Capítulo 1 A menina que ele nunca esqueceu

Prólogo —

Pedro Henrique tinha apenas quinze anos quando descobriu que algumas pessoas conseguiam fazer um estrago enorme na vida de alguém sem sequer levantar a voz.

Amanda tinha doze anos naquela época e uma mania irritante de aparecer onde não era chamada, fazer perguntas inconvenientes e rir justamente quando ele tentava manter a pose de rapaz sério.

Ela era sua vizinha, sua amiga de infância e, embora ele jamais admitisse aquilo em voz alta, a primeira garota por quem sentira algo diferente.

— Você está me olhando por quê, Pedro?

O garoto desviou os olhos imediatamente.

— Estou olhando para a rua, Amanda.

Ela olhou para a rua vazia, depois para ele.

— Ah, entendi. A rua tem cabelo cacheado, usa vestido amarelo e está com um pedaço de chocolate na boca?

Pedro apertou os lábios para não rir.

— Você fala demais.

— E você mente muito mal.

Amanda caiu na gargalhada e saiu correndo antes que ele encontrasse uma resposta. Pedro ficou parado, observando-a se afastar, com aquele sentimento estranho crescendo no peito.

Naquela idade, ele ainda não sabia dar nome ao que sentia. Só sabia que gostava de vê-la sorrir, que procurava por ela quando chegava à rua e que ficava irritado quando algum garoto conseguia sua atenção por tempo demais.

Anos depois, entenderia que aquele sentimento nunca havia desaparecido.

Apenas crescera junto com ele.

O tempo passou. A amizade deu lugar à distância, e Amanda deixou o morro com a família, prometendo que voltaria para visitar os amigos.

Pedro fingiu não se importar.

Na verdade, passou semanas esperando notícias.

Depois, meses.

Até que a vida o ensinou a esconder sentimentos atrás de uma expressão fechada, a desconfiar das pessoas e a nunca demonstrar fraqueza.

Ele cresceu, tornou-se um homem respeitado e temido, construiu seu próprio espaço no mundo do crime e aprendeu que quase tudo podia ser resolvido com dinheiro, influência ou uma conversa no momento certo.

Quase tudo.

Porque havia uma coisa que continuava fora do seu alcance.

Amanda.

E ele ainda não fazia ideia de que, muito em breve, ela voltaria.

Dessa vez, não como a menina que corria pela rua com um chocolate na mão.

Mas como a mulher que faria seu mundo inteiro sair dos eixos.

Capítulo 1 — A volta da encrenca

Amanda tinha três certezas naquela manhã.

A primeira era que sua mala estava pesada demais.

A segunda era que o motorista do aplicativo havia escolhido o pior caminho possível para chegar ao morro.

E a terceira era que, se alguém lhe perguntasse mais uma vez se estava feliz por voltar para casa, ela provavelmente responderia que estava feliz, sim, mas ficaria ainda mais feliz se pudesse tomar um banho, comer alguma coisa e dormir por doze horas seguidas.

— Moço, falta muito? — perguntou, ajeitando o cabelo diante da câmera apagada do celular.

O motorista olhou pelo retrovisor.

— Uns dez minutos.

Amanda fechou os olhos.

— O senhor disse isso há vinte minutos.

— É que o trânsito está complicado.

Ela espiou a rua pela janela.

— Trânsito? Aqui só tem uma moto, um cachorro e um senhor carregando um botijão de gás.

O motorista segurou o riso.

— A senhora conhece bem a região?

— Conhecia. Saí daqui faz alguns anos. Pelo visto, as ruas continuam iguais e a paciência dos motoristas continua sendo testada diariamente.

Quando o carro finalmente parou, Amanda sentiu o coração apertar.

Ali estava ela.

De volta ao lugar onde crescera, onde aprendera a andar de bicicleta, onde fizera amizades que o tempo não conseguira apagar e onde deixara lembranças que preferia não revisitar tão cedo.

O cenário estava diferente em alguns pontos. Havia estabelecimentos novos, casas reformadas e rostos desconhecidos. Ainda assim, o cheiro de pão quentinho vindo da padaria da esquina era exatamente o mesmo.

Amanda respirou fundo.

— Cheguei.

