Capítulo 4 OREENCONTRO DOS DESESPERADOS

Amanda narrando ♡

Finalmente chegou sexta-feira!

Gente, vocês não fazem ideia da correria que foi essa semana. Eu, Isa e Lari quase enlouquecemos organizando tudo para a nossa mudança. Foram dias escolhendo móveis, decidindo a decoração, separando roupas e resolvendo tantas coisas que, em alguns momentos, tive vontade de me esconder debaixo da cama e fingir que nada estava acontecendo.

Ainda bem que minha madrinha cuidou de boa parte da organização da casa. Ela recebeu os móveis, acompanhou a montagem e ficou responsável por garantir que, quando chegássemos, estivesse tudo prontinho.

Minha salvadora merece um prêmio!

Segundo ela, a casa ficou linda. E, sinceramente, estou contando os minutos para conhecer meu novo cantinho.

Passamos a tarde terminando de organizar as malas. Levamos apenas o necessário, porque mandamos a maior parte das nossas roupas junto com os móveis. O restante doamos para pessoas que poderiam aproveitar muito mais aquelas peças.

Foi uma sensação estranha arrumar a vida inteira em algumas malas. Ao mesmo tempo que eu estava animada, sentia aquele frio na barriga de quem está prestes a começar uma fase completamente nova.

Eu estava deixando para trás uma parte importante da minha história para reencontrar outra que nunca saiu completamente do meu coração.

O Rio de Janeiro me esperava!

— Meninas, vocês estão prontas? — gritei do meu quarto.

— Estou esperando a princesa terminar de escolher qual roupa vai usar para viajar! — Isa respondeu do corredor.

Revirei os olhos.

— Já escolhi!

— Então por que ainda não apareceu?

— Porque estou terminando de arrumar minha bolsa, criatura!

Lari apareceu na porta, segurando o celular.

— Pelo amor de Deus, terminem logo! Quero chegar ao Brasil, tomar um banho e descobrir onde fica o baile mais próximo.

— Você não tem jeito, né? — perguntei, rindo.

— Tenho, sim. Só não gosto dele.

As três começaram a rir.

Coloquei uma roupa confortável, ajeitei os cabelos, tirei a tradicional foto antes de sair e publiquei nas redes sociais.

@Amanda

Rio, me espera! Estou voltando para casa com minhas duas malucas favoritas. ❤️✈️

A foto recebeu curtidas e comentários quase imediatamente. Não tive tempo de ler tudo, porque já estávamos atrasadas.

Peguei as malas, conferi os documentos e respirei fundo diante da porta.

— Bom, meninas... vamos nessa?

Isa colocou os óculos escuros.

— Vamos! Se alguém perguntar, somos três mulheres elegantes, maduras e extremamente responsáveis.

Lari gargalhou.

— Quem acreditaria nisso?

— Ninguém, mas a intenção é o que importa!

Saímos de casa rindo.

No aeroporto, fizemos o check-in, despachamos as malas e esperamos o embarque. Quando finalmente nos acomodamos no avião, tive a impressão de que minha ficha estava começando a cair.

Eu estava realmente voltando.

Depois de tantos anos, pisaria novamente nas ruas onde passei a infância, abraçaria minha madrinha e reencontraria pessoas que fizeram parte dos meus primeiros anos de vida.

Inclusive um certo garoto convencido que costumava me provocar por qualquer motivo.

Pedro Henrique.

Só de pensar nele, senti uma pontada de saudade.

Será que ele havia mudado muito? Será que ainda se lembrava das nossas brincadeiras? E será que continuava com aquele sorriso irritante que me fazia querer rir mesmo quando eu estava brava?

Balancei a cabeça.

— Amanda, você está sorrindo sozinha — Isa comentou, sentada ao meu lado.

— Estou pensando na viagem.

— Sei.

— O que foi?

Ela sorriu maliciosamente.

— Nada. Só achei interessante você começar a sorrir justamente depois de olhar uma foto antiga do PH.

Meu rosto esquentou.

— Você mexeu no meu celular?

— Estava aberto na galeria!

— Isa!

Lari se inclinou sobre o assento.

— Espera! Estamos falando do PH? O moreno tatuado que a Amanda descreveu como um garoto irritante?

— Eu nunca disse tatuado!

— Disse que ele era bonito. O resto eu imaginei.

— Vocês são impossíveis!

As duas caíram na gargalhada.

Coloquei os fones de ouvido e decidi ignorá-las. Não adiantou muito, porque Lari ainda teve a coragem de me mandar um beijo antes de fechar os olhos.

A viagem foi longa. Dormi durante boa parte do percurso e acordei assustada quando o avião passou por uma turbulência.

— Meu Deus! — exclamei, agarrando o braço de Isa.

Ela abriu os olhos lentamente.

— O que aconteceu?

— O avião está balançando!

Isa olhou ao redor e depois voltou a me encarar.

— Amanda, estamos voando. É um avião, não um ônibus de excursão.

— Eu sei, criatura! Não precisa me lembrar!

Lari, que estava do outro lado, começou a rir.

— Se a gente sobreviver, quero deixar registrado que a Amanda quase arrancou o braço da Isa.

— Você está ajudando muito, obrigada!

Felizmente, a turbulência passou, e o restante da viagem ocorreu sem problemas.

Quando o avião finalmente pousou, senti um alívio tão grande que quase aplaudi.

Brasil!

Assim que desembarcamos, pegamos nossas malas e seguimos para o saguão. Eu procurava minha madrinha entre as pessoas quando ouvi uma voz conhecida me chamar.

— Amanda!

Virei o rosto e a vi.

Minha madrinha estava ali, sorrindo, com os braços abertos.

Não pensei duas vezes.

Corri até ela e a abracei com tanta força que quase derrubamos as duas.

— Madrinha!

Chorei.

Chorei de saudade, de alegria, de alívio e de tudo o que havia guardado durante aqueles anos longe. Também chorei porque, depois da morte do meu pai, precisava desesperadamente daquele abraço.

Sandra acariciou meus cabelos.

— Minha menina... olha só como você cresceu! Está tão linda!

Afastei o rosto apenas o suficiente para olhar para ela.

— Eu estava morrendo de saudades!

— Eu também, meu amor. Mas não precisa chorar assim. Agora você está aqui, e vamos ficar juntinhas.

Abracei-a novamente.

— Obrigada por tudo, madrinha. Sua bênção.

Ela segurou minhas mãos e me olhou com carinho.

— Deus te abençoe, minha filha. Que Ele ilumine seus caminhos e te dê muita felicidade nessa nova etapa.

Aquelas palavras aqueceram meu coração.

Depois de respirar fundo algumas vezes, consegui me acalmar.

— Madrinha, quero apresentar minhas melhores amigas. Essa é a Isabela, nossa Isa, e essa é a Larissa, nossa Lari. Elas vão morar comigo.

Sandra sorriu para as duas.

— Sejam muito bem-vindas, meninas! Espero que gostem daqui.

— Prazer, tia! — as duas responderam quase ao mesmo tempo.

— E obrigada por nos receber tão bem — Isa acrescentou.

— Vocês são amigas da Amanda. Já fazem parte da família.

Pronto.

Mais alguns minutos e eu estaria chorando novamente.

Para evitar outra crise emocional, resolvi mudar de assunto.

— Vamos embora? Estou doida para conhecer a casa!

— Vamos, sim. O carro está ali fora.

Seguimos até o estacionamento. Sandra havia providenciado o carro que eu pedira para comprar antes da viagem, e fiquei encantada quando o vi.

— Madrinha, você é maravilhosa!

— Eu só fiz o que precisava ser feito, minha filha.

Entramos no carro e começamos a viagem de volta.

Eu observava a paisagem pela janela, tentando reconhecer os lugares. Algumas coisas estavam diferentes, outras pareciam ter parado no tempo. Era uma sensação curiosa, como se eu estivesse visitando um lugar novo e, ao mesmo tempo, voltando para dentro de uma lembrança.

— Madrinha, me conta uma coisa — comecei. — Como estão as coisas por aqui? E os meninos? Eles ainda moram no morro?

Sandra sorriu pelo retrovisor.

— Estão todos por aqui, sim. O PH, o TH e o LC continuam juntos. Eles cresceram, amadureceram em algumas coisas e continuam dando trabalho em outras.

Ri.

— Isso não mudou nada, então.

— Nem um pouquinho! Você precisa ver o TH falando. Parece que nasceu com um microfone na boca.

Isa se virou no banco.

— Já gostei dele.

— Você nem conhece o rapaz! — falei.

— Não preciso. Se fala bastante, já temos um assunto em comum.

Lari levantou a mão.

— Eu gostaria de saber se o LC continua bonito.

Olhei para ela, indignada.

— Gente, vocês vieram conhecer minha casa ou escolher marido?

— As duas coisas podem acontecer simultaneamente — Isa respondeu, muito séria.

Sandra caiu na gargalhada.

Eu escondi o rosto nas mãos.

