Capítulo 3 Adeus

Uma enfermeira apareceu na porta do corredor, o rosto tenso, e não precisou dizer mais do que uma frase para que Sebastian sentisse as pernas quase cederem:

— Senhor Alvar, a senhora Celeste está pedindo para vê-lo. Venha rápido, por favor.

Ele entrou na sala sem ouvir mais nada do que a própria enfermeira dizia sobre os aparelhos, sobre os cuidados, sobre o tempo que ele teria ali dentro. Nada daquilo importava. Só importava chegar até ela.

Celeste estava pálida, muito mais pálida do que há uma hora, os lábios quase sem cor, um tubo de oxigênio ajudando cada respiração que parecia custar um esforço enorme. Mas os olhos dela, ao encontrarem os dele, ainda tinham aquele brilho que Sebastian reconhecia desde o primeiro dia em que a conheceu.

— Sebastian... — a voz saiu fraca, arrastada, cada sílaba parecendo pesar uma tonelada.

— Estou aqui. — Ele correu até a cabeceira da cama, segurando a mão dela com as duas mãos, como se pudesse, pela força daquele gesto, impedir que ela fosse para algum lugar longe dele. — Estou aqui, meu amor. Não fala, guarda suas forças.

— Preciso... falar. — Ela apertou a mão dele, um aperto fraco, mas ainda ali, ainda presente. — Me desculpa.

— Não. — A voz dele saiu embargada, os olhos já marejando sem que ele conseguisse impedir. — Não precisa se desculpar de nada.

— Precisa sim. — Uma pausa longa, a respiração dela mais difícil a cada palavra. — Eu escondi de você. Eu sabia... dos riscos. E não te contei.

— Celeste...

— Deixa eu falar. — Ela fechou os olhos por um segundo, como se juntasse cada gota de força que ainda tinha guardada em algum lugar do corpo cansado. — Eu sabia que, se te contasse, você ia me fazer escolher. Ia me implorar pra parar, pra proteger a mim mesma. E eu sabia... que talvez eu escolhesse isso. Que talvez eu escolhesse ficar com você, com medo. E eu não conseguia viver com essa dúvida.

Sebastian sentiu o peito apertar de um jeito que doía fisicamente, uma dor que não tinha nome, que não cabia em lugar nenhum do corpo.

— Você devia ter me dado a chance de escolher junto com você.

— Eu sei. — Uma lágrima escorreu pelo rosto pálido dela. — E me desculpa por isso. Mas eu não conseguia arriscar perder ela. Não depois de senti-la crescer dentro de mim, Sebastian. Não depois de tanto tempo esperando por esse milagre.

Ele apertou a mão dela com mais força, como se aquilo pudesse ancorá-la ali, no mundo, ao lado dele.

— Fica comigo. Fica comigo, por favor. Não faz isso comigo, Celeste. Vive. Luta. Eu não sei viver sem você.

— Sebastian... — Ela sorriu, um sorriso pequeno, triste, mas verdadeiro. — Eu escolhi ela. Eu escolhi nossa filha. E eu sabia, lá no fundo, que se tivesse que escolher entre nós duas, era isso que eu ia fazer. Porque eu sei o quanto você me ama. E sei que, se pudesse, você me escolheria a mim. Por isso eu não te contei. Porque eu não queria que você tivesse esse peso.

— Eu escolheria vocês duas. — A voz dele quebrou de vez, o choro finalmente vencendo a resistência que ele vinha segurando desde que entrou naquele hospital. — Eu ia dar um jeito. Eu sempre dou um jeito.

— Eu sei que você ia tentar. — Ela levantou a mão livre, fraca, e tocou o rosto dele, limpando uma lágrima que escorria. — E é por isso que eu te amo tanto. Mas dessa vez, meu amor, não tinha jeito. E eu fiz minha escolha. Fui feliz. Fui muito feliz ao seu lado, Sebastian. Cada dia que passamos juntos valeu a pena.

— Não fala assim. Parece despedida.

— Preciso te pedir uma coisa. — A respiração dela ficava mais curta, mais difícil, e Sebastian sentiu o pânico crescer no peito ao perceber isso. — Cuida da nossa filha. Ama ela. Não deixa ela crescer sozinha, presa nessa casa cheia de regras que você gosta tanto de fazer.

— Celeste...

— Promete. — Os olhos dela imploravam, com a pouca força que ainda restava. — Promete que vai amar ela por mim também. Que não vai fechar seu coração. Refaz sua vida, Sebastian. Se casa de novo. Dá pra nossa filha uma mãe que ame ela como eu amaria. Não a deixa crescer sem esse amor.

— Eu não quero ninguém além de você. — Ele chorava abertamente agora, sem nenhuma vergonha, a mão dela cada vez mais fraca dentro da sua. — Eu só quero você.

— Eu sei. — Ela sorriu de novo, os olhos já pesados, quase fechando. — Mas a vida continua, meu amor. E ela vai precisar de você inteiro. Não do pedaço que vai sobrar se você passar o resto da vida preso na tristeza.

Os aparelhos começaram a apitar, um som agudo, insistente, que cortou o momento como uma faca. Sebastian sentiu o corpo de Celeste ficar mais mole, a mão dela perdendo força dentro da sua.

— Celeste! Fica comigo! Celeste!

Uma equipe inteira invadiu o quarto em segundos, vozes gritando comandos, mãos empurrando Sebastian para longe da cama, alguém segurando-o pelos braços enquanto ele se debatia, tentando voltar para perto dela.

— Não! Larga eu! Celeste!

— Senhor, precisa sair, por favor!

— CELESTE! — O grito dele ecoou pelo corredor inteiro quando o tiraram do quarto, a porta se fechando entre ele e a mulher que amava, os aparelhos ainda apitando do outro lado, cada segundo parecendo uma eternidade de puro terror.

Sebastian caiu de joelhos no corredor, as mãos cobrindo o rosto, o corpo inteiro tremendo com soluços que ele não conseguia mais controlar, enquanto do outro lado daquela porta, o destino de sua vida inteira estava sendo decidido sem ele.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo