Capítulo 4 Peso do silêncio

O tempo parou de fazer sentido para Sebastian assim que a porta se fechou. Ele ficou ali, no chão do corredor, sem forças para se levantar, sem forças para pensar em mais nada além do som daqueles aparelhos apitando do outro lado da parede. Uma enfermeira tentou ajudá-lo a se levantar, ofereceu água, uma cadeira, palavras de conforto que ele nem registrava. Nada tinha importância. Só a porta. Só o que estava acontecendo atrás dela.

Foi o doutor Nunes quem saiu, alguns minutos depois — ou teriam sido horas, Sebastian não saberia dizer. O jaleco branco agora tinha manchas que ele preferiu não identificar. O rosto do médico, antes cansado, agora carregava algo mais pesado. Mais definitivo.

Sebastian se levantou antes mesmo que o médico chegasse perto, o corpo inteiro tenso, como se pudesse, só de ficar de pé, impedir a notícia de chegar.

— Senhor Alvar...

— Não. — A palavra saiu sozinha, um reflexo, uma tentativa desesperada de barrar o que vinha a seguir. — Não fala. Não fala isso.

— Sinto muito. — A voz do médico tremia, algo raro para um homem que provavelmente já tinha dado más notícias centenas de vezes na carreira. — Fizemos tudo que estava ao nosso alcance. A hemorragia foi maciça, o quadro se agravou muito rápido. O coração da sua esposa não resistiu. Celeste faleceu há poucos minutos.

O mundo inteiro pareceu desabar em silêncio.

Sebastian não gritou. Não chorou de imediato. Ficou ali, parado, os olhos fixos no médico, como se esperasse que ele dissesse outra coisa, que corrigisse o erro, que voltasse atrás com aquela frase impossível de se sustentar em pé.

— Isso não pode ser verdade. — A voz saiu baixa, quase sem força. — Eu estava com ela. Eu segurei a mão dela. Ela estava falando comigo.

— Eu sei que é difícil de aceitar.

— Ela estava falando comigo! — Dessa vez a voz saiu mais alta, quebrada, os punhos fechados com tanta força que as unhas cravaram na própria pele. — Ela pediu... ela pediu pra eu prometer coisas. Ela não pode estar morta. Ela estava aqui, agora mesmo, ela estava aqui.

O médico não disse mais nada. Apenas ficou ali, testemunha silenciosa de um homem desmoronando por dentro, sem saber mais em que direção olhar, em que direção respirar.

Foi nesse instante que uma enfermeira se aproximou pelo outro lado do corredor, um embrulho pequeno e claro nos braços, embalado com cuidado, o rosto minúsculo mal visível entre os panos.

— Senhor Alvar? — A voz dela era gentil, cautelosa. — Sua filha está bem. Ela nasceu com saúde, pesando...

— Tira ela daqui. — A voz de Sebastian saiu áspera, quase irreconhecível, um som que não parecia pertencer a ele mesmo. — Tira ela da minha frente.

A enfermeira parou, surpresa, apertando o bebê contra o peito instintivamente.

— Senhor, ela é sua filha, ela precisa...

— EU DISSE PRA TIRAR ELA DAQUI! — O grito ecoou pelo corredor inteiro, fazendo mais de uma pessoa se virar, assustada. Sebastian sentiu o próprio corpo tremer com a violência das próprias palavras, mas não conseguiu recuar. Não naquele momento. Não conseguia olhar para aquele embrulho pequeno sem ver, ao mesmo tempo, o rosto de Celeste se apagando na cama do hospital. — Por favor. — A voz baixou, quebrando de vez, os olhos se enchendo de lágrimas outra vez. — Por favor, leva ela. Eu não consigo. Agora não.

A enfermeira, embora visivelmente perturbada, assentiu e se afastou em silêncio, levando a criança para a ala neonatal, deixando Sebastian sozinho outra vez com o médico e com o peso de tudo o que tinha acabado de perder.

— Eu preciso vê-la. — Sebastian limpou o rosto com as costas da mão, a voz ainda tremendo. — Preciso ver a Celeste.

O doutor Nunes hesitou por um instante, mas assentiu, entendendo que negar aquilo seria negar o único pedido que aquele homem parecia capaz de fazer naquele momento.

— Venha comigo.

O quarto estava mais silencioso agora. Os aparelhos, antes apitando insistentemente, tinham sido desligados. Celeste estava deitada na cama, os olhos fechados, o rosto sereno de um jeito que quase parecia sono, se não fosse pela imobilidade absoluta, pelo silêncio que não existia quando ela estava viva.

Sebastian caminhou até a cama como se cada passo custasse um esforço sobre-humano. Sentou-se na cadeira ao lado, pegou a mão dela, já fria, já sem aquele calor que ele conhecia tão bem, e a levou até o rosto, encostando-a contra a própria pele.

— Você não podia ter feito isso comigo. — A voz saiu em um sussurro rouco, os ombros tremendo com soluços que ele não tentava mais controlar. — Você prometeu. Você disse que ia ficar.

Ele chorou como nunca tinha chorado antes, a cabeça baixa sobre a mão dela, o corpo inteiro sacudindo com um tipo de dor que não cabia em palavra nenhuma. Lá fora, o mundo continuava girando, médicos, enfermeiras, uma filha recém-nascida esperando por um pai que ainda não conseguia olhar para ela, mas ali, naquele quarto, só existiam Sebastian, o silêncio, e a mulher que ele amaria, de um jeito ou de outro, pelo resto da vida

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