Capítulo 3 Capítulo - 03 - Bella McNight

Quando eu ouvi ele me perguntar o que eu pensava sobre o casamento, tive vontade de simplesmente falar a verdade, mas uma parte minha estava indecisa. Afinal, tudo isso era novo e eu não tinha certeza se podia ou não confiar em Thomas.

— É o que é, faz parte do nosso dever. — Dei de ombros, encarando o jardim que tínhamos à frente, e Thomas me surpreendeu ao bufar, como se a minha resposta não fosse realmente boa.

— Céus… — ele resmungou, tragando o cigarro. — Se esses velhos não fossem tão teimosos, as coisas poderiam ser diferentes, mas não há mesmo o que se fazer a respeito, o que talvez poderíamos fazer é tornar as coisas mais… agradáveis para nós dois, não acha? — ele disse e o seu tom parecia… lascivo. 

—  Como assim, o que você quer dizer com tornar as coisas agradáveis?

— A primeira coisa que temos que concordar, querida, é jamais mentir um para o outro. É claro que estamos nos casando apenas para um benefício de terceiros, eu ganho mais força com meus homens, você se torna a mulher de um Capo. E nossa família cresce comercialmente. O acordo perfeito, mas... há algo que não está sendo levado em consideração aqui.

— Como o que, por exemplo?

— Somos nós dois que teremos que manter esse teto de cristal em cima da nossa cabeça. Então volto a repetir, primeiro nunca, em hipótese nenhuma minta pra mim — seu pedido pareceu mais uma ameaça — e eu te garanto que nunca mentirei para você.

— Verdade? — perguntei, sentindo a esperança retornar ao meu corpo.

— Por que eu mentiria para você, querida? Você é a única em quem eu devo confiar. Depois que os votos forem feitos, estaremos ligados para sempre — ele diz, e aquele “querida” veio com um tom cantarolado, cheio de provocações.

— Acha mesmo que conseguiremos construir algo dentro desse casamento arranjado? — acabei perguntando e ele me encarou.

— Nós temos que construir, porque não existe uma forma desse casamento ser encerrado sem a morte de um de nós — suspirou. — Mas isso não quer dizer que não possamos nos divertir. 

— Divertir? 

— Minha doce Bella, não existe um motivo para nós dois nos mantermos fiéis dentro desse casamento — Thomas sibilou. — a não ser que acabemos por nos apaixonar, não vejo problema em termos amantes, desde que seja feito de forma correta. Afinal, traição não é bem-vista no nosso meio. 

— Isso parece… bem melhor do que eu havia pensado que poderia ser… 

— Qual parte? — questionei.

— A parte em que eu fodo quem eu quiser, ou a parte em que você se apaixona por mim? — ele zombou, um sorriso malicioso brotando em seus lábios.

Deus. Como eu iria viver sob o mesmo teto que esse homem? Thomas Kuhn parecia ser… o próprio diabo, com aqueles olhos felinos e um sorriso ardiloso.

— E caso seja eu que queira foder com outros homens?

Lentamente ele soltou mais uma baforada de fumaça, e antes mesmo que eu pudesse notar, Thomas já estava em cima de mim, me prendendo contra a parede. Seu cheiro misturado com o tabaco e algo parecido a almiscarado. Seu hálito quente soprou contra minha orelha. Sua voz rouca, alucinando meus batimentos cardíacos, quando ele enfim sussurrou.

— Eu não me importo!

Ele se afastou dando as costas para mim, eu não conseguia ver seus olhos e muito menos decifrar o que ele poderia estar pensando.

— Olha, Thomas… nós dois sabemos que esse casamento surgiu de um acordo de negócios e levando em consideração o que você mesmo já falou, nenhum de nós tem pretensão de se envolver romanticamente com o outro — esclareci. — Sem falar que… você já deve ter alguém. 

Thomas Kuhn podia até ser ardiloso e, para mim, ter uma placa de neon em sua cabeça, acenando com “perigo, não se aproxime”, mas isso infelizmente não diminuía o quão bonito e obviamente carismático ele era. Sem falar, claro, que ele era mais velho. 

A probabilidade daquele homem ter alguém em sua vida era 80%, nem que fosse ao menos uma amante ou prostituta que ele mantinha. 

— Sim — ele acabou dizendo, com um sorriso de canto enquanto olhava para frente, dando batidinhas no cigarro para que as cinzas caíssem. — Eu tenho alguém, bom… acho que ainda tenho. 

— Por que acha? — questionei com uma das sobrancelhas erguidas e ele me encarou.

— Digamos que ela… as coisas são mais complicadas para pessoas como nós dois, querida — ele explicou de forma “resumida”. — Acho que você pode me entender. 

Deus, como eu poderia não entender? Afinal, esse era justamente o medo que eu tinha, que o meu Charles não entendesse a situação na qual estou nesse exato momento. Que tudo desse errado entre nós dois. 

— Mas… você gosta dela? — acabei questionando, me aproximando de Thomas e me debruçando sobre a sacada, e ele me olhou de canto.

