Capítulo 3 A DONA DA MINHA PAZ ESTÁ VOLTANDO

PH narrando

Qual foi mesmo, meus parceiros? Ah, lembrei! Estou aqui na minha sala, jogado no sofá, tentando assistir a alguma coisa na televisão, enquanto TH e LC fazem o favor de acabar com a minha paz.

Esses dois não têm jeito, não!

TH está contando uma história que, segundo ele, é a maior conquista amorosa da vida dele. LC está quase chorando de tanto rir, e eu estou aqui me perguntando por que ainda não mandei os dois embora.

— Cole, bora lá na tia Sandra bater um prato? — perguntei, levantando do sofá. Minha barriga já estava reclamando fazia tempo.

TH imediatamente afinou a voz, colocou a mão na cintura e começou a desfilar pela sala.

— Ai, amorzinho! Pensei que você nunca fosse me convidar para almoçar. Estava esperando esse momento há tanto tempo!

LC não deixou barato. Jogou o cabelo imaginário para trás e se aproximou dele com uma expressão toda afetada.

— Sai da frente, sua aguada! Ele chamou foi a mim! Para de dar em cima do meu homem, querida, que eu não sou obrigada a assistir a essa pouca vergonha!

Os dois começaram a rebolar no meio da sala, fazendo vozes finas e mandando beijos um para o outro.

Fiquei olhando aquela cena com a maior cara de poucos amigos.

— Vocês estão muito soltinhos, não acham?

— Inveja é uma coisa triste, PH — TH respondeu, segurando a barriga de tanto rir.

— Triste é eu ter que dividir meu oxigênio com vocês dois.

LC se jogou no sofá.

— Fala isso agora, mas, quando precisar de um abraço, vai procurar quem? Nós dois, seus ingratos!

— Vou procurar uma parede. Pelo menos ela fica quieta.

A gargalhada dos dois ecoou pela sala.

Juro que, se eu não conhecesse esses sujeitos desde moleque, já teria mandado os dois procurar o que fazer há muito tempo.

Mas fazer o quê? Eram meus parceiros, meus irmãos de consideração e, infelizmente, parte da mobília da minha vida.

Peguei meu celular, conferi algumas mensagens e chamei o menor que estava do lado de fora.

— Menor, fica ligeiro aí. Qualquer coisa, bate um rádio.

— Fica tranquilo, chefe. Está tudo sob controle.

Assenti com a cabeça, peguei a chave da moto e saí com os dois atrás de mim.

O caminho até o bar da tia Sandra era curto. Aquele lugar fazia parte da nossa história desde a infância. Quantas vezes eu, TH e LC não aparecemos ali com os joelhos ralados, a roupa suja e uma fome capaz de assustar qualquer cozinheira?

E sempre tinha comida esperando.

Tia Sandra era dessas pessoas que tratavam todo mundo com carinho, mas que também sabiam colocar ordem na casa quando algum engraçadinho resolvia exagerar.

Estacionei e entrei no estabelecimento, sentindo o cheiro maravilhoso da comida feita na hora.

— Agora, sim, encontrei a felicidade! — LC anunciou, esfregando as mãos.

— Você encontra a felicidade em qualquer prato de comida — TH provocou.

— E você encontra a felicidade em qualquer mulher que te dê atenção. Estamos quites.

— Está falando de mim, mas quem vive solteiro esperando uma princesa aparecer é você!

— Pelo menos eu quero uma mulher que goste de mim, não do meu dinheiro.

TH colocou a mão no peito, fingindo estar ofendido.

— Que agressividade! Vou precisar de acompanhamento psicológico depois dessa.

— Vai precisar é de vergonha na cara.

Balancei a cabeça, segurando o riso.

— Vocês vão pedir comida ou vão ficar disputando quem fala mais besteira?

Uma das atendentes se aproximou para anotar nossos pedidos. Era uma moça bonita, com um sorriso simpático, e TH imediatamente ajeitou a postura.

Ah, pronto!

Bastou a mulher aparecer para o sujeito se lembrar de que tinha coluna vertebral.

— Boa tarde, linda — ele cumprimentou, abrindo aquele sorriso de conquistador.

A moça anotou o pedido sem dar muita conversa.

— Mais alguma coisa?

— Seu telefone, talvez?

LC quase engasgou com a própria saliva.

Eu passei a mão pelo rosto.

