Capítulo 4 4
Ao final da primeira semana na Fazenda Horizonte, eu havia descoberto três coisas importantes:
Antônio não era tão desagradável quanto fazia questão de parecer, acordar antes das cinco continuava sendo uma violência contra a dignidade humana e minhas duas melhores amigas tinham desenvolvido maneiras completamente diferentes de enfrentar a pressão de seus primeiros empregos.
Cecília estudava ainda mais. Depois do jantar, espalhava mapas, relatórios e anotações sobre a mesa da cozinha e permanecia ali até eu ameaçar arrancar a caneta de sua mão.
Manuela fazia exatamente o contrário.
Chegava reclamando de Geraldo, tirava as botas na varanda, dizia que jamais abriria um manual fora do expediente e, quinze minutos depois, eu a encontrava pesquisando silenciosamente alguma técnica que ele mencionou durante o dia.
Nenhuma das duas admitiria que estava assustada. Eu também não. Talvez por isso estivéssemos sobrevivendo tão bem.
Naquela manhã, Antônio me chamou antes mesmo de eu terminar o café que havia levado numa garrafa térmica.
Uma vaca no setor de reprodução apresentava sinais de dificuldade no parto, e bastou ouvi-lo dizer que o trabalho de parto estava prolongado para meu corpo inteiro despertar.
Seguimos até a maternidade enquanto ele me explicava o histórico do animal.
Eu escutava, fazia perguntas e tentava controlar aquela sensação desconfortável que sempre surgia quando percebia que a teoria estava prestes a encontrar uma situação na qual não existia botão para voltar, corrigir ou consultar um professor.
A vaca estava inquieta e exausta.
Fiz a avaliação com Antônio ao meu lado e percebi rapidamente que precisaria de auxílio.
— O que você quer fazer? Ele perguntou.
Observei novamente antes de responder.
— Primeiro confirmar a apresentação e avaliar se existe condição segura para assistência.
— Não vou puxar um bezerro só porque existe gente olhando o relógio.
Antônio assentiu discretamente.
Durante os minutos seguintes, trabalhamos juntos.
Pela primeira vez desde minha chegada, ele não parecia interessado em me testar, mas em colaborar.
Orientou um funcionário, pediu determinado material e me deixou conduzir a avaliação.
Quando encontrei a posição que dificultava a progressão do parto, meu estômago apertou.
— Temos apresentação inadequada. Expliquei.
— Preciso corrigir antes de qualquer tentativa de tração.
— Então corrija.
Respirei fundo.
O procedimento exigiu paciência.
Em determinado momento, minhas mãos tremiam de esforço, meus braços doíam e uma voz desagradável dentro da minha cabeça insistia que eu não tinha experiência suficiente.
Antônio percebeu minha hesitação.
— Faculdade ensinou?
— Ensinou.
— Fez em estágio?
— Com supervisão.
— Então agora faça sem professor olhando por cima do ombro.
—Se precisar de ajuda, eu estou aqui. Isso não diminui seu diploma.
Olhei para ele, surpresa.
Era provavelmente a coisa mais gentil que Antônio havia me dito desde que cheguei.
Voltei ao trabalho.
Quando finalmente conseguimos corrigir a posição e auxiliar o parto, o bezerro caiu sobre a cama preparada e, durante um segundo terrível, pareceu imóvel demais.
Ajoelhei-me imediatamente para avaliá-lo, limpando as vias aéreas e estimulando sua respiração.
Os segundos pareceram minutos até que o pequeno corpo reagiu.
O primeiro movimento foi discreto.
Depois veio a respiração.
Então o som.
Soltei o ar que nem percebi que estava prendendo.
— Bem-vindo ao mundo, rapaz! Murmurei.
A mãe virou a cabeça na direção do filhote, e alguma coisa apertou dentro do meu peito.
Talvez porque eu tivesse crescido sem conhecer a mulher que me colocara no mundo.
Talvez porque nascimentos sempre carregassem uma espécie de promessa que eu não sabia explicar.
Permaneci alguns segundos observando os dois até Antônio tocar meu ombro.
— Doutora.
Levantei.
— Sim?
Ele indicou minha camisa.
Olhei para mim mesma. Eu estava suja da cabeça aos pés.
— Primeira semana e já acabou com o uniforme. Comentou.
— Pensei que isso fosse requisito para ganhar seu respeito.
— Ainda falta muito.
Mas ele estava sorrindo.
Quando saí do setor de reprodução, encontrei Manuela encostada na cerca.
— Fiquei sabendo que você fez um parto.
— A notícia corre rápido demais aqui.
— Fazenda. Se você espirrar no curral, alguém do outro lado da propriedade oferece um lenço.
Ela me entregou minha garrafa de água.
— E você? Perguntei.
O sorriso desapareceu.
— Geraldo e eu tivemos uma pequena divergência filosófica.
— Tradução?
— Ele me mandou ficar observando enquanto os homens faziam o manejo.
— E?
— Eu perguntei se meu contrato dizia “decoração rural”.
Fechei os olhos.
— Manuela...
— Falei educadamente.
— Você não sabe falar educadamente quando está com raiva.