— Sim, estou com ela há três anos, então suponho que sim… — murmurou. — Mas isso não é algo tão simples assim.

— Por quê? — questionei.

— Não posso assumir nosso relacionamento — ele explicou e então virou para mim, com o corpo apoiado de lado na varanda. — Não vivemos na barbieland[1], Bella. Isso aqui é o submundo e dentro do submundo, relacionamentos são eternos. O nosso divórcio é um passo que o meu pai espera não ter que testemunhar, e para eu assumir alguém de fora do nosso mundo, seria inviável. Minha mãe e ele jamais a aceitariam tão facilmente, ainda mais com esse casamento em vista.

Ele tinha um ponto e eu tinha que admitir, não estava errado. Na máfia nada era simples e Thomas obviamente estava se preparando para tomar o lugar de seu pai, a pressão sobre ele deveria ser bem maior do que a que eu carregava. Ser um troféu não chegava nem perto do peso de se tornar o líder de uma família.

— Thomas… — eu o chamei e ele assentiu. — O que pretende fazer para que isso entre nós dê certo, ou pelo menos para que todos acreditem que isso — gesticulo — entre mim e você seja verdadeiro?

— É bem simples, querida… — ele diz em um ronronar. — Aos olhos deles, nós seremos o casal perfeito, e por trás das cortinas, seremos sinceros e respeitosos um com o outro, o que acha? 

— Se esse é o caso, então tem algo que eu preciso te confessar — falei com aquele nó em minha garganta parecendo cada vez maior. — Eu já tenho alguém que amo. — Acabei por dizer, e finalmente poder pronunciar aquelas palavras para outra pessoa era quase como tornar real, era como se… um peso estivesse saindo do meu peito.

Por um momento, tive a impressão de que os olhos de Thomas tinham se tornado mais escuros, mas ele ainda assim, sorriu.

— Então você gostaria de mantê-lo? — ele perguntou, com os lábios arqueados e aquela expressão de que ainda desejava saber mais. 

Sorri. Se ele queria saber mais, eu poderia falar.

— Sinceramente, sim, mas isso não depende apenas de mim. Eu o conheci no ensino médio — confessei. — Foi algo… mágico. Eu queria ter apresentado ele pra família, queria ter… feito muitas coisas, mas como você disse, não é tão fácil, certo? Mas… ele nem faz ideia do nosso casamento, do motivo pelo qual eu fui criada, e eu nem sei como ele vai reagir — murmurei. — Talvez, nem eu mesma aceitei a ideia de que eu preciso me casar com um outro homem… e eu nem posso julgá-lo por isso. 

— Querida, ele seria um idiota se não entendesse você. — Ouvi Thomas dizer e de alguma forma, seu tom parecia diferente.

— Não é tão simples assim. 

— Na verdade é — ele falou. — E nós podemos fazer um acordo. 

Pisquei.

— Acordo?

— Sim. — Thomas se aproximou, seus dedos segurando uma mecha do meu cabelo. — Minha cara… o nosso mundo é baseado em acordos, então, por que não fazermos o nosso casamento da mesma forma?

Seus olhos percorreram o meu corpo e eu vacilei por um segundo. Por que o meu futuro marido tinha que ser tão… atraente? Deus! Olhe o tipo de coisa na qual eu estava pensando!

— Que tipo de… acordo? — Acabei perguntando, fechando meus olhos por alguns segundos para pensar de forma coerente, mas essa certamente foi uma péssima ideia, porque quando abri meus olhos, Thomas estava mais perto, seus lábios arqueados em um sorriso malicioso e seus olhos tão fixos nos meus que senti minha alma sendo despida naquele exato momento.

— É bem simples, minha cara — ele disse com aquele tom ardiloso e aveludado. — Eles querem um casamento feliz para prosperidade dos negócios da família, e nós podemos dar isso a eles — Thomas disse como se não fosse grande coisa. — Na frente da mídia e de nossas famílias, seremos um casal perfeito, apaixonado — ronronou, e agora seus dedos acariciavam minha bochecha, um toque quente que fez uma corrente elétrica passar pelo meu corpo — e quando estivermos a sós… — Ele fez uma pausa, seu sorriso se tornando ainda maior, ao ponto de quase me fazer perder o ar. — Nós finalmente poderemos encontrar com as pessoas das quais gostamos.

Ele disse, voltando drasticamente ao normal e me fazendo piscar, demorando alguns segundos para entender.

— Como?

Thomas sorriu, se afastando de mim.

— É um acordo bem simples, querida. Assim, nenhum de nós dois terá que sofrer — ele disse deslizando uma das mãos pelos cabelos. — Você pode estar com o seu amor “mágico”, e ainda poderemos manter as aparências — ele falou com aquele sorriso de canto de quem sempre sabia o que estava fazendo.

Não era um acordo ruim, na verdade, era bem melhor do que eu sequer havia sonhado, mas… era verdade? Eu realmente podia confiar em Thomas?

