Capítulo 2 Escolha
O corredor da maternidade tinha aquele cheiro de álcool e tensão que Sebastian nunca soube identificar antes, mas que agora parecia grudar em cada respiração. Ele andava de um lado para o outro, os sapatos batendo no piso frio, os olhos fixos na porta dupla por onde Celeste tinha desaparecido minutos antes, levada às pressas por uma equipe inteira que surgiu do nada assim que os monitores começaram a apitar.
Ninguém tinha lhe dito nada ainda. E aquele silêncio doía mais do que qualquer notícia ruim que pudesse vir depois dele.
— Senhor Alvar?
A voz veio de um homem de jaleco branco, na casa dos cinquenta anos, óculos meio embaçados e uma expressão que Sebastian reconheceu imediatamente — a expressão de quem precisa dizer algo que não tem jeito bonito de dizer.
— Sou eu. Onde está minha esposa? O que está acontecendo?
— Sou o doutor Ricardo Nunes, obstetra responsável pela Celeste. Podemos conversar ali, com mais calma?
— Não. — Sebastian nem se moveu. — Fala aqui. Agora.
O médico hesitou por um segundo, mas assentiu, entendendo que não adiantava tentar suavizar o que precisava ser dito.
— O caso da sua esposa é grave, senhor Alvar. Ela está com uma pré-eclâmpsia severa, e nas últimas horas evoluiu para uma condição que compromete os rins e o fígado. É sério. Estamos fazendo tudo que é possível, mas preciso ser sincero com o senhor: o quadro é delicado tanto para ela quanto para o bebê.
Sebastian sentiu o chão sumir por um instante. As palavras chegavam picadas, como se algo estivesse errado com o próprio ar da sala.
— Como assim, "grave"? Ela estava bem. Ela sempre disse que estava tudo bem nos exames.
O médico baixou os olhos por um segundo, e foi esse gesto — mais do que qualquer palavra — que fez Sebastian entender que havia algo mais ali. Algo que não tinha sido dito.
— Senhor Alvar... a sua esposa sabia dos riscos dessa gravidez desde o início. Os primeiros sinais de pré-eclâmpsia apareceram ainda no segundo trimestre. Eu mesmo conversei com ela sobre a gravidade da situação, sobre os riscos de levar a gestação até o fim.
— Isso é impossível. — A voz de Sebastian saiu mais alta do que ele pretendia, ecoando pelo corredor vazio. — Ela nunca me disse nada disso. Nunca.
— Ela pediu para que eu não contasse ao senhor.
O silêncio que se seguiu pareceu durar uma eternidade. Sebastian sentiu cada palavra entrar como uma facada lenta, o tipo de dor que não dá tempo nem de reagir direito.
— Ela... o quê?
— Celeste foi muito clara comigo desde a primeira consulta em que o quadro se agravou. Ela disse que não queria que o senhor soubesse, que não queria vê-lo sofrendo, ou tentando convencê-la a interromper a gravidez para se proteger. — O médico respirou fundo, como se cada palavra também custasse a ele. — Eu expliquei todos os riscos. Disse que havia possibilidade real de complicações graves, inclusive risco de vida para ela. Perguntei, mais de uma vez, se ela queria reconsiderar, buscar outras opções.
— E ela disse o quê? — Sebastian já sentia a raiva subindo, misturada com um desespero que não sabia mais onde colocar.
— Ela disse que não. Que aquele bebê era o maior desejo da vida dela, e que faria tudo para que nascesse com saúde, mesmo que isso significasse colocar a própria vida em risco. — O doutor Nunes fez uma pausa, os olhos marcados por um cansaço que ia além do plantão daquela noite. — Celeste escolheu continuar a gravidez sabendo dos riscos. Escolheu proteger o bebê, senhor Alvar. E, com toda sinceridade, é o que estamos tentando fazer agora lá dentro: honrar essa escolha dela, cuidando dos dois com tudo que temos.
Sebastian sentiu algo quebrar dentro do peito, uma mistura de amor e fúria que ele nunca soube que podia existir ao mesmo tempo, na mesma pessoa, no mesmo instante.
— Ela escondeu isso de mim. — A voz saiu rouca, quase um sussurro descrente. — Por meses. Ela me olhou nos olhos todos os dias, e escondeu isso de mim.
— Ela fez isso porque te ama, senhor Alvar. — O médico colocou uma mão no ombro dele, um gesto que em qualquer outro momento Sebastian teria rejeitado, mas que agora parecia a única coisa mantendo-o de pé. — Pessoas que amam de verdade, às vezes, tomam decisões impossíveis sozinhas, exatamente para poupar quem elas amam da dor de decidir junto.
— Isso não é amor. — Sebastian deu um passo para trás, a raiva finalmente encontrando pra onde ir. — Isso é ela decidir por mim que eu não tinha o direito de saber que podia perder ela. Que eu não tinha direito de lutar, de tentar convencer ela a se cuidar, a pensar em nós dois primeiro.
— Eu entendo sua revolta. Tem todo o direito de sentir isso.
— Eu não quero entendimento. — A voz de Sebastian tremia agora, entre a raiva e um choro que ele se recusava a deixar sair ali, no meio do corredor, na frente de um estranho de jaleco branco. — Eu quero minha esposa viva. Eu quero voltar no tempo e ter tido a chance de escolher junto com ela. Ela não tinha o direito de tirar isso de mim.
O médico não respondeu de imediato. Só ficou ali, testemunha silenciosa de um homem que via, pela primeira vez na vida, todo o seu poder, todo o seu dinheiro, toda a sua capacidade de resolver qualquer problema, reduzidos a absolutamente nada diante de uma porta fechada e de uma escolha que já tinha sido feita sem ele.
— Precisamos voltar lá para dentro — disse o doutor Nunes, finalmente, a voz mais baixa. — Vou mantê-lo informado de cada passo, eu prometo. Mas agora, o mais importante é focar em trazer os dois de volta bem.
Sebastian assentiu, incapaz de formar qualquer palavra. Viu o médico se afastar pelo corredor e desaparecer atrás da mesma porta dupla, deixando-o sozinho outra vez com o peso de uma verdade que mudaria, para sempre, o jeito como ele entenderia o amor e a dor, pelo resto da vida.
