Uma Rainha nas Trevas: Capítulo Dois - Valeria
“Senhorita Cabrera, chegamos em casa”, anuncia meu motorista, arrancando-me do meu devaneio. Ao abrir os olhos, sinto o cansaço da longa viagem se dissipar quando os portões da Casa Montero surgem à vista. Sorrio e olho pelas janelas fumês do meu carro para a vila à beira-mar que chamei de lar a vida inteira.
Já faz duas semanas desde a última vez que estive em casa, e senti uma falta terrível daqui. Observo os portões se abrirem e o carro entrar pela passagem, parando diante das portas da vila. Saio rapidamente do carro e respiro a brisa salgada do mar que me diz que estou em casa. Enquanto meu motorista desce e pega minhas malas no porta-malas, entro na vila e logo vejo minha mãe descendo apressada as escadas com os braços abertos para me receber.
“¿Cómo estás, mija?!”, exclama ela ao chegar ao último degrau e correr até mim, puxando-me para seus braços. Eu a abraço com força e inalo seu perfume familiar, saboreando como é bom estar em casa.
“Hola, mamá, estou bem. Como você está?”, pergunto, apertando-a mais um pouco. Ela se afasta e segura meu rosto entre as mãos, examinando-me com cuidado com aquela expressão de preocupação que só uma mãe consegue ter.
“Você parece cansada, mija. Quando foi a última vez que dormiu?”
“Eu dormi no avião, prometo”, asseguro, beijando suas bochechas.
Ninguém diria, só de olhar para minha mãe, que ela tem cinquenta anos. Ela ainda é do tipo que vira cabeças ao entrar em um ambiente. Seu cabelo longo, escuro e ondulado, num castanho cor de mel; seus olhos cor de noz, acolhedores; o nariz pequeno, porém bem definido, destacado pelas maçãs do rosto e pela linha do maxilar marcantes. Sua pele tem um brilho bronzeado maravilhoso, e seu corpo continua tão tonificado quanto o de uma mulher na casa dos vinte, embora isso se deva ao nosso treinamento rigoroso. As pessoas costumam nos confundir com irmãs, embora ela tenha 1,65 m e eu 1,70 m. Além disso, meu cabelo é mais liso e minha pele mais bronzeada, e, ao contrário dos meus pais, eu tenho olhos castanho-mel. Mamá diz que puxei minha abuelita do lado dela, o que sempre considerei um grande elogio, porque adoro minha abuelita, e mesmo aos setenta e nove anos ela ainda é deslumbrante. Acho que bons genes simplesmente correm na minha família.
“Como foi tudo?”, ela me pergunta quando Carlos — meu motorista — entra com minhas malas.
“Queria ter aproveitado um pouco mais os pontos turísticos de Amsterdã, mas foi bom. Meu alvo quase conseguiu escapar de mim, mas mesmo assim consegui encontrá-los e cuidar deles.”
“Esqueceu alguma coisa?”, pergunta uma voz profunda, familiar, imponente. Viro-me para a entrada da varanda, onde meu pai está em sua pose habitual, intimidadora e autoritária.
“Hola, papá”, cumprimento, já sentindo a atmosfera acolhedora desaparecer.
“Li o relatório do Tácito sobre o que aconteceu em Amsterdã. Há algo que você queira me dizer?”, ele pergunta casualmente enquanto entra com os braços para trás, a postura tão reta que parece que enfiaram uma barra no rabo dele. Ei, eu amo meu pai mais do que tudo, mas isso não quer dizer que ele não seja um babaca às vezes.
“Você me mandou matar um casal de lobos, então eu matei um casal de lobos”, dou de ombros, cruzando os braços sobre o peito. “Você leu o relatório do Tácito, mas não o meu?”
— Ah, eu li os dois. Mas não batiam. Por exemplo, Valeria, o seu omite a parte em que você deixou o lobinho fugir — ele diz, olhando diretamente para mim, como se me desafiasse a negar.
— Porque eu deixei. E daí? — eu já não gosto do rumo que isso está tomando.
— Você tinha uma única tarefa, Valeria. Estou extremamente decepcionado que a minha própria filha deixaria um vira-lata imundo escapar — ele diz, com uma decepção escancarada.
Meu maxilar treme de raiva. — Ele era só uma criança. Você esperava mesmo que eu matasse uma criança? — questiono, enojada.
— Sim! Criança ou não, era um monstro, e o seu dever é apagar todos os monstros da face da Terra. Purgar esse mundo de suas aberrações mutantes. Em vez disso, você os deixa livres para crescerem e matarem pessoas inocentes — ele diz, balançando a cabeça.
— Eu nunca hesitei no meu dever, e nem vou hesitar, mas se você espera que eu saia por aí matando crianças inocentes, então você está completamente fora da porra da sua cabeça — eu retruco.
— Mija! Cuidado com a maneira como fala com seu pai — minha mãe me repreende.
