Capítulo 1 O dia que tudo mudou

A dor começou antes do previsto, num fim de tarde chuvoso de outubro. Celeste ainda tentava respirar fundo, uma mão apoiada na barriga enorme, outra segurando a borda do sofá, quando sentiu o líquido escorrer pela perna e soube: era agora.

— Sebastian! — a voz saiu mais fraca do que ela gostaria.

Ele apareceu na porta da sala em segundos, o celular ainda na mão, uma reunião esquecida na tela. Bastou olhar para o rosto pálido da esposa para que todo o resto do mundo deixasse de existir.

— Já vamos. Respira, meu amor, olha pra mim — disse ele, ajoelhando-se diante dela, a voz mais mansa do que qualquer funcionário jamais tinha ouvido.

O carro cortou a cidade em tempo recorde. Celeste apertava a mão dele a cada contração, as unhas cravando na pele, e ele não soltava — nem quando os dedos dela ficaram brancos, nem quando o motorista pediu desculpas por um solavanco.

— Dói muito — ela sussurrou, entre uma respiração e outra, os lábios já perdendo um pouco da cor.

— Eu sei. Eu sei. Já estamos quase lá.

Ele mentia. Faltavam ainda vinte minutos. Mas não conseguia dizer outra coisa, como se as palavras certas pudessem, de alguma forma, encurtar a distância.

Sebastian olhava para as mãos dadas, a dela apertando com uma força que não condizia com o corpo frágil, e sentia o próprio peito apertar junto. Ele, que resolvia qualquer problema com uma ligação, com um cheque, com uma ordem, descobria ali, pela primeira vez, o que era não ter absolutamente nenhum controle sobre nada.

— Fica olhando pra mim, tá? Só pra mim — disse, tentando manter a voz firme, embora por dentro sentisse o desespero crescendo a cada quarteirão que o carro ainda precisava percorrer.

Celeste tentou sorrir, mas o sorriso morreu no meio de uma nova onda de dor.

— Promete que não solta minha mão — pediu ela, baixinho.

— Nunca. Eu não vou a lugar nenhum.

Quando o carro finalmente parou na entrada da maternidade, Celeste já respirava com dificuldade, o ar entrando curto, como se cada respiração custasse um esforço enorme. Sebastian não esperou o motorista abrir a porta, desceu, correu para o lado dela, e praticamente a ergueu nos braços, gritando por ajuda antes mesmo de pisar dentro do prédio.

— Alguém me ajuda, por favor! Minha esposa vai ter um bebê!

Enfermeiros correram com uma cadeira de rodas. Celeste foi sentada, ainda com a mão presa à dele, os dedos entrelaçados com uma urgência que nenhum dos dois parecia disposto a desfazer.

— Não solta — ela repetiu, os olhos já marejados, mais de medo do que de dor.

— Eu já disse. Nunca.

E foi assim, de mãos dadas, sem saber ainda o que o resto daquela noite reservava para os dois, que Sebastian Alvar acompanhou a esposa pelos corredores da maternidade, o coração disparado, o desespero mal disfarçado atrás de uma calma que ele não sentia de verdade.

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