Capítulo 3 SOLNISHKO

Sol.

Quando você chama alguém por esse nome, não sorri nem que seja um pouco? Talvez com diversão, ou com um toque de carinho?

Não é?

Mas este homem… este homem com quem vou me casar hoje não tem nem sombra de divertimento no rosto. Nada.

O celebrante começa, a voz ecoando em algum lugar distante, e eu vou assentindo, como se entendesse, como se pertencesse. Mas minha mente dispara, mil avisos gritando para mim. Ele vai saber. Ele vai enxergar através disso. Você não consegue fazer isso. Não hoje.

Um lampejo atravessa os olhos dele, quase invisível. Uma leve inclinação da cabeça e um tremor no canto da boca — predatório e perigoso.

— Nervosa? — ele pergunta baixo, e não há nada de baixo nisso.

— E-eu… eu estou bem — consigo dizer, engasgando, odiando o tremor na minha voz.

Eu engulo em seco, forçando o ar pela garganta, fingindo não notar. Cada palavra do celebrante, cada movimento na plateia, parece uma contagem regressiva.

Agora, eu entendo a Talia.

Quer dizer, ela não tinha direito nenhum de fugir, me deixando carregar a cruz dela, mas eu a entendo, pelo menos um pouco.

Eu também não me sentiria bem perto desse homem. Desse homem nauseante.

Mas… ela não disse que eles estavam se dando bem?

Apesar de que eu tinha confrontado meus pais dizendo que isso estava indo rápido demais.

Só um mês atrás, eu conheci este homem pela primeira vez, assim como a Talia.

A Talia disse que estava tudo bem o casamento acontecer exatamente quando ele queria. Mal um mês depois, mas nada disso jamais fez sentido para mim.

Se ao menos tivessem me escutado!

Mas o que eu sei, né?

Talia é a filha modelo. Aquela que vive sendo convidada para as reuniões altamente prestigiadas. Ela é o modelo, a que parece perfeita no meio da multidão.

E eu?

Eu sou só a garota que passa os dias rabiscando esboços que ninguém entende.

Meu pai odeia isso, na verdade. Ele diz que eu não sou nada parecida com a minha irmã.

E daí?

Mas agora, eu queria ser.

Porque não tem como eu aguentar uma semana. Não, um dia sem escorregar de volta para o meu verdadeiro eu.

Eu sou tudo o que a Talia não é.

Barulhenta. Desleixada. Engraçada. Nada feminina, como meu pai diria.

E a Talia? Você juraria que ela saiu direto de uma pintura.

Eu odeio admitir, mas ela praticamente foi criada para se encaixar neste mundo. No mundo dele.

Ela mal sorri também. Sou irmã dela e, mesmo assim, não faço ideia do que se passa na cabeça dela, enquanto ela me lê como um livro aberto.

Quer dizer, isso é prova, não é?

Ela não teria tido a chance de fugir se eu tivesse tomado a porra de um minuto para enxergar através da fachada que ela vinha usando esse tempo todo.

— Você, Talia Monroe… — a voz do celebrante corta meus pensamentos.

O nome me atinge de novo como um tiro.

Talia.

Por uma fração de segundo, eu esqueço de respirar.

Minha garganta arde, mas eu consigo assentir, forçando um sussurro que não soa nada como eu.

— Você aceita Luciano Rafael Moretti como seu legítimo esposo, para amar e respeitar, a partir de hoje…?

Esta é a hora de enfiar essas porra de flores na cara fria e impassível dele e correr pra caralho para fora desta sala, mas… por que meus pés parecem fincados no chão?

Por que eu tenho medo de que eu realmente morra se der um passo para longe dele?

— Eu… — eu engoli em seco, sentindo apenas o nó que se formava na minha garganta.

— Aceito.

Luciano não piscou. Nem sequer sorriu.

Ele apenas me observa.

Como se estivesse memorizando cada respiração, cada tremor — ou talvez cada mentira.

O olhar dele percorre meu corpo, lento e avaliador, antes de desviar por um instante para minha boca e voltar para meus olhos. O ar entre nós se fecha, pesado de algo que eu não sei nomear.

O celebrante se vira para ele.

— E você, Luciano Rafael Moretti, aceita Talia Monroe como sua legítima esposa?