Pagou a corrida, pegou a mala e tentou puxá-la pela calçada. A rodinha bateu em uma pedra, virou de lado e quase a derrubou.

— Maravilha! — resmungou. — Voltei há trinta segundos e o lugar já está tentando me matar.

— Você continua dramática.

Amanda congelou.

Aquela voz.

Grave, tranquila e acompanhada por uma dose irritante de confiança.

Ela conhecia aquela voz.

Virou-se devagar.

Do outro lado da rua, encostado em um carro preto, estava um homem alto, de ombros largos, braços tatuados e expressão séria. Usava uma camiseta escura, uma corrente discreta no pescoço e tinha os cabelos aparados com cuidado.

O rosto estava mais maduro. A postura, mais firme. O olhar, porém, continuava o mesmo.

Pedro Henrique.

Amanda piscou duas vezes.

— Meu Deus.

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Também senti sua falta.

— Você está enorme!

Pedro olhou para o próprio corpo e depois voltou a encará-la.

— Obrigado. Acho que foi a alimentação.

— Não estou falando desse jeito, idiota!

Ele sorriu de canto.

E Amanda sentiu uma pontada estranha no peito.

Aquele sorriso.

Ela se lembrava dele perfeitamente. Pedro costumava sorrir daquele jeito quando conseguia irritá-la ou quando sabia de alguma coisa que ela ainda não havia descoberto.

— Você não mudou nada — ela declarou, tentando recuperar a compostura.

— E você continua mentindo mal.

— Como assim?

— Você acabou de me olhar dos pés à cabeça.

Amanda abriu a boca, indignada.

— Eu estava tentando descobrir se você tinha ficado mais bonito ou se a iluminação estava me enganando.

Pedro soltou uma risada baixa.

— E qual foi o resultado?

— Ainda estou analisando.

Ela voltou a puxar a mala, decidida a não lhe dar a satisfação de perceber que aquele reencontro mexera com ela.

Pedro se afastou do carro.

— Deixa que eu levo.

— Não precisa.

— Amanda, essa mala parece pesar mais do que você.

Ela estreitou os olhos.

— Está me chamando de fraca?

— Estou chamando sua mala de exagerada.

— Ela tem personalidade.

— Imagino de quem herdou.

Amanda tentou manter a expressão séria, mas acabou rindo.

E foi exatamente naquele instante que Pedro percebeu o tamanho do problema em que estava se metendo.

Ele havia passado anos imaginando como seria reencontrá-la. Pensara que talvez sentisse saudade, curiosidade ou aquela nostalgia comum de quem revê alguém importante do passado.

Não imaginara que bastaria uma risada para fazê-lo esquecer tudo o que estava fazendo.

O trabalho, as responsabilidades, os homens que o aguardavam e até a ligação que seu celular insistia em anunciar.

Tudo perdeu a importância por alguns segundos.

Amanda estava ali.

A poucos passos dele.

Real.

E linda de uma maneira que o deixou sem palavras.

Ela percebeu o silêncio e estalou os dedos diante do rosto dele.

— Terra chamando Pedro Henrique!

Ele piscou.

— O quê?

— Você travou.

— Estou pensando.

— Cuidado. Ouvi dizer que isso dá trabalho.

Pedro soltou uma gargalhada inesperada.

Um dos homens que estavam próximos ao carro olhou para ele, surpreso. Não era comum ver o chefe rindo daquela maneira, muito menos por causa de uma mulher que acabara de chegar.

Pedro ignorou o olhar do funcionário.

— Para onde você vai?

— Para casa.

— Isso eu percebi. Qual casa?

Amanda informou o endereço.

O sorriso dele diminuiu um pouco.

Era a casa antiga da família dela, na rua onde os dois haviam crescido. A residência ficara fechada durante anos, e Pedro se lembrava de ter passado por ali inúmeras vezes, sempre olhando para o portão como um completo idiota.

Agora ela voltaria a morar ali.

Perto dele.

Perto demais.

— Você vai ficar por aqui? — perguntou, tentando parecer casual.

— Não. Vou morar na Lua. Estou só passando para conhecer os extraterrestres.

— Você está impossível.

— E você está fazendo perguntas demais.