— Eu… — Mordi meu lábio, sentindo certa ansiedade tomar conta de mim. — Eu posso concordar com isso, mas… como faríamos tal coisa sem que ninguém desconfie? Sempre vai existir seguranças por todos os lados, e você sabe que no submundo existem olhos onde quer que você vá — argumentei, mas Thomas bufou, como se não fosse relevante.

— Querida… existem coisas com as quais você nunca mais vai ter que se preocupar depois que se tornar minha — ele ronronou, se aproximando e me segurando pelo queixo. — A única coisa que precisa fazer é me dizer sim. 

Sim?

Sobre qual parte em específico?  

Em nosso casamento? No fato de me tornar sua? No acordo? 

Minha mente já havia se tornado turva a essa altura do campeonato, aquele perfume cítrico que Thomas usava já tinha inundado minhas narinas e eu me perguntava… em qual parte eu tinha me perdido. Tudo em torno daquele homem era diferente, mas a forma como meu corpo e minha mente reagiam, certamente não estava dentro dos padrões.

— Bella? — ele me chamou, me tirando do meu transe. — Você está me ouvindo? 

— Ahm? Sim, é claro que sim — falei pigarreando e tentando voltar a mim, a minha versão que estava mais preocupada com aquele casamento, do que o quanto aqueles olhos azuis e lábios rosados me atraiam.

Thomas e eu tínhamos um acordo. Isso era suficiente pra mim, era algo no qual eu poderia me agarrar e se o meu Charles concordasse com tudo isso, em manter um relacionamento extraconjugal, nós enfim poderíamos ter nosso final feliz. 

— Thomas? Bella? — A voz da mãe de Thomas surgiu próximo a nós dois e nos viramos para encará-la, quando ela abriu a porta. — Deus! Vocês vieram tomar um ar ou fugir da festa? Venham! Vicente está esperando por vocês para anunciar o noivado. 

— Já estamos indo, mamma — Thomas disse, tomando minha mão para me guiar de volta ao salão.

No momento em que entrei no salão pela segunda vez, eu encarei todas aquelas pessoas e grunhi.

— Por que tanta gente?

Thomas sorriu.

— Acostume-se, querida. Minha mãe é sempre exagerada quando se trata de convidados — ele disse com naturalidade. — Espere para ver quantos convidados teremos em nosso casamento, isso sim vai te surpreender.

Talvez fosse pela forma gentil com a qual Thomas me tratava, ou talvez pelo jeito que ele agiu desde que cheguei, que fazia uma parte minha se sentir confortável ao lado dele, quase como se eu estivesse… segura. 

— Ah! Aqui estão vocês! — Eu ouvi Vicente falar e então ele pegou uma taça de champanhe e proclamou em alto e bom tom, fazendo todos os convidados pararem o que faziam, para olhar para ele. — Boa noite a todos! Como todos vocês que estão aqui presentes, sabem, hoje é um dia muito especial — ele disse cheio de orgulho. — É o dia em que a família Kuhn e a família McNight oficializam a união que está por vir. Thomas… não tem algo que você queira falar?

Eu encarei Thomas e ele assentiu, tomando a frente do pai e me guiando para o meio do salão.

— Nessa noite tão linda, eu agradeço pela presença de todos, mas principalmente pela presença dessa linda mulher, com quem terei o prazer de estar pelo resto da minha vida, se ela assim desejar — ele disse com aquele tom aveludado e sedutor, que fazia meu corpo estremecer. — Senhorita Bella McNight… — ele se ajoelhou, tirando uma caixinha de veludo preto do bolso — você me daria a honra de ser seu marido?

Eu pisquei, encarando aquele anel solitário de esmeralda, o design delicado e a forma como parecia ter sido feito com tanto cuidado, era quase emocionante, mas uma parte minha não pode evitar de se sentir desnorteada, porque em minha imaginação era Charles quem me faria esse pedido. 

Olhei para Thomas com o joelho no chão, esperando uma resposta minha, e não pude evitar de dizer, me sentindo de certa forma, emocionada com aquele pedido. 

— É claro que sim… 

Thomas se levantou, tirando o anel com cuidado da caixa e tomando minha mão, ele o colocou em meu dedo anelar, apenas para em seguida me puxar pelo quadril e depositar sobre meus lábios um beijo avassalador que me envolveu por completo.

Por um segundo — durante aquele momento em que o beijo durou — não havia contrato, acordo, nem nada mais em minha mente. Havia apenas nós dois, nossos corpos tão próximos e os seus lábios nos meus. Até ele finalmente separar-se de mim e sorrir ao murmurar em meu ouvido.

— Não se preocupe com isso, querida… é apenas parte do teatro, porque os jogos já começaram por aqui.

Eu me vi sorrindo, e agarrada ao seu terno por instinto, eu murmurei.

— Sobre isso, precisamos conversar.

Thomas piscou.

— Teremos tempo para isso, a nossa noite acabou de começar.

[1]O mundo mágico da Barbie

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