— TH, pelo amor de Deus, deixa a moça trabalhar.

— Estou sendo simpático, PH.

— Você chama isso de simpatia? Na próxima, vai pedir o CPF e o comprovante de residência também?

A atendente riu discretamente antes de se afastar.

TH apontou para mim.

— Está vendo? Ela riu! Tenho chances.

— Ela riu de você, criatura! — LC respondeu.

Antes que a discussão continuasse, tia Sandra apareceu atrás do balcão, enxugando as mãos em um pano de prato.

— Oi, meus meninos! Já foram atendidos?

— Estamos de boa, tia — respondi. — Só esperando a comida e tentando impedir o TH de passar vergonha.

— Eu ouvi isso, PH!

— Era para ouvir mesmo.

Tia Sandra riu, mas logo sua expressão mudou para uma mais séria.

— Aproveitando que vocês estão aqui, preciso pedir uma ajuda.

Endireitei a postura.

— Fala, tia. Aconteceu alguma coisa?

— Não, meu filho. É uma coisa boa. Estou procurando uma casa para comprar aqui no morro.

Franzi a testa.

— A senhora vai sair daqui?

— Claro que não! Eu não troco esse lugar por nada. É para minha sobrinha. Ela está voltando para o Rio e vem com duas amigas. As meninas querem ter o cantinho delas, e eu queria encontrar uma casa confortável, onde possam ficar tranquilas.

Por algum motivo, meu coração deu uma batida diferente.

Sobrinha.

Voltar para o Rio.

Duas amigas.

Fiquei olhando para tia Sandra, esperando que ela completasse a frase, embora uma parte de mim já soubesse a resposta.

— Sua sobrinha... como é mesmo o nome dela? — perguntei, tentando parecer desinteressado.

TH virou o rosto na minha direção.

LC parou de mexer no celular.

Tia Sandra sorriu.

— Amanda, meu filho. Minha Mandinha está voltando para casa!

O mundo pareceu parar por um instante.

Amanda.

A minha Amanda.

Não, pera aí. Minha, não. Quer dizer... vocês entenderam!

Fiquei imóvel, tentando processar a informação.

— A Amanda está voltando? — TH perguntou, quase gritando.

— Está, sim, meu filho. O pai dela faleceu há dois meses, e ela decidiu voltar. Vai chegar neste sábado. Já está organizando tudo e até mandou os móveis que quer levar para a casa.

Senti um aperto no peito ao saber da morte do pai dela. Eu não o conhecia bem, mas sabia que Amanda tinha ido embora com ele e que construíra outra vida longe daqui.

Perder alguém da família não era fácil. Eu conhecia aquela dor.

— Sinto muito pelo pai dela, tia — falei, dessa vez sem nenhuma brincadeira.

Sandra assentiu, emocionada.

— Obrigada, meu filho. Ela está passando por um momento difícil, mas acho que voltar para perto de quem a ama vai fazer bem.

Passei a mão pela nuca.

Amanda estava voltando.

Depois de tantos anos.

Eu havia imaginado aquele reencontro de mil maneiras diferentes, mas nunca pensei que a notícia chegaria assim, enquanto eu esperava um prato de comida.

— Vou procurar uma casa para a senhora — falei, tentando recuperar a naturalidade. — Já tem alguma em mente?

— Tenho, sim. Aquela casa de dois andares que fica na esquina, perto da rua principal. A que você reformou há algum tempo.

Arregalei discretamente os olhos.

Conhecia muito bem aquela casa. Era espaçosa, tinha uma varanda agradável, quartos confortáveis e uma vista bonita. Também ficava em uma área mais reservada, longe da movimentação constante.

— Aquela casa é boa mesmo, tia. Vou pedir para separarem a chave e trazerem os documentos para a senhora conferir. Depois conversamos sobre o valor.

— Muito obrigada, meu filho. Vou organizar tudo ainda hoje.

Assenti, mas minha cabeça já estava em outro lugar.

Sábado.

Faltavam poucos dias.

Poucos dias para rever a menina que tinha levado uma parte da minha tranquilidade quando foi embora.

A menina que me beijou e depois desapareceu da minha vida antes que eu tivesse coragem de dizer o que realmente sentia.

E agora ela estava voltando como mulher.

Uma mulher adulta, com sua própria vida, suas experiências e, provavelmente, uma fila de pretendentes esperando por uma oportunidade.