— Isso é preconceito contra pessoas sinceras.
Caminhamos juntas até encontrarmos Geraldo perto de um galpão.
Ele tinha pouco mais de cinquenta anos, braços fortes, rosto queimado pelo sol e a expressão de quem não estava acostumado a ter suas ordens questionadas.
— Senhorita Reis. Chamou.
Manuela parou.
— Sim?
— Se terminou de passear, venha comigo.
Vi o maxilar dela se contrair.
Segurei discretamente seu braço antes que respondesse.
— Vai.
Ela lançou um olhar mortal para mim e o acompanhou.
Descobri mais tarde que Geraldo não estava tentando excluí-la do trabalho.
Queria que ela observasse primeiro porque a equipe realizava um manejo diferente daquele que Manuela conhecia.
O problema era que nenhum dos dois possuía talento para explicar qualquer coisa sem transformar a conversa numa disputa.
No almoço, ela apareceu emburrada.
— Ele estava certo. Anunciou antes mesmo de se sentar.
Cecília e eu nos entreolhamos.
— Pode repetir? Perguntei.
— Não abuse.
— Eu queria registrar.
— Ele queria que eu observasse um protocolo diferente antes de entrar no manejo.
—Poderia ter explicado.
— E você poderia ter perguntado. Cecília disse.
Manuela apontou o garfo para ela.
— De que lado você está?
— Do lado da comunicação humana básica.
Eu ri.
Cecília, entretanto, também tinha novidades.
Seu supervisor havia aprovado a primeira proposta de avaliação de solo depois de fazê-la refazer parte do levantamento em campo.
— Então funcionou? Perguntei.
Ela tentou parecer indiferente, mas seus olhos brilhavam.
— Ele disse que agora parecia trabalho de engenheira agrônoma e não exercício universitário.
Manuela arregalou os olhos.
— Isso foi elogio?
— Na linguagem dele, aparentemente.
Erguemos nossos copos de água.
— À nossa primeira semana sem demissão. Manuela brindou.
— Ainda faltam algumas horas. Cecília observou.
— Você consegue destruir qualquer comemoração.
Aquela rotina começou a produzir em mim uma sensação que eu não experimentava havia muito tempo:
Pertencimento.
A Fazenda Horizonte ainda era estranha, gigantesca e intimidadora, mas começava a adquirir rostos, horários e sons familiares.
Eu já sabia onde Antônio guardava determinados medicamentos, qual funcionário sempre esquecia de preencher uma ficha e qual caminho entre nossa casa e o setor veterinário ficava enlameado depois da irrigação.
Pela primeira vez desde a descoberta da traição de Rafael, consegui atravessar um dia inteiro sem pensar nele.
O homem da máscara negra era outra história.
Ele aparecia nos momentos mais inconvenientes.
Às vezes era apenas uma lembrança rápida provocada por um perfume masculino parecido.
Outras vezes, quando eu me deitava, lembrava de sua voz próxima ao meu ouvido, das conversas entre uma dança e outra, da maneira como parecia compreender que eu não queria falar sobre minha vida.
Eu me irritava comigo mesma sempre que isso acontecia. Não conhecia aquele homem. Não deveria sentir falta de alguém cujo sobrenome ignorava.
Naquela noite, Manuela encontrou a máscara negra quando entrou no meu quarto procurando uma blusa.
— Você guardou.
Arranquei-a da mão dela.
— Foi sem querer.
— Claro.
— A minha ficou com ele.
Manuela apoiou o ombro no armário.
— A minha também.
Olhei para ela.
O sorriso divertido havia desaparecido.
— Você pensa nele?
Ela hesitou antes de responder.
— Às vezes.
Cecília apareceu na porta.
— Em quem?
Manuela e eu olhamos para ela.
Cecília suspirou.
— Não.
— Você também pensa no seu. Manuela acusou.
— Não penso.
— Mentira.
Cecília permaneceu em silêncio por dois segundos.
— Talvez ocasionalmente.
Começamos a rir.
Acabamos sentadas no chão do meu quarto, as três máscaras masculinas diante de nós, como três lembranças absurdas da mesma madrugada.
— Nós realmente não sabemos nada sobre eles. Murmurei.
— Melhor assim. Cecília respondeu.
— Foi uma noite. Estamos começando nossas carreiras. Não precisamos complicar nossas vidas.
Manuela pegou sua máscara prateada.
— Concordo.
Nós duas a encaramos.
— O quê? Eu também amadureço.
— Isso é preocupante. Falei.
Ela jogou uma almofada em mim.
Na manhã seguinte, enquanto caminhávamos juntas para nossos setores, passamos novamente diante da placa da Holding Monteverde Agro.
Eu já quase não reparava nela.
Ainda éramos três garotas recém-formadas tentando conquistar espaço numa propriedade que existia muito antes de chegarmos.
Não tínhamos dinheiro, sobrenomes importantes ou alguém influente abrindo portas para nós. Tínhamos diplomas, coragem, uma à outra e uma quantidade considerável de teimosia.
Naquele momento, era suficiente.
O passado começava finalmente a parecer distante.
E eu estava determinada a mantê-lo assim.
