Capítulo 2 O LOBO DA TEMPESTADE

Hana narrando

Eu vivia naquele castelo havia anos, acompanhada apenas por dois criados e pelas inúmeras perguntas que meu pai se recusava a responder.

Nunca compreendi por que ele insistia em me manter afastada do reino. Sempre que eu perguntava, recebia a mesma resposta:

— Você é diferente, Hana. As pessoas não entenderiam.

Diferente em quê? Essa era a pergunta que me atormentava desde criança.

Eu era uma princesa, mas não frequentava bailes, não conhecia outros jovens da corte e sequer podia passear livremente pelos arredores do castelo. Meu mundo se resumia àqueles corredores silenciosos, aos livros da biblioteca e às histórias que os criados contavam quando acreditavam que eu não estava ouvindo.

Meu pai dizia que fazia tudo aquilo para me proteger. Entretanto, nunca me explicou de quem ou de quê.

Naquela madrugada, eu descobriria que talvez existisse uma razão muito mais assustadora para tanto segredo.

Tudo começou com uma dor intensa no peito.

Acordei assustada, levando a mão ao coração. Parecia que alguma coisa apertava meus órgãos por dentro, impedindo-me de respirar normalmente.

Sentei-me na cama, tentando recuperar o fôlego.

— O que está acontecendo comigo?

A luz da lua atravessava as cortinas, iluminando meu quarto com um brilho prateado. Por algum motivo, não conseguia desviar os olhos daquele espetáculo.

Era como se a lua estivesse me chamando.

De repente, meus olhos começaram a arder.

Levantei-me com dificuldade e caminhei até o espelho. Apoiei as mãos na penteadeira e ergui o rosto, esperando encontrar apenas minha expressão assustada.

Mas o reflexo me fez perder o ar.

Meus olhos estavam amarelos.

Não era um efeito da iluminação. A cor havia mudado completamente, assumindo um tom dourado e intenso.

— Não pode ser...

Pisquei repetidas vezes, esfreguei os olhos e até lavei o rosto. Quando voltei a olhar, a cor parecia ter desaparecido.

Talvez eu estivesse ficando doente. Talvez fosse apenas um sonho.

Então a dor voltou.

Dessa vez, foi tão forte que minhas pernas fraquejaram. Senti como se meus ossos estivessem sendo esmagados, e um gemido escapou dos meus lábios.

Eu precisava de ajuda.

Saí do quarto e atravessei os corredores, procurando um dos criados. Entretanto, uma sensação estranha me conduzia para longe dos aposentos e em direção à saída do castelo.

Não sei explicar por que continuei andando.

Era como se alguma coisa me chamasse do lado de fora.

Quando percebi, já havia atravessado uma das portas laterais e caminhava pelo jardim sob uma chuva torrencial.

Eu deveria ter voltado.

Deveria ter chamado alguém.

Mas meus pés continuavam avançando em direção à floresta.

O vento soprava com força, e minhas roupas ficaram encharcadas em poucos minutos. O tecido pesado dificultava meus movimentos, enquanto a chuva escondia o caminho de volta.

Foi então que senti um cheiro diferente.

Sândalo com menta.

Uma fragrância amadeirada e fresca, estranhamente reconfortante. Não fazia ideia de onde vinha, mas ela parecia ficar mais intensa a cada passo.

A dor no peito aumentou.

Caí de joelhos na lama, tremendo de frio.

— Por favor... alguém me ajude!

Minha voz desapareceu em meio ao barulho da tempestade.

Foi quando ouvi um ruído entre as árvores.

Levantei a cabeça e congelei.

Um lobo enorme me observava do outro lado da clareira.

Nunca havia visto um animal daquele tamanho. Seu corpo era imponente, coberto por pelos escuros que se confundiam com as sombras da floresta. As patas eram fortes, e seus olhos amarelos brilhavam de maneira quase sobrenatural.

Aqueles olhos...