Apertei a mandíbula.

Que pensamento era aquele?

Eu nem sabia como Amanda estava, e já estava imaginando outros homens olhando para ela.

— Ih, rapaz... — LC murmurou, observando minha expressão. — A anã está voltando mesmo!

Virei a cabeça lentamente.

— Anã é a sua paciência, parceiro. O nome dela é Amanda.

TH abriu um sorriso enorme.

— Opa! Agora ficou interessante.

— Interessante o quê?

— Nada, não. Só estou pensando que alguém vai precisar comprar um calendário para contar os dias até sábado.

— Vai procurar o que fazer, TH.

LC começou a rir.

— Deixa o homem, gente! Ele está emocionado. Deve estar pensando no reencontro, nas lembranças, no primeiro beijo...

— Vocês dois estão querendo apanhar hoje?

TH levantou as mãos.

— Calma, chefe! Só estamos felizes pela volta da nossa amiga.

— Pois fiquem felizes em silêncio.

Tentei voltar minha atenção para a comida que acabara de chegar, mas os dois não estavam dispostos a me deixar em paz.

— E a Cássia? — TH perguntou, pegando o garfo. — O que vai acontecer quando ela descobrir que a Amanda voltou?

Dei de ombros.

— Nada. Não tem nada acontecendo.

LC soltou uma risada debochada.

— Claro. E eu sou um astronauta.

— Você não conseguiria nem chegar à Lua sem reclamar da falta de comida.

— Está desviando do assunto, PH!

Suspirei, já arrependido de ter saído de casa com eles.

— Escutem bem. Amanda é nossa amiga de infância. Quero que ela seja recebida com carinho e respeito. Só isso.

TH e LC trocaram um olhar.

Aquele tipo de olhar que deveria ser proibido por lei.

— Só isso? — TH repetiu.

— Só isso.

— Então você não se importa se ela chegar aqui linda, maravilhosa e começar a receber flores de outros homens?

O garfo parou no meio do caminho até minha boca.

LC bateu na mesa, gargalhando.

— Eu sabia! Olha a cara dele!

— Vocês são dois desocupados!

— Não respondeu à pergunta — TH insistiu.

Respirei fundo.

— Se algum homem quiser se aproximar dela, vai ter que respeitá-la. Isso vale para qualquer mulher.

LC assentiu, fingindo seriedade.

— Bonito discurso. Muito maduro.

— Obrigado.

— Pena que sua cara está dizendo outra coisa.

Peguei um guardanapo e joguei nele.

Os dois voltaram a rir, e eu tentei me concentrar no almoço.

Não adiantou.

Minha cabeça estava longe demais.

Eu queria saber como Amanda estava. Queria descobrir se ainda gostava de chocolate, se continuava rindo das minhas piadas ruins e se lembrava daquele beijo.

Principalmente daquele beijo.

Eu tinha quinze anos, mas me lembrava de cada segundo. Da maneira como ela ficou sem graça, do sorriso que tentou esconder e da coragem que precisei reunir para me aproximar.

Na época, pensei que teríamos todo o tempo do mundo.

Estava enganado.

Agora, eu não queria repetir o mesmo erro.

Não pretendia chegar impondo sentimentos, muito menos decidir o que Amanda deveria fazer da própria vida. Mas também não fingiria que ela era apenas mais uma pessoa voltando ao lugar onde crescemos.

Ela significava muito para mim.

E eu precisava descobrir se ainda existia alguma coisa entre nós.

Terminei de comer e me levantei.

— Vou voltar para resolver umas coisas.

— Vai resolver ou vai contar os dias até sábado? — LC perguntou.

Olhei para ele.

— Você quer que eu conte quantos dentes ainda tem na boca?

Ele começou a rir.

— Está nervoso, irmão!

— Estou com fome de paz. E vocês acabaram com meu estoque.

Deixei dinheiro sobre a mesa, agradeci à tia Sandra e saí do bar.

Mal tinha dado alguns passos quando ouvi uma voz conhecida atrás de mim.

— Amor, você nem me chamou para almoçar!

Fechei os olhos por um instante.

Cássia.

Acompanhada de duas amigas, ela vinha na minha direção com um sorriso que desapareceu assim que percebeu que eu não estava disposto a fazer cerimônia.