Pedro pegou a mala antes que ela pudesse protestar.

Amanda cruzou os braços.

— Eu consigo carregar.

— Eu sei.

— Então por que pegou?

Ele sustentou o olhar dela.

— Porque quero ajudar.

A resposta simples a desarmou por um instante.

Amanda desviou os olhos e começou a caminhar ao lado dele.

Pedro acompanhou seu passo, carregando a mala com uma facilidade que a deixou ainda mais irritada.

— Só para constar — ela começou —, eu não preciso de guarda-costas.

— Ótimo. Porque não estou procurando emprego.

— E não precisa ficar me seguindo.

— Estou indo na mesma direção.

— Desde quando você mora naquela casa?

— Desde que você foi embora, a rua não mudou de lugar.

Amanda parou no meio da calçada.

— Você está impossível mesmo!

Ele sorriu.

— Já disse isso.

— E eu posso repetir!

Pedro voltou a caminhar, divertindo-se com a indignação dela.

Por dentro, porém, uma ideia começava a tomar forma.

Ele queria saber por que Amanda voltara. Queria descobrir quanto tempo ficaria, se estava solteira, se havia alguém esperando por ela e se aquele sorriso continuaria aparecendo sempre que ele a provocasse.

Queria saber tudo.

E esse desejo o assustava mais do que qualquer ameaça que já tivesse enfrentado.

Porque Pedro Henrique estava acostumado a controlar situações, antecipar movimentos e manter as emoções sob rédeas curtas.

Mas Amanda nunca obedecera às regras dele.

Nunca aceitara suas ordens.

Nunca tivera medo de enfrentá-lo.

E, ainda assim, era a única pessoa capaz de fazê-lo sentir que finalmente havia encontrado algo que procurara durante anos.

Quando chegaram ao portão da casa, Amanda estendeu a mão para pegar a mala.

— Obrigada pelo serviço de carregador. Vou deixar uma avaliação cinco estrelas.

— Fico feliz. Aceito gorjeta.

— Posso pagar em biscoito.

— Desde que seja você quem entregue.

Ela ficou olhando para ele por um instante.

— Você está flertando comigo, Pedro Henrique?

Ele inclinou ligeiramente a cabeça.

— Você prefere que eu esteja?

Amanda sentiu o rosto esquentar, mas não lhe daria aquela vitória.

— Prefiro que você procure uma ocupação.

Ela pegou a mala, abriu o portão e entrou. Antes de fechá-lo, porém, voltou a cabeça.

— Foi bom te ver de novo.

A frase saiu mais sincera do que ela pretendia.

Pedro perdeu o sorriso debochado.

— Foi muito bom ver você também, Amanda.

Dessa vez, nenhum dos dois fez piada.

Por alguns segundos, o passado pareceu estar ali entre eles, cheio de lembranças, promessas esquecidas e sentimentos que nunca haviam encontrado uma conclusão.

Então Amanda fechou o portão.

Pedro ficou parado na calçada.

O celular voltou a tocar. Ele olhou para a tela, recusou a chamada e passou a mão pelo rosto.

Estava perdido.

Completamente perdido.

E o pior era que sabia disso.

Amanda havia acabado de chegar, e ele já queria encontrar um motivo para vê-la novamente.

Queria ouvir sua voz, provocar suas respostas atravessadas e descobrir se ela ainda se lembrava do garoto que costumava esperá-la na esquina.

Aquele garoto havia crescido.

Tinha poder, responsabilidades e um lado sombrio que Amanda desconhecia.

Mas, diante dela, continuava sendo o mesmo rapaz que perdia a fala quando recebia um sorriso.

Pedro olhou para a janela da casa, onde uma cortina acabara de se mover.

Sorriu sozinho.

— Você não faz ideia do problema que acabou de arrumar, Amanda.

Do outro lado do vidro, ela o observava com uma expressão desconfiada.

— Está falando sozinho, Pedro Henrique? — gritou. — Porque isso explica muita coisa!

Ele ergueu o rosto, surpreso.

Amanda desapareceu da janela antes que ele respondesse.

Pedro riu, balançando a cabeça.

Estava oficialmente perdido.

E, pela primeira vez em muitos anos, não tinha a menor vontade de se encontrar.

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