Capítulo 5 Velório

O céu daquela tarde estava carregado, cinzento, como se o próprio tempo tivesse decidido se vestir de luto junto com todos que ali se encontravam. A propriedade dos Alvar, normalmente um lugar de jardins bem cuidados e silêncio elegante, agora abrigava fileiras de cadeiras dispostas sobre a grama, flores brancas espalhadas por toda parte, e um caixão de madeira escura posicionado sob um caramanchão que Celeste mesma tinha ajudado a plantar, anos atrás, quando ainda sonhava em ver aquele jardim florescer ao lado do marido.

Sebastian tinha insistido: nada de igreja cheia de estranhos, nada de imprensa, nada de gente da empresa fingindo pesar por educação corporativa. Só ali. Só a terra que ela amava, na propriedade que escolheram juntos para envelhecer. Se não puderam envelhecer juntos, ao menos ela descansaria em um lugar que fora dela também.

Vários executivos da empresa tinham tentado, mesmo assim. Chegaram de terno escuro, flores nos braços, condolências ensaiadas na ponta da língua. Foram barrados no portão principal por seguranças que apenas cumpriam ordens.

— O senhor Alvar pediu que apenas família e amigos próximos entrassem — repetiam, educados, mas firmes, enquanto carros de luxo davam meia-volta, seus ocupantes visivelmente incomodados por serem tratados como qualquer estranho.

Sebastian não estava ali para dar satisfação a ninguém. Estava sentado na primeira fileira, o terno impecável como sempre, mas o rosto era de um homem que parecia ter envelhecido dez anos em poucos dias. Os olhos, fundos e vermelhos, fixos no caixão, como se ainda esperasse, contra toda lógica, que aquilo fosse revelar-se um erro.

Ao seu redor, poucas pessoas: alguns primos de Celeste, duas amigas de infância que choravam baixinho, um tio que servira de padrinho no casamento. Ninguém ousava se aproximar demais de Sebastian. O silêncio dele impunha uma distância que nenhuma palavra de condolência parecia capaz de atravessar.

O padre falou sobre luz, sobre paz, sobre a beleza de uma vida entregue com amor. Sebastian ouviu cada palavra sem realmente escutar nada. Sua mente insistia em voltar para o quarto do hospital, para a mão fria que ele segurou até ser forçado a soltar, para o som daquele grito que ainda ecoava, de alguma forma, dentro do próprio peito.

Quando chegou a hora de baixarem o caixão, Sebastian se levantou sozinho. Não aceitou o braço que um dos primos ofereceu, não quis apoio de ninguém. Caminhou até a beira da cova recém-aberta, os punhos cerrados ao lado do corpo, a mandíbula travada numa tentativa quase violenta de não desmoronar ali, na frente de todos.

— Descansa, meu amor — sussurrou, tão baixo que só o vento pareceu escutar. — Eu vou cumprir minha promessa. Nem que isso me custe tudo que eu tenho.

Foi então, enquanto a terra começava a ser recolocada sobre o caixão, que ele sentiu uma presença ao seu lado. Não precisou olhar para saber quem era,o perfume, discreto e antigo, sempre o mesmo há décadas, entregava tudo.

Marta, a mãe de Celeste, parou ao lado dele, o rosto marcado por um luto que parecia ainda mais profundo do que o dele, se é que isso era possível. Perder um marido é uma dor. Perder uma filha, ele imaginava, devia ser uma dor sem nome, sem comparação possível.

— Sebastian.

Ele não respondeu. Continuou olhando para a terra sendo revirada, como se, ao desviar o olhar, estivesse traindo alguma promessa silenciosa que fizera a si mesmo.

— Sebastian — ela repetiu, a voz embargada, mas firme, o tipo de firmeza que só vem de quem já perdeu o medo de qualquer outra dor depois de ter perdido a maior de todas. — Eu sei que você não quer falar com ninguém agora. Eu sei.

Ele continuou em silêncio, os olhos fixos, o corpo rígido como se qualquer movimento pudesse fazer a dor transbordar de um jeito que ele não teria como conter.

Marta esperou. Não insistiu, não tentou forçar uma resposta. Ficou ali, ao lado dele, os dois olhando para o mesmo buraco na terra, para o mesmo fim de uma mesma pessoa que os dois amavam de formas diferentes, mas igualmente profundas.

— Ela era minha única filha — disse Marta, por fim, a voz agora um fio quase inaudível. — E agora ela se foi, e eu... eu não sei o que fazer com essa dor, Sebastian. Não sei nem como acordar amanhã sabendo que ela não está mais nesse mundo.

Ainda assim, Sebastian não disse nada. Não porque não quisesse, mas porque, sinceramente, não tinha certeza se conseguiria abrir a boca sem desmoronar por completo.

Marta engoliu em seco, os olhos marejados fixos no rosto dele, buscando ali algum resquício do genro atencioso que conhecera nos últimos anos, e não encontrando quase nada além de uma casca vazia, endurecida pela dor.

— Eu sei que você está sofrendo. Eu sei que talvez não seja a hora certa para falar sobre isso. — Ela respirou fundo, juntando uma coragem que parecia lhe custar cada gota de força que ainda tinha. — Mas eu preciso te dizer uma coisa, Sebastian. Eu preciso te pedir uma coisa.

Ele finalmente virou o rosto, os olhos vermelhos encontrando os dela pela primeira vez desde que ela havia chegado, dois lutos idênticos se reconhecendo naquele instante.

— Eu gostaria de ficar com minha neta.

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