O maxilar de Luciano se contrai uma vez. Ele ainda não tira os olhos de mim.

— Sim.

As duas palavras saem baixas e contidas, mas soam como um veredito.

A voz do celebrante atravessa a névoa. — Pelo poder a mim concedido, declaro-os marido e mulher. Você já pode beijar a noiva.

Eu congelo quando meus dedos cravam no buquê, as pétalas tremendo sob a pressão. Ai, Deus, ai, Deus, ai, Deus…

Luciano não hesita. Seus olhos se fixam nos meus, indecifráveis, escuros como meia-noite. Ele dá um passo lento para mais perto. Cada movimento é calculado e deliberado, até que sua mão se ergue e afasta uma mecha de cabelo atrás da minha orelha com delicadeza, num gesto quase íntimo.

Eu continuo plantada no lugar, o peito apertando.

Então ele se inclina.

Os lábios dele encontram os meus, não com suavidade nem doçura. É firme, possessivo.

O mundo ao meu redor desaparece. Eu sinto o calor do corpo dele, a força nas mãos, e a pressão lenta e intencional dos lábios dele contra os meus. Meus joelhos ameaçam ceder, e meu coração parece que vai explodir no peito.

E então ele se afasta só o suficiente para seus olhos encontrarem os meus de novo — escuros, avaliadores.

— Você está com um cheiro diferente, esposinha. Cansou do seu perfume?

O mundo pareceu inclinar quando ele disse isso, e eu senti meu pulso disparar.

Porque, pela primeira vez desde que esse pesadelo começou…

Eu acho que ele sabe.


E, assim, o casamento acaba. Pelo menos, Luciano acha que sim.

Não passamos mais um minuto sequer depois do beijo antes de ele dizer que vamos embora. Todas as pessoas no salão se levantam, se curvam e murmuram alguma coisa que soa como um código… ou gíria?

Eu não sei, mas o jeito como olham para ele… não é respeito. É submissão, e isso revira meu estômago.

Quem é esse homem?

Eu quero perguntar, mas minha garganta está seca, então mantenho o olhar fixo à frente, fingindo que pertenço a um mundo que não entendo.

Lá fora, SUVs pretas se alinham na entrada, motores ronronando. Homens de terno escuro se movem com precisão militar, abrindo portas e varrendo o horizonte com os olhos. Um comboio na frente, um comboio atrás. O peso disso pressiona meu peito.

— Entra — diz Luciano, a voz baixa, plana e impossível de ignorar.

Eu hesito, atrapalhada com as dobras do vestido. Ele não se mexe para ajudar. Nem sequer olha para mim, exceto para se certificar de que eu obedeço.

Ao escorregar para o banco de trás do primeiro SUV, eu encosto as costas no couro, tentando estabilizar a respiração.

Luciano entra em seguida, se senta ao meu lado e não diz uma palavra, apenas encara a janela, o rosto duro e rígido.

Por fim, depois do que parece horas, mas mal são minutos, ele se desloca um pouco e, pela primeira vez, seus olhos escuros e indecifráveis encontram os meus.

Então ele desliza a mão por baixo do meu vestido e a pousa com firmeza na minha coxa, e meu corpo inteiro enrijece com o gesto.

Eu me encolho de um jeito óbvio demais quando o polegar dele traça círculos lentos na minha pele, como se testasse a textura do meu medo.

— Você é minha agora, solnishko — ele murmura, a palavra russa escorrendo da língua como seda e fumaça.

O olhar dele prende o meu, sem piscar. — Cada respiração que você der pertence a mim. Cada olhar e cada palavra. Eu não divido o que é meu. E também não negocio.

Eu tento respirar, mas a mão dele fica onde está, o calor queimando através do meu corpo.

— Você vai aprender bem depressa — ele continua, a voz baixa e medida — que, no meu mundo, obediência não é opcional. Você vai se curvar, ou eu vou fazer você se curvar. De um jeito ou de outro, você vai se encaixar.

As palavras afundam no meu peito como uma marca — aviso e promessa.

Ele se inclina, perto o bastante para que eu sinta o hálito roçar minha orelha.

— Sorria, solnishko. Você acabou de virar uma Moretti.

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