Uma Rainha Entre as Trevas: Capítulo Um - Isolda

Meus olhos se arregalam e meu corpo desperta num sobressalto quando sou acordada pelo som de gritos agonizantes. Devagar, sento, com os músculos protestando de exaustão, desidratação e fome, enquanto encosto a cabeça na parede de cimento. Fecho os olhos e tento abafar os gritos que ecoam pelo corredor e entram na minha cela, fazendo eu me perguntar quando vai ser a minha vez.

Três dias. Faz três dias que estou nesta cela, com o corpo definhando enquanto ouço os sons de tortura. Eu reclamaria, mas não vejo sentido. Afinal, eu me coloquei nessa situação. Não, isso não é autodepreciação; quero dizer que eu literalmente me coloquei aqui. Só que eu não devia estar aqui por tanto tempo esperando outro prisioneiro aparecer, então dá pra colocar essa na conta do meu péssimo timing. Visões tinham que vir com carimbo de hora e data. Facilitaria muito a minha vida... ok, não facilitaria, mas me permitiria ajudar os outros com um pouco mais de eficiência.

Quatro dias atrás tive uma visão de um mutolupus sendo trazido para estas celas, só para ser torturado e morto. Eu nunca sei como as visões chegam até mim; só sei que, se chegam, é porque eu devo ajudar. Talvez seja insano da minha parte depositar tanta fé em imagens intrusivas na minha cabeça, mas eu tenho muito pouco em que me agarrar. Minhas visões me lembram que eu tenho um propósito e que talvez exista um motivo para o meu sofrimento. Há um motivo para eu ainda estar aqui. Então, eu encaro cada visão como um passo em direção a um objetivo maior. Eu só não faço ideia de qual seja esse objetivo. Pelo menos, no meio-tempo, eu consigo salvar algumas vidas, e isso tem que valer alguma coisa... né?

O único problema das visões é que elas raramente vêm com uma noção clara de tempo. Podem se referir a algo que vai acontecer em horas, dias ou semanas, então cabe a mim decidir se ajo agora ou espero. Geralmente sou bem boa em avaliá-las e deduzir se é um evento iminente ou algo de um futuro distante. Desta vez eu cheguei bem perto, mas, infelizmente, errei por uns dois dias e, doce Deusa, como eu estou me odiando por isso.

Olho pelas fileiras de celas com grades, todas ocupadas, até a única janela que lança um pequeno feixe de luz do sol da manhã nesta prisão escura e úmida. Eu daria qualquer coisa para conseguir sentir aquele calor na pele; nem que fosse só para recuperar um pouco de força, mas estou presa nesse buraco gelado, sem nada para me aquecer além das roupas no meu corpo. Que, pra ser sincera, não estão em grande estado.

Fecho os olhos e tento me concentrar em meditar e preservar o pouco de força que ainda me resta quando um objeto grande é arremessado contra as grades da minha cela — causando um zumbido desagradável nos meus ouvidos — e chama minha atenção.

“Awn, eu interrompi o soninho de beleza da brujinha?” Abro os olhos e vejo o rosto da pessoa mais recente a entrar na minha lista de merda. “Que foi, o gato comeu sua língua? O seu tipo adora gatos, né?”, ele diz em tom de deboche, com o sotaque mexicano bem marcado.

“Estás pero si bien pendejo”, digo num tom apático.

Muito rapidamente, os olhos castanho-escuros dele se estreitam em fendas e as narinas se abrem de raiva, enquanto as mãos se fecham nas grades da minha cela. “Que porra foi que você disse pra mim, puta?”, ele sibila.

—Desculpa, eu estava com a impressão de que você falava espanhol, mas posso dizer de novo em inglês, se preferir? —digo num tom entediado.

—Você deve estar doida pra morrer —ele rosna, com desdém.

—Eu não tenho muito medo da morte, mas aposto que você tem —respondo, com a sombra de um sorriso dançando nos meus lábios. A casca dura dele vacila por um instante, mas a raiva volta com mais intensidade do que antes.

Ele encosta a mão no painel eletrônico da minha cela e, depois de um bip, a porta se abre. Devagar, a figura de um metro e setenta e três entra na minha cela com um sorriso sádico no rosto barbeado, de pele oliva, enquanto os olhos castanho-escuros me encaram com uma intenção sombria. Eu não recuo nem me encolho quando ele abre o zíper da jaqueta, exibindo o corpo definido diante dos meus olhos. Não sei o que isso significa pra algumas pessoas, mas cada um com seus gostos. Para minha completa repulsa, ele começa a esfregar a mão na própria virilha, roçando o pau por cima do jeans enquanto lambe os lábios de um jeito que faz a bile subir na minha garganta.

—Sabe, eu não curto gorda, mas com uns peitos desses eu estaria disposto a abrir uma exceção —ele diz, numa voz baixa e áspera, dando mais um passo.

