Capítulo 4 Capítulo - 04 - Bella McNight
Depois do pedido de Thomas, nós tivemos que agir como o que éramos: o motivo daquela festa estar acontecendo, e por uns trinta minutos, ficamos presos entre os convidados e os sorrisos de felicitações pelo noivado, mas logo depois, todos voltaram ao que realmente queriam fazer: beber e tratar de negócios. Graças a isso, Thomas e eu nos esquivamos dali e tomando uma das salas daquela mansão e nos sentamos para conversar.
Cada detalhe do nosso acordo foi estabelecido e Thomas até mesmo sugeriu redigir um contrato, caso isso me deixasse um pouco mais segura, mas se tinha algo que eu tinha aprendido sobre a máfia, era que não se mantinha provas de algo que você não quer que descubram. Então eu cuidadosamente neguei. Afinal, nosso acordo consistia em manter as aparências, então beijos, contato físico e interações íntimas em público eram claramente algo necessário, mas não havia motivos para isso acontecer quando estivéssemos sozinhos.
Então, enfim, pude retornar para casa e enquanto meus tios e meus pais brincavam sobre o quão bonito meu noivo era, eu me perguntava como eu contaria para Charles sobre Thomas, e se ele em algum momento aceitaria essa loucura que era a minha vida e o mundo onde eu havia nascido.
Os dias começaram a se passar mais rápido depois daquilo tudo e eu sinceramente não tinha criado coragem para contar toda a verdade para Charles, porque mesmo com aquele acordo, eu não tinha ideia de como ele poderia reagir.
Eu tinha muito medo de que ele não entendesse, que… não conseguisse aceitar, não somente a ideia de que eu fazia parte de uma família como a minha, mas… sobre o casamento.
O fato dele vir de uma família humilde sempre pareceu deixar ele inseguro em relação ao nosso relacionamento, e eu sabia disso porque sempre fomos abertos um com o outro. Nós nos conhecemos no primeiro dia de aula, e como Charles entrou como bolsista em nossa escola do ensino médio, ele sempre pareceu se sentir mal com algumas coisas que deixavam óbvio demais a nossa diferença social, mas foi tão natural a forma como ele se tornou amigo de Jenny e logo em seguida meu, que nenhuma de nós se importava muito com isso.
Mas agora, isso era um pouco diferente, porque quando se tratava do nosso relacionamento, a insegurança dele começava a pesar. O que eu poderia fazer se ele simplesmente resolvesse que não importava como eu me sentia em relação a ele?
Charles não me parecia alguém que poderia simplesmente aceitar um acordo como aquele feito por Thomas, com a mesma facilidade com a qual se dá bom dia. Não. O meu Charles era diferente de Thomas e eu, ele vivia de outra forma e certamente em outro mundo. Ele sempre se mostrou prestativo, sempre preocupado em como eu me sentia, nunca me deixando sozinha no intervalo, e foram coisas assim que foram me conquistando. Com o seu jeito simples de ser, Charles se mostrava cada vez mais incrível e eu ainda me surpreendia pela forma como ele nunca parecia estar triste.
Não. Charles era uma daquelas pessoas que sempre tinha um lindo sorriso em seus lábios e talvez… isso tenha sido um dos muitos motivos pelos quais eu me vi completamente apaixonada por ele nesse período de um ano desde que nos conhecemos.
— E aí, já falou com ele? — Jenny me perguntou jogando sua bolsa em cima da mesa do refeitório da faculdade, fazendo o barulho me arrancar do meu devaneio e me jogar na realidade fria e cruel, onde talvez… eu estivesse prestes a perder o meu namorado.
Havia menos de dois minutos que eu tinha me sentado ali, numa tentativa idiota de reservar os nossos lugares, porque como em todos os outros dias desde que entramos na mesma faculdade, eu esperava que nós três — Jenny, Charles e eu — nos reuniríamos ali para almoçar, mas Charles estava atrasado e isso me dava… mais tempo para pensar.
— Não — eu falei simplesmente e encarei Jenny enquanto ela se sentava à minha frente sem a menor preocupação aparente em seu rosto.