— Não chamei porque queria almoçar tranquilo — respondi. — Agora, se me der licença, tenho coisas para resolver.

Ela tentou segurar meu braço.

— Mas eu queria passar um tempo com você.

Afastei-me com cuidado.

— Cássia, hoje não. Depois conversamos.

Seu rosto se fechou.

— Você está estranho ultimamente. Aconteceu alguma coisa?

Por um segundo, pensei em contar sobre Amanda. Afinal, não havia nada de errado em uma amiga de infância voltar para casa.

Mas conhecia Cássia. Ela transformaria uma notícia simples em uma discussão interminável, principalmente se percebesse que Amanda ocupava um lugar especial nas minhas lembranças.

— Estou ocupado. É só isso.

Ela cruzou os braços.

— Sempre ocupado! Parece que eu preciso marcar horário para falar com você.

— Então marque, porque hoje realmente não posso.

As amigas dela trocaram olhares constrangidos.

Cássia respirou fundo, tentando manter o sorriso.

— Tudo bem, amor. Depois a gente conversa.

— Certo.

Virei as costas e segui meu caminho, sem vontade de prolongar aquela conversa.

Eu sabia que não podia continuar empurrando nosso relacionamento com a barriga. Cássia queria uma coisa, eu queria outra, e talvez fosse hora de admitir que aquela relação não estava fazendo bem a nenhum dos dois.

Mas resolver isso era assunto para outro momento.

Naquela tarde, minha cabeça tinha um único destino.

Amanda.

Voltei para minhas responsabilidades, tentei me concentrar nas tarefas do dia e respondi às mensagens que se acumulavam no celular. Mesmo assim, de tempos em tempos, olhava para o calendário.

Sábado.

Era só esperar até sábado.

No fim da tarde, TH apareceu novamente, trazendo um refrigerante e aquele sorriso que sempre anunciava alguma provocação.

— E aí, apaixonado?

— Quer que eu mande você embora?

— Não. Vim trazer uma informação importante.

Olhei para ele, desconfiado.

— Que informação?

— A tia Sandra disse que Amanda está mandando fotos dos móveis para ela. Pelo visto, as meninas estão preparando tudo para chegar com estilo.

Tentei manter a expressão indiferente.

— Que bom.

TH sentou-se à minha frente.

— Você quer ver as fotos, não quer?

— Não.

Ele pegou o celular e começou a rir.

— Então vou olhar sozinho.

Fiquei em silêncio durante três segundos.

— Mostra aí.

TH quase caiu do sofá.

— EU SABIA!

— Cala a boca, Thiago!

Ele me mostrou uma foto da sala que Amanda pretendia montar. Havia caixas, amostras de tecidos e algumas escolhas de decoração. Não era uma foto dela, mas bastou para que eu imaginasse Amanda organizando a nova casa, andando de um lado para o outro e dando ordens às amigas.

Sorri sem perceber.

TH notou.

— Rapaz, você está perdido mesmo.

Guardei o celular e me levantei.

— Vai embora, TH.

— Estou indo, estou indo! Mas, quando a Mandinha chegar, quero estar presente para assistir ao grande reencontro.

— O nome dela é Amanda!

Ele saiu gargalhando pelo corredor.

Fiquei sozinho, olhando pela janela para as ruas onde crescemos.

Eu não sabia como seria o reencontro. Não sabia se Amanda ainda me enxergaria como o garoto que conheceu ou se, para ela, eu seria apenas uma lembrança distante.

Mas sabia de uma coisa: não queria que ela voltasse a partir sem que eu tivesse a chance de dizer o que sentia.

Não precisava transformar aquilo em uma disputa, nem fazer promessas que não sabia cumprir.

Só queria uma oportunidade.

Uma conversa.

Talvez outro beijo, se ela também quisesse.

Olhei para o calendário mais uma vez.

Sábado.

Pela primeira vez em anos, eu tinha um motivo de verdade para esperar pelo fim de semana.

E, sem perceber, já estava fazendo planos para receber Amanda.

O problema era que eu ainda não fazia ideia de como reagiria quando a visse atravessar aquela porta.

Porque uma coisa era sentir saudade da menina que conheci.

Outra, completamente diferente, seria olhar nos olhos da mulher que ela se tornou.

E eu tinha uma suspeita de que, quando isso acontecesse, minha vida nunca mais seria a mesma.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo