também aos seus pais. — Minha noiva parece precisar de um pouco de ar fresco, então se me permitem, eu a acompanharei — ele simplesmente sugeriu, ainda segurando minha mão.

— Claro — Vicente disse como se não fosse nada. — Leve a Srta. McNight para tomar um ar, será bom para vocês dois.

Uma parte minha queria recusar pela simples ousadia de Thomas ao me usar para sair daquela situação, mas a outra estava agradecida demais para isso, então, eu me contive em dizer.

— Obrigada — murmurei enquanto nos afastávamos da multidão e entravamos em uma das grandes varandas da mansão Kuhn. — Uau… — Me ouvi dizer, encarando aquele gigantesco jardim, que era obviamente bem maior que o nosso. 

Thomas, que antes tinha uma postura elegante e sorridente, educado como um verdadeiro diplomata, agora parecia mais despojado, enquanto se debruçava sobre a varanda, com um cigarro pendendo entre os dedos, prestes a acender. Alguns fios rebeldes caiam sobre seu rosto quando ele me encarou, e o olhar daquele homem… me fazia perder o ar.

— Então, Srta. McNight… — ele me chamou outra vez e eu estremeci. — O que pensa sobre esse casamento? — Thomas me questionou, seu tom agora, parecia menos cavalheiro, menos… cortês. Era sagaz e direto, quase… sarcástico. 

[1] Mãe.

[2] Pai

[3] Minha filha.

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