Deus, como eu a invejava em momentos como esses.
— Quer que eu fale com ele? — Jenny me perguntou, porque no fim, todos nós éramos bem próximos, mas isso não era algo tão simples de se resolver e muito menos de se… falar. Eu não podia simplesmente deixar para ela falar.
Era pessoal.
— Não, sou eu que preciso fazer isso — falei respirando fundo e pensando na desculpa que daria, na forma que diria a ele que teria que me casar com outro homem. Como diabos isso poderia soar… decente sem que eu o colocasse em risco? Sem que… ele descobrisse sobre a minha família? Era praticamente impossível.
— Se precisar de ajuda, é só me chamar. — Eu ouvi Jenny dizer, como sempre tentando me ajudar e eu sabia que no fim, ela era a única em quem eu poderia confiar.
— Eu sei… — murmurei com um sorriso, sinceramente feliz pelas coisas que aconteceram em nosso passado não interferir na amizade que Jenny e eu construímos enquanto crescíamos juntas.
— Então… como vão os preparativos para o casamento?
Ela acabou me perguntando e eu senti um arrepio percorrer todo o meu corpo ao simplesmente ouvir a palavra casamento sair pelos lábios da minha prima. A verdade era que no fim eu ainda não tinha conseguido me acostumar com a ideia de que logo, eu estaria… casada.
— Eu não sei. — Acabei respondendo com toda sinceridade e Jenny me encarou.
— Como não? — Ela franziu o cenho sem entender.
— A minha mamma e a Francesca estão organizando tudo, então… não é como se eu… tivesse que me envolver, ou como se tudo isso fosse sobre mim — expliquei, suspirando enquanto de certa forma agradecia a Deus por não estar envolvida diretamente nisso, mas antes que eu pudesse sequer por isso em palavras, Charles surgiu, me pegando de surpresa.
— O que estão organizando? — ele perguntou, se sentando do meu lado e me encarando com aquele sorriso largo.
— Ah... é... — balbuciei, como uma verdadeira idiota.
Eu nem conseguia pronunciar uma frase, fazer com que algo fizesse sentido na minha cabeça, porque… eu não sabia mentir pra ele.
— Uma festa do pijama — Jenny então disse, mentindo enquanto tomava a frente da situação, mas aquela obviamente não era a melhor mentira que ela já tinha contado.
— Uma festa do pijama? Sério? — ele perguntou com os lábios arqueados. — Não estão grandinhas pra isso?
— Isso não é da sua conta — Jenny respondeu mostrando a língua pra ele e Charles bufou, de forma descontraída.
— Okay, então… quando vai ser? Eu também estou convidado, certo?
— Não. É só de meninas — Jenny afirmou de forma direta, o que faz Charles me encarar.
— Certo, então… quando eu vou conhecer os seus pais? — ele me perguntou, selando meus lábios e me olhando com expectativa.
— Desculpa… — murmurei. — Eles mal chegaram e já foram viajar outra vez. — Acabei dizendo, como sempre fazia. Porque no fim, essa era a desculpa que eu sempre usava para que eles não se conhecessem: meus pais estão sempre viajando a trabalho.
Eu estava ficando tão cansada disso. Era tão errado mentir para Charles, e eu sinceramente não sabia até quando ia conseguir levar essa mentira, mas no momento, eu só precisava me preocupar com o contrato entre meu pai e Vicente, e também… o meu acordo com Thomas.
— Hoje vai ter uma festinha, na minha casa — Charles falou todo empolgado, me tirando do meu devaneio e me encarando com expectativa. — Você vem, não é? Eu vou ficar triste se a minha namorada não aparecer — ele falou e Jenny e eu nos entreolhamos, porque era naqueles momentos que o fato de termos crescido juntas ajudava muito. Um olhar era suficiente para ela saber que, outra vez, eu iria precisar de ajuda.
— Claro que sim, meu amor. — Eu acabei dizendo, beijando Charles e acariciando seu rosto. — Eu nunca te deixaria sozinho.
Ele sorriu, parecendo satisfeito com a minha resposta, e graças a isso nós pudemos terminar o nosso lanche a tempo de voltarmos para nossas salas.
Assim que as minhas aulas acabaram e eu saí da sala, a primeira coisa que eu consegui ver naquele corredor extenso que possuía paredes brancas e bem iluminadas foram os olhos de Jenny, me encarando com uma clara expressão que dizia: “o que você pretende fazer?”
E a mais pura verdade, era que eu também não fazia a mínima ideia, tanto que naquele presente momento, eu estava me amaldiçoando dentro da minha própria cabeça por isso.
— E então? — Jenny apenas se aproximou, aquele ar preocupado começando a pairar em seu semblante. — O que a princesa vai fazer para conseguir encontrar o seu príncipe esta noite?
Eu suspirei com nítida frustração, até porque… isso tudo parecia complicado demais, ainda mais para uma mera saída, uma que era apenas para ir em uma festa.
Uma que… não podia ter vindo em um momento pior, para ser bem honesta, porque era logo quando eu estava com coisas até o pescoço para falar, para me organizar.
— Acho que a única forma que eu tenho para ir naquela festa, é sair escondida. — Nem eu mesma acreditei naquelas palavras quando elas saíram da minha boca, isso enquanto a minha prima parecia sorrir, como se sentisse que havia voltado ao ápice de sua adolescência. — Por que você parece tão feliz com isso?
— Um pouco de emoção não faz mal pra vida, certo? — ela falou com uma empolgação que eu não conseguia compreender.
— Jenny, eu acredito que a minha vida já tenha emoção demais para o meu gosto — bufei ao dizer, até porque… eu estava literalmente vivendo aquelas coisas que você geralmente só encontrava em livros, com contratos de casamento e tudo mais.
Já era o suficiente pra mim.
Eu não precisava mais que isso.
— Exatamente, Bella! Você já está passando por tanto estresse, talvez um pouco de romance adolescente não te fará mal, uma coisa mais… Romeu e Julieta? — ela soltou, o que apenas me fez sentar no banco no pátio da faculdade, cinza e cercado por uma grama baixa, bem embaixo da sombra de uma árvore. — Então, sim, eu estou empolgada, e sim… eu vou te ajudar nisso, e te dar a sua noite de princesa.
Do jeito que a minha prima falava, parecia que eu estava indo fazer a loucura da minha vida, e sinceramente? Eu não sabia se aquela suposição estava tão errada. Afinal, eu sairia sem os homens dos meus pais — já que eu sairia sem ninguém saber —, e também… eu não sabia o que a noite me reservava, principalmente… se eu resolvesse contar tudo de uma vez para o Charles. Porque no fim, eu sabia que teria que contar para ele uma hora ou outra, e também tínhamos o fator de: era sempre pior quando a pessoa descobria sozinha.
Mas de qualquer forma, tanto eu quanto Jenny fomos para a minha casa nos arrumar, enquanto ela parecia me usar de boneca, praticamente querendo escolher tudo para mim, e até mesmo fazer o meu penteado. Claro, teve uma coisa ou outra que eu não podia deixar do jeito que ela queria, mas… esse não era o foco.
O foco era… como nós iríamos sair dali, sem sermos notadas pelo meu pai, e muito menos, pelos homens dele?
Mas eu tinha uma vantagem por sempre ter prestado atenção em algumas coisas, e uma delas eram os horários de ronda, e as partes que em certos horários não havia ninguém, e uma dessas partes no presente momento era o jardim. Jardim esse que era extenso, e tinha uma bela portinha nos fundos, que seria o foco da minha fuga com Jenny.
Foi meio complicado sair do meu quarto sem ser vista — o que seria meio complicado por conta das roupas e maquiagem de festa —, mas nada que um pouco de calma e uma escondida ou outra nas colunas e nas paredes não ajudasse. Tanto que quando finalmente chegamos na parte de baixo, e eu vi aquela bela porta que dava para a parte de trás do jardim, eu consegui sentir os meus pulmões respirando novamente.
