Capítulo 3 3

Às quatro e quarenta e cinco da manhã, descobri que a Fazenda Horizonte tinha um silêncio muito diferente daquele ao qual eu estava acostumada. 

Não era ausência de barulho.

 Pela janela aberta do quarto chegavam o canto insistente dos insetos, algum mugido distante, o vento movimentando as folhas das árvores e sons que eu ainda não sabia identificar.

 Permaneci alguns segundos deitada, olhando para o teto desconhecido, até o despertador tocar sobre a mesinha e me lembrar de que aquela não era uma viagem de estágio da faculdade. 

Eu não tinha professor, orientador ou supervisor acadêmico para assumir a responsabilidade se alguma coisa desse errado. 

Eu era  a médica-veterinária. Tinha um contrato assinado. Um salário. Responsabilidades reais. 

E Antônio me esperava às cinco e quinze depois de ter deixado bastante claro, no dia anterior, que meu diploma não significava muito para ele.

Levantei depressa, tomei banho e vesti jeans, camisa e botas antes de prender os cabelos. 

Quando cheguei à cozinha, Cecília já preparava café com a organização irritante que parecia sobreviver até à falta de sono. 

Manuela surgiu pouco depois usando uma bota e carregando a outra na mão, com os cabelos presos de qualquer maneira.

— Quem decidiu que trabalhar no campo exige acordar antes das galinhas deveria responder criminalmente por isso.

— Você escolheu ser técnica em agropecuária. Cecília lembrou, entregando-lhe uma caneca.

— Escolhi trabalhar com produção rural. Em nenhum momento assinei um documento autorizando o sol a nascer depois de mim.

Eu ri enquanto pegava minha própria caneca, mas o humor não conseguiu esconder o nervosismo que havia entre nós. 

Cecília conferia a pasta pela terceira vez. 

Manuela mexia o pé sem parar. 

Eu mal sentia o gosto do café.

Conhecia aquelas duas havia tempo suficiente para perceber quando estavam com medo.

— Nós não precisamos saber tudo hoje. Falei.

Cecília ergueu os olhos.

— Diga isso para os homens que têm vinte anos de experiência e receberam três meninas recém-formadas para trabalhar ao lado deles.

— Se formos demitidas.  Manuela declarou 

— Voltamos para a cidade.

— E moramos onde? Perguntei.

Ela pensou.

— Certo. Não podemos ser demitidas.

Nós três rimos, e aquele instante foi suficiente para diminuir um pouco o peso sobre meu peito.

Cheguei ao setor veterinário às cinco e doze. 

Antônio já estava no curral conversando com dois funcionários e olhou imediatamente para o relógio quando me viu aproximar.

— Três minutos de sobra.

— Posso voltar e esperar até cinco e quinze, se preferir.

Um dos peões disfarçou uma risada. Antônio não.

— Quero ver se essa disposição dura uma semana.

A provocação me incomodou, mas decidi engolir a resposta. 

Passei a primeira hora acompanhando a rotina sanitária dos lotes enquanto Antônio explicava os protocolos utilizados na propriedade. 

Eu anotava tudo. Alguns procedimentos eram familiares, outros tinham adaptações específicas para a escala da Horizonte. 

Quando fiz uma pergunta sobre o manejo de um dos lotes, ele ergueu uma sobrancelha.

— Não ensinaram isso na faculdade?

A insegurança veio primeiro. Depois, a irritação.

— Ensinaram princípios de manejo. 

—Não ensinaram os protocolos específicos da Fazenda Horizonte porque, até onde sei, a universidade ainda não oferece a disciplina “adivinhar como Antônio trabalha”.

Dessa vez os dois homens próximos riram.

Antônio me encarou por alguns segundos e balançou a cabeça.

— Língua afiada.

— Só quando necessário.

— Vamos descobrir se trabalha tão bem quanto responde.

A oportunidade surgiu antes que eu desejasse.

Um funcionário apareceu apressado dizendo que uma novilha do lote cento e oito havia piorado. 

Seguimos para uma baia onde encontrei o animal inquieto, com distensão abdominal evidente e respiração alterada. 

Meu coração acelerou. 

Durante a faculdade eu havia estudado aquilo, acompanhado atendimentos e participado de procedimentos supervisionados. Mas existia uma diferença assustadora entre saber que um professor estava atrás de você e perceber que agora todos esperavam sua decisão.

Antônio cruzou os braços.

— E então, doutora?

Aproximei-me, examinei o animal e fiz a avaliação clínica antes de responder.

— A distensão está predominante no lado esquerdo.

—Pela apresentação e pelo histórico, minha principal suspeita é timpanismo. 

—Quero confirmar antes de intervir.

— Principal suspeita ou diagnóstico?

Olhei para ele.

— Diagnóstico responsável começa pela avaliação, não pela vontade de impressionar quem está assistindo.

Ele não respondeu.

Prossegui com o exame, confirmei o quadro e solicitei o material necessário para o manejo inicial. 

Minhas mãos permaneceram firmes, embora por dentro eu estivesse repetindo mentalmente cada etapa. 

Antônio acompanhou tudo de perto e interferiu apenas uma vez para me mostrar uma particularidade dos equipamentos utilizados ali.

 Aceitei a orientação sem orgulho. 

