Capítulo 1 A Escrava do rei - Parte I
Elowen
Minha pele grita devido as últimas agressões que sofri. Ser escrava significa que qualquer erro, por mínimo que possa ser, ele é descontado em meu corpo: dias sem comer; escassez de água e o mais comum, as chicotadas. Ontem derramei água por estar fraca demais e minha recompensa foram vinte chibatadas.
Minhas costas estão queimando, os cortes recentes ainda se fechando e nada pode encostar na pele dolorida, por isso estou deitada de bruços no catre simples sem nada na parte de cima do corpo. O quarto é escuro e se parece mais com uma cela, e fede a mofo, a luz do sol não chega aqui, pois estamos no subsolo.
Sobre minha pele ferida, minha mãe coloca ervas para ajudar na cura e evitar a infecção. O toque delicado de suas mãos, a sensação refrescante das ervas me fazem suspirar por uma alívio temporário.
— Precisa se curar, minha filha, em três dias é a visita do rei. Ele não gosta de ver nenhum de seus escravos deitados, doentes... tudo ele julga como fraqueza e manda matar. — Minha mãe diz preocupada.
— Aquele rei desgraçado, eu queria muito arrancar a face dele com as unhas.
— Fala baixo, filha, se alguém te ouvir podem levar suas palavras ao rei e então estará perdida.
Gemo baixinho quando minha mãe torna a aplicar as ervas e seus sumos em minha pele ferida.
No dia da visita do rei à nossa aldeia de escravos, meus ferimentos já estão bons o suficiente para vestir uma blusa larga, mas se alguém encostar eu ainda vou uivar de dor.
Estamos todos enfileirados, mulheres de um lado e homens de outro, debaixo do sol quente. Parecemos animais que o dono decide se mata ou se deixa viver mais um pouco.
— Atenção, escravos, o rei Tharion está se aproximando e um de vocês terá a honra de servi-lo pessoalmente — fala um dos servos do palácio do rei.
Todos ficam em silêncio e a expectativa só cresce. Ninguém quer ser um escravo pessoal de um rei cruel e sádico. Ele se alegra com a dor e o sofrimento dos outros, e ser o “brinquedinho” dele está fora de questão para qualquer um.
O rei se aproxima, imponente. Bonito o homem é, não há como negar. Seus olhos verdes são atrativos, qualquer mulher se derreteria por ele se não soubesse quanta maldade há em seu coração.
Ele analisa a fileira de homens, mas em seguida dá a ordem:
— Todos os homens estão dispensados.
Alívio era visível na face dos homens ali presente. Porém, meu coração se aperta. Ele quer uma mulher.
Quando o rei vem em busca de mulheres, sabemos o que ele quer. Não apenas uma escrava qualquer, uma empregada que receberá ordens do rei o dia inteiro, mas ele está à procura de uma escrava pessoal. Ele quer um brinquedo novo e isso significa que o anterior está quebrado.
Todas as mulheres presentes sabem disso e o desespero transborda de seus olhos, mas todas se mantêm em silêncio.
Ele se aproxima e analisa uma a uma. Se ele for escolher por beleza com certeza não será eu a escolhida. Meus cabelos castanhos são indomáveis, minha pele muito pálida e meus olhos estranhamente escuros. Mas algo dentro de mim se parte quando ele dá a próxima ordem:
— Somente mulheres virgens, as outras estão dispensadas.
Mais da metade das mulheres se afastam e eu cogito me afastar também. Como vão saber se é verdade ou não? O alívio é crescente na face das mulheres que se dizem não virgens, enquanto o desespero só aumenta na face das outras.
— Todas que dizem não ser virgem, passarão por inspeção para averiguar a verdade. Caso esteja mentindo, o castigo será a morte. — O servo declara e eu impeço meu passo.
Já estava pronta para me enfiar entre as outras e me livrar do olhar do rei, mas ele não é idiota.
Quando todas as mulheres que não cumprem a exigência do rei se afastam, ele volta seu olhar para as escravas restantes. Havia lágrimas no olhar de quase todas.
Não é possível dizer o que exatamente ele está a procura. Seus olhos passeiam por todas nós e, uma a uma, seguindo sabe-se lá que critério, ele começa a dispensar.
Quando chegou perto de mim, pude ver de perto toda a sua imponência. O homem deveria ter quase dois metros de altura e um corpo muito forte. Mesmo debaixo dos tecidos de sua camisa e calça, era possível notar os músculos do rei Tharion.
Ele pegou a face da garota ao meu lado e ergueu, girou para um lado e para outro, analisando não sei o quê. Mas ele se dá por insatisfeito e dispensa a jovem. Ela quase cai no chão de alívio e sai correndo. Agora ele vem na minha direção.