Eram iguais aos meus.

O animal começou a se aproximar lentamente.

Tentei recuar, mas meu corpo não obedecia.

— Fique longe de mim...

O lobo parou diante de mim e inclinou a cabeça, como se compreendesse minhas palavras.

Por um instante, nossos olhares se encontraram.

Senti uma coisa estranha dentro do peito. Não era exatamente medo. Era uma sensação de reconhecimento, como se eu já tivesse encontrado aquela criatura antes, embora soubesse que isso era impossível.

O lobo se aproximou mais um pouco.

Minha visão começou a escurecer.

A última coisa que vi foram aqueles olhos amarelos fixos nos meus, antes que tudo desaparecesse.

Quando despertei, o sol iluminava meu rosto.

A chuva havia parado, e eu já não sentia frio. Estava deitada sobre folhas secas, coberta por um tecido grosso.

Entretanto, havia algo pesado sobre mim.

Tentei me mexer e ouvi um ruído baixo perto do ouvido, semelhante a um ronronar.

Virei o rosto.

Um homem estava deitado parcialmente sobre mim!

— AAAAAAAAAH!

Meu grito ecoou pela floresta.

O desconhecido se afastou imediatamente, enquanto eu me sentava às pressas, segurando o tecido contra o peito.

Ele tinha cabelos escuros, ombros largos e um corpo musculoso.

E estava completamente nu!

— QUEM É VOCÊ? POR QUE ESTAVA EM CIMA DE MIM? PELO AMOR DE DEUS, VOCÊ ESTÁ PELADO! TENHA DECÊNCIA!

O homem ergueu uma sobrancelha, parecendo mais incomodado com meu grito do que constrangido com a própria situação.

— Eu te salvei da chuva, humana. Deveria me agradecer.

Fiquei indignada.

— Agradecer? Você estava deitado em cima de mim!

— Você estava inconsciente e tremendo de frio. Tentei mantê-la aquecida. Quando percebi que tinha acordado, afastei-me.

Olhei para o tecido que me cobria e depois para ele.

Por mais absurdo que fosse admitir, talvez estivesse dizendo a verdade.

Ainda assim, havia uma questão muito mais importante.

— Eu não vi você na mata. Só havia um lobo!

Ele cruzou os braços.

— Eu mesmo.

Fiquei olhando para aquele homem, tentando entender o que acabara de ouvir.

— Como assim, você mesmo?

— Sou Doram.

— Eu não perguntei seu nome! Estou perguntando como você apareceu aqui!

— Já respondi. Era o lobo que você viu.

Levei as mãos à cabeça.

— Isso é impossível!

Doram soltou uma risada curta.

— Você me viu com seus próprios olhos.

— Talvez eu tenha batido a cabeça!

— Não bateu.

— Como sabe?

— Porque estava lá.

Respirei fundo, tentando recuperar a paciência.

Eu estava na floresta, sem saber como havia chegado ali, conversando com um homem que afirmava ser capaz de se transformar em lobo.

Meu pai teria um ataque se descobrisse.

Mas, antes que eu pudesse fazer outra pergunta, a dor voltou.

Curvei-me, apertando o peito.

— Ah! Está doendo muito!

Doram perdeu imediatamente a expressão divertida.

— O que você tem, humana?

— Eu não sei! Faça alguma coisa!

Ele se aproximou, mas parou antes de me tocar. Seus olhos percorreram meu rosto, e ele pareceu perceber algo que o deixou inquieto.

Doram inspirou profundamente, como se tentasse identificar um cheiro.

— Seu aroma está ficando mais forte.

Olhei para ele, indignada mesmo em meio à dor.

— Você está dizendo que estou fedendo?

— Não foi isso que eu disse!

— Então explique direito!

Ele passou a mão pelos cabelos, impaciente.

— Você está entrando no cio.

Fiquei em silêncio por alguns segundos.

Depois, arregalei os olhos.

— Eu não sou cachorro para ter cio!