Eu não precisava provar que sabia tudo. Precisava provar que era capaz de aprender sem colocar um animal em risco.

Quando a distensão começou a diminuir e a respiração da novilha melhorou, percebi que também estava respirando mais facilmente.

Antônio observou o animal por alguns instantes.

— Bom.

Esperei.

— Só isso?

Ele me olhou.

— Queria aplauso?

— Talvez uma faixa. “Clara sobreviveu à primeira manhã.”

O canto de sua boca se levantou.

— Não se anime, doutora. Ainda nem são oito horas.

Foi pouco, mas significou alguma coisa.

Passei o restante da manhã entre registros sanitários, avaliação de animais e uma quantidade de informações que ameaçava transformar minha cabeça em um arquivo desorganizado.

 Cometi pequenos erros. Preenchi uma ficha no campo errado, precisei perguntar duas vezes onde determinado material era armazenado e quase entrei no curral incorreto. 

Cada falha me incomodava mais do que deveria, porque eu sentia que precisava provar constantemente que a empresa não havia cometido um erro ao me contratar.

Quando finalmente cheguei ao refeitório, encontrei Manuela praticamente caída sobre uma cadeira.

— Estou reconsiderando todas as minhas escolhas profissionais.

Sentei-me diante dela.

— Primeiro dia produtivo?

— Um homem chamado Geraldo passou vinte minutos me ensinando como funciona um equipamento que eu sei operar desde o estágio. Quando falei isso, ele respondeu: “Estágio é uma coisa. Serviço é outra”.

Cecília chegou logo depois, muito mais silenciosa.

— E você? Perguntei.

Ela colocou a bandeja sobre a mesa.

— Meu supervisor devolveu meu levantamento.

Manuela imediatamente ficou séria.

— Sem ler?

— Leu uma parte. Disse que eu estava confiando demais nos dados históricos e queria que eu fosse a campo antes de propor qualquer intervenção.

— Ele está errado?

Cecília hesitou.

— Não.

Era justamente isso que doía.

Ela respirou fundo e passou os dedos pela testa.

— Eu passei anos querendo me formar. Agora cheguei aqui e parece que metade do que sei não é suficiente.

Reconheci naquele medo exatamente aquilo que eu havia sentido diante da novilha.

— Talvez não seja.

As duas me olharam.

— Obrigada pelo incentivo. Cecília murmurou.

— Não terminei. Talvez o que sabemos não seja suficiente ainda. Somos recém-formadas. Se soubéssemos o mesmo que alguém com vinte anos de campo, alguma coisa estaria errada. 

—O problema seria chegar aqui acreditando que não temos mais nada para aprender.

Manuela ficou pensativa por um instante.

— Isso foi surpreendentemente inteligente para alguém que ontem acordou na cama de um...

— Não termine essa frase.

Ela abriu um sorriso.

Cecília começou a rir.

A tensão diminuiu.

No fim do expediente, nós três caminhávamos juntas em direção à casa quando uma caminhonete preta passou pela estrada principal. 

O veículo era tão luxuoso que destoava dos utilitários usados diariamente na propriedade. 

Manuela acompanhou-o com os olhos.

— Aquilo tem cheiro de dinheiro.

— Você consegue sentir o cheiro de dinheiro agora?  Cecília perguntou.

— Anos pagando aluguel desenvolvem habilidades especiais.

Um funcionário que caminhava alguns metros atrás de nós ouviu a conversa.

— Deve ser alguém da administração da holding.

Olhei para a caminhonete desaparecendo na direção dos escritórios.

— Os proprietários vêm muito aqui?

— Os três? Pouco. Monteverde, Ferraz e Alencar têm propriedades e negócios espalhados por todo lado.

Quando aparecem, fazem reunião e vão embora. Às vezes passam meses sem pisar aqui.

Manuela esperou o homem se afastar e então virou-se lentamente para nós.

— Três.

Cecília apontou imediatamente para ela.

— Nem comece.

— Nós somos três. Os donos são três.

— Coincidência, Respondi.

— E se forem bonitos?

— Manuela!

Ela riu e passou os braços pelos nossos ombros.

— Estou brincando. Fizemos um pacto: 

Nada de homens.

— O pacto era nada de fazendeiros. Lembrei.

— Podemos ampliar.

Entramos em casa juntas, sujas, cansadas e doloridas, mas ainda empregadas. 

Naquela noite, depois do banho, abri minha mala procurando uma camiseta e encontrei a máscara negra entre as roupas. 

Segurei-a por alguns segundos, lembrando involuntariamente do desconhecido, da voz grave, das mãos dele e daquela sensação absurda de segurança que eu senti nos braços de alguém que sequer conhecia.

Coloquei a máscara no fundo da gaveta.

Aquele homem não fazia parte da minha vida. Provavelmente jamais o encontraria novamente.

Na Fazenda Horizonte eu tinha problemas muito mais concretos: 

Precisava conquistar Antônio, aprender uma rotina gigantesca e provar que meu primeiro emprego não havia sido uma sorte passageira.

Fechei a gaveta e apaguei a luz.

Naquele momento, minha maior preocupação era conseguir chegar ao curral antes das cinco e quinze da manhã seguinte.

E talvez fosse melhor que continuasse assim por algum tempo.

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