Por instinto, reviro os olhos diante de mais uma pessoa escolhendo a ofensa fácil de comentar meu peso. Sim, chame a mulher gorda de gorda, que original. Quer me dizer também que água molha? Idiota. Um gemido escapa da minha boca quando o filho da puta agarra um punhado do meu cabelo e puxa minha cabeça para trás com força.

—Você acabou de revirar os seus olhos pra mim, porra? —ele cospe.

—Parabéns, você sabe ler linguagem corporal —zombo.

—Pinche coño —ele sibila, enquanto começa a desafivelar o cinto da calça.

Tento arrancar meu cabelo da mão dele, mas as barras de mercúrio ao redor da minha cela deixam meu corpo fraco demais pra fazer quase qualquer coisa, e a falta de comida e água também não ajuda em nada a minha força. Eu adoraria usar minha magia pra arrebentar a cabeça desse cara na parede, mas não consegui sentir minha magia desde que me jogaram aqui, o que só pode indicar a presença de nuummite em algum lugar. Provavelmente incrustada nas próprias fundações da rocha.

Quando ele está quase terminando de abrir o zíper da braguilha, uma voz furiosa chama atrás dele.

—Mateo! —troveja a voz. —Que porra você acha que está fazendo?

Olho na direção da porta aberta da cela e vejo um dos meus outros captores. Uma versão mais velha do babaca que está prendendo meu cabelo como num torno. Ele tem um metro e setenta e oito e veste um terno preto caríssimo, sem gravata, com a camisa aberta. Tem cabelo grisalho, cavanhaque grisalho e olhos castanho-escuros. A pele, sem dúvida antes oliva, agora é mais bege, exceto pelo indício de manchas perto dos olhos. Deve ter uns cinquenta e tantos, mas, mesmo com os sinais da idade, a autoridade que ele exala deixa claro que não é alguém com quem se brinca. Aposto que ele é ainda mais definido do que o filho. Embora alguém precise dizer a esses homens que músculos não são sinônimo de força.

—Eu só ia ensinar essa puta a ter um pouco de respeito, papá.

—Não se rebaixe nem desonre esta família com um comportamento tão vil. Faça o seu trabalho ou suma da minha frente, porra —ordena o mais velho.

Mateo se inclina e sussurra no meu ouvido: “Você vai desejar que ele não tivesse interrompido”, diz ele, antes de me arrastar para fora da cela pelos cabelos. Eu agarro as mãos dele, tentando impedi-lo de arrancar meus fios pela raiz, enquanto me debato para me livrar do aperto. Ele é forte pra caralho, para um humano. Sinto a pele dos meus pés e das minhas pernas sendo esfolada enquanto sou puxada pelo chão áspero de cimento da masmorra, até ser arrastada para dentro de uma sala de exames impecável, branca. O cheiro de produtos químicos de limpeza industrial enche minhas narinas e revira meu estômago. Merda, não esse quarto de novo. Faço uma última tentativa inútil de me soltar, mas estou exausta demais. Junior e Senior me levantam e me prendem a uma cadeira que só consigo descrever como uma cadeira de dentista, num cômodo que parece uma clínica odontológica do inferno. As paredes e o chão brancos fazem a luz branca, estourada, apontada para mim, arder ainda mais, e eu preciso fechar os olhos para conter a fisgada que isso provoca nas minhas retinas.

Espio com os olhos entreabertos, vejo a bandeja de instrumentos ao meu lado e sei exatamente o que vem aí. A mesma merda que aconteceu no meu primeiro dia aqui. Por quê? Por que visões não vêm com porra de carimbo de data e hora?!

— Vamos nos divertir um pouquinho, não é? — meu captor se gaba, pegando uma lâmina pequena da bandeja, e eu ouço o chiado quando ele passa a lâmina lentamente pela parte de dentro do meu antebraço. Não consigo segurar o grito quando uma dor ardente, em brasa, se espalha pelo meu braço ao sentir a lâmina cortar minha pele. Porra de mercúrio! — Qual é o problema? Você não gosta de mercúrio? Ah, é verdade, brujas odeiam essa porcaria — ele sorri de canto enquanto passa a lâmina pela parte de dentro do meu outro braço, arrancando mais um grito de dor quando, por instinto, eu luto contra as amarras.

— Se você vai torturar uma raça, aprende pelo menos o nome da porra da raça que você está torturando! — eu rosno, ofegante, tentando conter as lágrimas que se acumulam nos meus olhos enquanto a dor queimante do mercúrio começa a se espalhar pelo meu corpo. Filhos da puta doentes e distorcidos.

Tenho uma lista bem seletiva de pessoas que eu odeio, mas venators ficam bem no alto. Principalmente agora. Venators e venatrixes são só humanos com complexo. Eles acham que todos os seres sobrenaturais são abominações que precisam ser exterminadas e que é o dever sagrado deles eliminar, um por um, cada um de nós. Uma puta mentira. Se soubessem como a organização deles começou, a vida deles ia desmoronar.

Há três dias estou sob captura e tortura da família Cabrera. Uma família de venators que comanda a filial mexicana do Extinguo Concillium. Uma organização de humanos que dedicam a vida a matar sobrenaturais. O que começou como a cruzada de vingança de um homem, milhares de anos atrás, virou uma organização global operada por um bando de racistas. Vamos chamar as coisas pelo nome. Não é como se eles estivessem caçando sobrenaturais que machucam pessoas ou cometem crimes; isso é o que a Delegation faz. Não. Esses desgraçados doentes são só gente que ama matar gente porque é diferente. Eles não se importam se você é bom ou ruim. Não ser humano automaticamente faz de você alguém maligno aos olhos deles. Eu já estou acostumada com as pessoas acharem que eu sou má, então isso dificilmente é um conceito novo para mim.

Horas de tortura interminável se arrastam; meu corpo reduzido a um único nervo exposto em chamas enquanto Mateo Cabrera se posta sobre mim, coberto do meu sangue, com um ar de satisfação no rosto. Meus olhos tremulam, cansados, enquanto meu corpo implora para desligar, numa tentativa de bloquear a dor. Cada impulso do meu cérebro se esforça ao máximo para me salvar deste inferno.

— Ah, ah, ah — canta Mateo, segurando meu rosto entre as mãos e me fazendo estremecer. — Nada de desmaiar, ou vou ter que usar mais adrenalina em você. Você não quer ter um ataque cardíaco, quer? — Ele estala a língua. Meu coração ainda martela furioso desde a última injeção de adrenalina que ele me deu, só para me manter acordado e poder sofrer mais. Salvando a humanidade, uma ova. Quem é salvo torturando pessoas?

— Vai te faire foutre — consigo dizer, e o cansaço pesa nas palavras.

— Eu não falo francês — ele diz, irritado, mas sua silhueta começa a entrar e sair de foco.

Devo ter apagado, graças a Deus, porque quando volto a mim é no momento em que me jogam de volta no chão gelado de concreto da minha cela; os inúmeros cortes e queimaduras no meu corpo gritam comigo. Sinto meu próprio sangue secando na pele, deixando uma sensação repuxada e coçando, mas isso empalidece diante da dor. Eu só preciso aguentar mais um pouco e torcer para não ser morto antes de concluir minha missão. Eu só preciso ficar vivo tempo suficiente para ele chegar. Tomara que eu não tenha que esperar muito mais, porque não sei quanto mais meu corpo aguenta.

O cansaço enfim faz seu trabalho e, com meu corpo largado em um monte no chão frio e imundo, sinto-me escorregar para a inconsciência, mas ela não traz o alívio que eu esperava. No instante em que fecho os olhos, minha mente se enche de imagens de um incêndio furioso, queimando fora de controle, e dos ecos dos meus próprios gritos enquanto as chamas reduzem meu mundo a cinzas. Três séculos depois, e os acontecimentos daquela noite ainda me assombram. A noite em que meu mundo mudou para sempre e minha vida foi lançada numa escuridão sem fim. A noite em que eu perdi tudo.

Houve um tempo em que eu era uma pessoa feliz, que tinha tudo o que alguém poderia desejar; um futuro brilhante e uma família amorosa para celebrar minhas conquistas e me guiar pelos dias. A vida era perfeita e, então, numa noite, tudo me foi arrancado. Esses bastardos doentes podem me torturar até a morte, se isso lhes der prazer; nada do que fazem comigo jamais vai se comparar ao inferno que eu venho vivendo. Eles nunca vão conseguir me fazer sofrer mais do que eu já sofri. Podem tentar, mas vão descobrir que meu limite de tolerância vai além do que conseguem compreender.

Alguns dias eu me pergunto por que eu me dou ao trabalho. Por que continuo seguindo em frente e lutando? Por que não simplesmente desisto e encerro por aqui? Eu penso nisso o tempo todo: simplesmente desistir, mas eu... eu não consigo. Desistir não é quem eu sou e, se eu o fizesse, significaria que todas as pessoas que se voltaram contra mim — e a pessoa que me traiu — sairiam impunes. Se eu desistisse, aqueles que eu amei jamais teriam justiça. Os que eu amava teriam morrido em vão. Talvez eu não tenha conseguido salvá-los, mas não vou deixar que suas mortes não signifiquem nada. Eu vivo e eu luto porque eles não podem. Eu mantenho minha voz para poder falar por aqueles que não têm uma. Um dia todos vão saber a verdade. Se eu tiver que suportar um pouco mais de sofrimento enquanto espero por esse dia, que seja. Minha hora vai chegar e, quando chegar, eu não vou mostrar misericórdia alguma àqueles que me fizeram mal.

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