Doram soltou um suspiro, como se conversar comigo estivesse exigindo mais paciência do que enfrentar uma alcateia inteira.

— Não é assim que funciona entre os híbridos.

A palavra me fez gelar.

Híbridos.

Eu conhecia aquelas histórias. Desde pequena, ouvira falar de seres que possuíam características humanas e lupinas, criaturas perseguidas por serem consideradas perigosas.

Meu pai, inclusive, proibira que eu lesse os registros antigos sobre eles.

— Você é um híbrido? — perguntei, quase sem voz.

— Sou.

— Mas disseram que vocês não existem mais!

Doram inclinou a cabeça.

— Então disseram uma mentira.

Senti um arrepio percorrer minha espinha.

Antes que eu pudesse continuar, ele segurou delicadamente meu queixo, apenas o suficiente para observar meus olhos. Seu rosto ficou sério.

— Seus olhos mudaram de cor durante a noite?

Afastei-me imediatamente.

— Como sabe disso?

— Responda, Hana.

Meu coração acelerou.

Eu não havia dito meu nome.

— Como sabe quem eu sou?

Doram retirou a mão e pareceu tão confuso quanto eu.

— Não sei explicar. Quando encontrei você, senti algo que nunca havia sentido antes. E, quando ouvi sua voz, soube seu nome.

Balancei a cabeça, tentando afastar aquela conversa absurda.

— Isso não faz sentido!

— Concordo.

Pela primeira vez, ele pareceu verdadeiramente preocupado.

— Você sentiu a lua chamando por você? Teve dores no peito? Seus olhos ficaram amarelos?

Engoli em seco.

— Sim. Mas como você sabe?

Doram ficou imóvel.

Seus olhos se fixaram nos meus, e a expressão em seu rosto mudou completamente.

— Não pode ser...

— O quê? O que está acontecendo comigo?

Ele se levantou e olhou para a floresta, como se temesse que alguém estivesse nos observando.

— Precisamos sair daqui.

— Eu preciso voltar para o castelo! Meu pai vai mandar os guardas procurarem por mim!

Doram virou o rosto lentamente.

— Seu pai sabe que você saiu?

— Não!

Ele ficou em silêncio por um instante.

— Hana, talvez seu pai saiba exatamente o que você é.

Senti meu estômago se contrair.

— O que está querendo dizer?

Antes que ele pudesse responder, ouvimos o barulho de cascos se aproximando.

— PRINCESA HANA!

Reconheci a voz de um dos guardas.

Meu coração se encheu de alívio, mas Doram pareceu ficar ainda mais tenso.

Ele estendeu a mão para mim.

Hesitei por um instante, mas aceitei sua ajuda.

No momento em que nossos dedos se tocaram, uma onda de calor atravessou meu braço e alcançou meu peito. Doram ficou imóvel, arregalando os olhos.

Por alguns segundos, nenhum de nós conseguiu falar.

Então ele sussurrou:

— Não pode ser você...

— O que significa isso?

Doram soltou minha mão e me encarou.

— Quando voltar ao castelo, não conte a ninguém sobre mim. Principalmente ao seu pai.

— Por quê?

Seus olhos amarelos brilharam sob a luz do sol.

— Porque, se minhas suspeitas estiverem certas, você não é uma humana comum.

Os cavaleiros estavam cada vez mais próximos.

Olhei para Doram, tentando encontrar alguma explicação em seu rosto, mas ele não disse mais nada.

Naquela manhã, voltei para o castelo com mais perguntas do que respostas.

Eu ainda não sabia o que estava acontecendo comigo, por que meus olhos haviam mudado ou por que aquele híbrido me olhava como se minha existência fosse impossível.

Mas uma coisa era certa.

Minha vida nunca mais seria a mesma.

E, embora eu ainda não compreendesse o motivo, uma parte de mim já sabia que aquele não seria meu último encontro com o lobo da tempestade.

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