— Você precisa aprender a parar de vê-los como crianças. Eles são monstros, e você deixá-los livres só causa problemas para nós no futuro. É por isso que Tácito resolveu isso, já que você foi incapaz de fazê-lo — meu pai me informa.
Sinto o sangue sumir do meu rosto. Imagens daquele menininho doce e das lágrimas que escorreram pelo rosto dele quando viu o que eu tinha feito com os pais. Os cachos loiros manchados com o sangue deles enquanto eu o incentivava a correr de volta para a matilha. Eu nunca quis machucá-lo; eu já me sinto horrível por tê-lo deixado órfão, mas eu não ia assassinar uma criança. Só que parece que poupá-lo acabou resultando na morte dele de qualquer jeito. Acho que, mesmo quando eu tento fazer a coisa certa, ainda assim eu fodo tudo.
— Thiago, isso era mesmo necessário? — minha mãe pergunta, triste, ao meu pai. — Matar uma criança...
— Ele era um monstro, Jazmín — ele diz baixinho, caminhando até ela e segurando seus ombros com delicadeza. — Um monstro que cresceria em tamanho e força e, um dia, viria buscar vingança. Não podíamos deixar isso acontecer. Eu não vou arriscar que algo aconteça à minha família — ele promete, pousando a mão na bochecha dela.
Minha mãe se inclina ao toque dele e assente devagar. — Você tem razão. Foi o melhor — ela diz, dando a ele um sorriso caloroso.
Sinto meu estômago começar a dar cambalhotas. Como eles conseguem se olhar com tanto amor enquanto discutem o assassinato de um garotinho? Eu me sinto a louca aqui, porque sou a única que acha isso doentio pra caralho.
— Ahhh, a Valeria está chorando por aberrações de novo? — diz a voz mordaz do meu irmão, Mateo, enquanto ele entra na vila.
— E o Mateo está abusando sexualmente de prisioneiros de novo? — pergunto, com a voz pingando desprezo. Eu sou dedicada ao legado da nossa família de apagar os sobrenaturais da Terra antes que destruam mais vidas, mas não aprovo metade das merdas que a organização deixa passar — e eu com certeza não concordo com a merda que meu irmão faz com os prisioneiros. Da última vez que peguei ele, eu quebrei ele na porrada, e ele sabe que eu faço de novo. Como irmã mais velha, era para ser meu trabalho protegê-lo, mas eu acho que meu trabalho é mais manter o pendejo na linha.
— Que porra você acabou de dizer pra mim? — ele rosna, furioso, avançando na minha direção.
Ele estica a mão para me agarrar, mas eu a seguro rápido e torço o braço dele para trás das costas enquanto arrebento a cabeça dele contra a mesa do hall de entrada e o prendo ali.
— Tenta encostar a mão em mim de novo. Eu desafio você, porra — digo, ameaçadora, enquanto aperto ainda mais meu controle.
— Tira as suas mãos de mim, porra! — ele grita, tentando se desvencilhar da minha pegada, sem sucesso.
— Por que vocês dois sempre têm que brigar?! — minha mãe grita, frustrada.
— Eles só são cheios de energia; não fica se preocupando com as palhaçadas deles — meu pai acalma minha mãe antes de olhar para mim. — Valeria, solta o seu irmão.
Dou mais uma torção no braço de Mateo e o solto, recuando um passo.
— Perra loca — meu irmão resmunga, endireitando a postura e girando o ombro, me encarando como se pudesse me atravessar com o olhar.
— Faz essa merda de novo e eu te mostro o quanto eu sou uma vadia louca de verdade — ameaço, com um sorriso largo. Mateo sai furioso na hora, com o rabo entre as pernas, como de costume, porra, e eu vou até as minhas malas. — Vou desfazer as coisas.
Vou até minha mãe, beijo a bochecha dela e subo, me afastando desse circo de merda disfuncional que é a minha família.
Olha, eu amo minha família. Não concordo com tudo o que eles fazem, mas ainda amo. Na maior parte do tempo eu quero enfiar uma faca no saco do meu irmão, porque definitivamente algum fio se cruzou na cabeça daquele cara pra ele ser o doente do caralho que é, mas eu ainda vingaria ele se alguma coisa acontecesse, porque, no fim das contas, ele ainda é do meu sangue. Eu só também mataria ele com as minhas próprias mãos se eu pegasse ele fazendo alguma coisa doentia como da última vez. Como o nosso pai ainda deixa ele ficar sozinho com prisioneiros é uma coisa que me ultrapassa pra caralho.
Quando entro no meu quarto, sorrio ao ver a porta aberta para o terraço, com aquela vista deslumbrante do oceano. Deixo as malas no chão e vou para o terraço, tiro as botas e me jogo na espreguiçadeira grande. Deixo todas as minhas preocupações se dissolverem enquanto escuto o som suave das ondas batendo na areia e deixo a brisa leve e o farfalhar das palmeiras me acalmarem. Quem precisa de máquina de som quando se tem o negócio de verdade?