Tinha levado minhas amigas para o Brasil e, em menos de uma hora, elas já estavam interessadas nos meus amigos de infância.

Maravilhoso.

— Mas me contem uma coisa — Sandra continuou. — Vocês sabem que o PH agora é o dono do morro, não sabem?

Assenti lentamente.

— Sei que o pai dele faleceu, mas não sabia exatamente como estavam as coisas.

— Ele assumiu muita responsabilidade depois disso. Continua sendo aquele menino de personalidade forte, só que agora é um homem feito. O TH e o LC também estão sempre por perto.

Fiquei em silêncio por um instante.

Lembrava-me do pai de PH. A notícia de sua morte havia chegado até mim quando eu já estava em Londres, e fiquei triste por não ter podido estar perto dos meus amigos naquela época.

— Ele deve ter passado por muita coisa — murmurei.

— Passou, minha filha. Mas os amigos sempre estiveram ao lado dele.

Olhei novamente pela janela.

Eu queria muito reencontrá-los. Queria saber como tinham crescido, quais sonhos haviam realizado e o que a vida tinha feito com cada um deles.

Sandra, entretanto, ainda tinha outra informação para compartilhar.

— Só espero que a volta de vocês não cause muita confusão por causa daquela fiel do PH.

Franzi a testa.

— Fiel?

— A Cássia. Ela mora com ele, gosta de se apresentar como patroa e vive se desentendendo com algumas mulheres por causa do relacionamento deles.

Senti uma pontada estranha no peito.

Não tinha motivo para me incomodar. PH e eu não nos víamos havia anos, e ele tinha todo o direito de seguir a própria vida.

Ainda assim, a ideia de que ele estava com alguém me deixou inesperadamente pensativa.

— Então ele está casado? — perguntei, tentando parecer casual.

— Casado, não. Eles moram juntos, mas nunca oficializaram nada. Ele continua aparecendo no meu bar para almoçar e jantar. Às vezes, até para fazer um lanche no meio da tarde!

Isa arregalou os olhos.

— Meu Deus! Esse homem tem fome o dia inteiro?

— Pelo jeito, sim — Sandra respondeu, rindo.

Lari balançou a cabeça.

— Espero que ele pelo menos lave a própria louça.

Eu ri tanto que precisei me apoiar no banco.

— Vocês não prestam!

— Estamos apenas preocupadas com a organização doméstica do cidadão — Isa explicou.

A conversa seguiu animada, e eu tentei afastar aquela sensação estranha que surgira ao ouvir o nome de Cássia.

Não tinha o direito de sentir ciúmes.

Muito menos de um garoto que eu não via havia tantos anos.

Mesmo assim, quando Sandra disse que PH continuava solteiro no papel, meu coração pareceu se tranquilizar um pouquinho.

Ridículo, eu sei.

Mas não consegui evitar.

Depois de alguns minutos, Sandra diminuiu a velocidade do carro.

— Chegamos, minhas meninas. E olhem quem está esperando por vocês!

Levantei os olhos para a frente.

Foi então que os vi.

Três homens estavam próximos à entrada, conversando entre si. Um deles tinha os braços cruzados, outro mexia no celular e o terceiro parecia estar contando alguma história que fazia os outros dois rirem.

TH, LC e PH.

Meu coração disparou.

Eles estavam muito diferentes dos meninos que eu lembrava. Mais altos, mais fortes, com expressões maduras e uma presença que eu jamais teria imaginado quando corríamos pelas ruas juntos.

E, preciso admitir, estavam bonitos demais.

Lari levou a mão ao peito.

— Minha nossa senhora das calcinhas esquecidas! O que é isso?

Isa se inclinou para a frente, olhando pela janela.

— Amanda, você escondeu essas informações da gente!

— Eu não escondi nada! Faz anos que não os vejo!

— Pois deveria ter mandado fotografias atualizadas — Lari declarou. — Isso é uma questão de segurança pública!

Comecei a rir.

— Vocês são duas sem vergonha!

Sandra estacionou o carro, ainda sorrindo.

— Eu avisei que vocês iam gostar de conhecer os meninos de novo.

TH foi o primeiro a se aproximar. Talvez estivesse curioso para saber quem havia chegado naquele carro, porque não era comum vê-lo estacionar por ali.

Logo depois, LC e PH também se aproximaram.

Os três estavam armados, e a expressão deles era séria até que Sandra baixou o vidro.

— Boa tarde, meninos! — ela cumprimentou.

TH inclinou a cabeça para olhar para dentro.

— Tia Sandra? Está tudo bem?

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