Devo ter dormido em algum momento, porque acordo com alguém batendo na porta do meu quarto. Estico o corpo rapidinho e me levanto para abrir.
— Sí? — pergunto ao ver um dos seguranças da minha família, Rahui, parado ali, com um olhar nervoso no rosto. Sempre me diverte ver um homem com mais de um metro e oitenta parecendo nervoso perto de mim, embora, nesse caso, eu não saiba dizer se é por minha causa ou por algo que ele quer me contar.
— Peço desculpas pelo incômodo, Señorita Cabrera, mas, já que a senhora está em casa, a senhora me instruiu a procurar a senhora caso seu irmão saísse do controle com algum dos prisioneiros — ele diz, com cuidado.
Fecho os olhos e puxo o ar devagar, fundo, tentando me manter calma, antes de abri-los e encarar o guarda à minha frente.
— O que foi que ele fez?
— Ele está torturando um dos povo-peixe na Sala Branca — ele me informa.
Aquela sala de merda. Eu odeio. Era para ser uma sala de interrogatório, para podermos aprender mais sobre os sobrenaturais e, assim, deter eles, mas gente como o meu irmão só usa aquilo para ter prazer doentio em torturá-los por diversão.
“Obrigada por me trazer isso à minha atenção, pode ir”, instruo ao fechar a porta.
Pego minha mala e a coloco na cama, abro-a e tiro de dentro o estojo da minha arma. Eu o abro, puxo uma das minhas Berettas 92F, carrego-a e a enfio na parte de trás da cintura do meu jeans. Fecho as botas de novo e desço as escadas, atravesso o terraço e sigo pelo complexo até a casa de hóspedes. O que é só um jeito mais bonito de dizer prisão. Cumprimento os guardas com um aceno, e eles me deixam entrar sem questionar. Então sigo até as masmorras. Quanto mais desço, mais preciso resistir à vontade de vomitar quando o cheiro rançoso do que acontece aqui embaixo chega ao meu nariz. É nojento pra caralho.
Logo começo a ouvir sons de choro, gritos e alguém implorando pela própria vida, e apresso o passo na direção da Sala Branca. Escancaro a porta e faço o meu melhor para manter uma expressão impassível diante da visão grotesca à minha frente. Deitado na cadeira cirúrgica está um jovem que não deve ter mais de vinte e cinco anos. Ele foi horrivelmente desfigurado, seu corpo está coberto de marcas de queimadura, e está gritando enquanto meu irmão doente do caralho corta o braço do pobre desgraçado.
— Que porra você acha que está fazendo?! — grito.
— Isso não te diz respeito — ele responde, me ignorando enquanto continua cortando a carne do homem, enquanto sangue vermelho-vivo cobre o chão que antes era branco.
Avanço feito uma tempestade, agarro meu irmão pela garganta e o arremesso contra a parede.
— Diz respeito pra caralho, sim! Ou nós os matamos, ou arrancamos informações deles, só isso. Nós não fazemos isso! Eles não são brinquedos para você usar nas suas brincadeirinhas doentias ou para você gozar vendo o quão alto conseguem gritar enquanto você os corta em pedaços! — grito, indignada, com a respiração pesada enquanto meu corpo treme de raiva.
— Eu só queria ver se o braço dele cresceria de novo — ele sorri sadicamente.
Eu o solto e dou um passo para trás, em horror atônito diante do monstro à minha frente. Sobrenaturais podem ser monstros, mas meu irmão é um tipo de monstro totalmente diferente. Olho para o homem chorando de dor enquanto o sangue continua jorrando do braço mais rápido do que ele consegue se regenerar.
— Por favor — implora o homem.
Puxo a Beretta da cintura do meu jeans, aponto para o homem na cadeira e disparo a bala direto entre os olhos dele, acabando com seu sofrimento.
— Que porra foi essa?! — meu irmão guincha.
— Nossa missão é exterminar sobrenaturais, não torturá-los. Fazer isso só faz de nós os monstros — digo, saindo da sala e deixando Mateo limpar a própria bagunça.
— Você é uma vadia do caralho, sabia?! — ele grita.
Viro para olhar para ele sem um pingo de emoção no rosto.
— Se eu tivesse um pau, essa seria a parte em que eu mandaria você chupá-lo — digo a ele, e continuo andando sem olhar para trás.
Estou prestes a subir as escadas de volta quando sinto uma estranha sensação de puxão no estômago. Isso me pega de surpresa e me faz parar no mesmo instante. Não é doloroso nem desconfortável, só… estranho. Nunca senti nada parecido. É como se algo estivesse me puxando em direção às celas, mas logo afasto a sensação e volto a subir as escadas, seguindo para a vila para contar ao meu pai o psicopata que o filho dele é.
