Uma Rainha nas Trevas: Capítulo Três - Isolda

Isso é uma merda.

Eu sei que eu disse que não sou de reclamar, mas isso é uma merda. Mesmo sem estar nesta cela, eu não conseguiria me curar e, desse jeito, nem sei o que vai me matar primeiro: a perda de sangue ou uma infecção. Tenho a sensação de que esses babacas não estão nem aí para as condições de higiene dos calabouços deles. Não é como se venators tivessem inspeções de saúde e segurança. Não, isso implicaria que eles se importam com o nosso bem-estar, ou que nos veem como humanos. Para eles, a gente é menos que humano. Eles mostrariam mais respeito por um besouro rola-bosta do que por qualquer um de nós.

A questão é que podemos ser sobrenaturais, mas ainda somos humanos também. Se você olhasse para o nosso sangue, ainda veria os sinais claros do genoma humano. A gente só tem algumas células adicionais, também. Tirando irshiusts e raitruums, todos nós viemos de humanos; só temos umas peculiaridades a mais. Mas eles se importam com isso? Não. Por quê? Porque todo mundo engoliu o papo e agora acredita no discurso de venda como se fosse o caralho de um evangelho. É triste e patético na mesma medida.

Felizmente, sou arrancada do buraco em que meus pensamentos estavam descendo quando vejo dois venators arrastarem para dentro exatamente a pessoa por quem eu estava esperando. Eu não me mexo; só observo enquanto eles jogam o homem de 1,96 m na cela ao lado da minha, trancam e vão embora reclamando um com o outro por terem tido que tocar em uma sujeira daquelas. Devagar — com quase nenhuma força nos membros — eu me obrigo a me sentar, enquanto as minhas feridas me fazem morder os lábios para não gritar de dor.

Eu observo quando o homem, com uma pele de ébano quente cobrindo músculos que deixariam os gregos com inveja, a cabeça raspada e um cavanhaque discreto, consegue se levantar e avançar contra as grades da cela.

— ME TIRA DAQUI, PORRA! — ele ruge, agarrando as barras e se arrependendo na mesma hora. Ele recua num pulo quando as mãos começam a chiar com o contato com as barras de prata. Cada cela é projetada para prender um tipo diferente de ser sobrenatural. A minha foi feita para makkares; a dele, para um mutolupus.

— Melhor não fazer isso de novo — eu aviso. — Você devia guardar suas forças.

— Quem é você? — ele pergunta, com um claro sotaque americano, chegando um pouco mais perto, mas com inteligência sem se aproximar demais das grades. A camisa social branca dele está manchada de sangue, mas, para ser sincera, a camisa e a calça social preta parecem estar lutando para continuar no corpo dele. Um movimento errado e podem rasgar. Lobos realmente adoram malhar.

— Você acreditaria em mim se eu dissesse que estou aqui para te tirar daqui?

Ele me examina com cuidado, os olhos castanhos e quentes cheios de preocupação ao notar o meu estado.

— Sem ofensa, mas não acho que você saiba como resgates funcionam.

Eu dou uma risadinha, que rapidamente vira um ataque de tosse, e eu levo a mão ao lado do corpo, fazendo uma careta com a dor. Respiro devagar até me acalmar.

— É justo dizer isso. Meu timing foi incrivelmente ruim. Mas ainda posso te ajudar a sair daqui. Se você estiver interessado.

Ele olha para mim, ponderando com cuidado as opções, que tenho certeza de que a essa altura ele já percebeu que são poucas. Ele provavelmente nem consegue se comunicar com o lobo agora, então aquela outra voz à qual está acostumado a recorrer por orientação também não pode ajudá-lo. Deve ser uma experiência brutal. Ter um companheiro com você desde a concepção e, de repente, ele ser arrancado de você. Só de imaginar já dá para sentir como isso te deixaria sozinho e vazio. Suprimir o lobo de um mutolupus é pura crueldade — mas, de novo, esses desgraçados são a própria definição de crueldade.

— Então qual é o plano? — ele pergunta, agachando até a minha altura.

Com grande esforço, tiro o pingente do pescoço e o passo com cuidado para ele entre as grades, tentando não deixar que encostem na minha pele.

— Pega isso — eu instruo.

Ele pega o pingente com cuidado e o segura na palma.

— Isso é algum tipo de gema mágica?

Eu bufo.

— Nada. Opalas de sopro de dragão são bonitas, mas são só vidro. Dito isso, eu fundi um pouco da minha magia nele antes de vir para cá.

— Então por que você não usou?

— Motivo número um: eu estava esperando por você. Motivo número dois: minha magia é neutralizada nesta cela, mas na sua ela vai ter a chance de acordar. Leva o pingente o mais perto possível da janela para, quando nascer o sol, ele dar um impulso.

— E depois? — ele pergunta, se levantando e indo até a janela, sentando no chão o mais perto que consegue sem encostar nas grades.

— Depois, joga nas barras e assiste tudo explodir — eu digo, cansada.

Ele franze a testa.

— Há quanto tempo você está aqui?

— Um par de dias.

— Você se deixou capturar e torturar só para poder me salvar? Por quê? — ele pergunta, confuso.

Eu dou de ombros.

— Eu tive uma visão de você morrendo aqui. Eu não sei quem você é, mas o fato de eu ter visto aquilo significava que eu devia impedir que acontecesse, e é só isso que eu preciso saber.

Ele fica em silêncio por um instante, virando o pingente nas mãos, pensativo. “Eu não sabia que os makkares tinham o dom da profecia. Achei que só os Zarseti tinham isso.”

“Só alguns makkares têm, mas meus dons não estão no nível dos Deuses. Talvez, se estivessem, eu teria evitado a parte da tortura durante a minha estadia”, sorrio, brincalhona.

“Eu sou o Alfa Jasper Clyborne, da Matilha Aurum Obscuro”, ele se apresenta, caloroso.

Eu pondero se devo ou não dizer meu nome, mas então decido: que se foda. “Isolde Laurier, suposta Alta Sacerdotisa dos makkari”, respondo, observando-o com cuidado. Não leva nem um segundo para as sobrancelhas dele dispararem até a testa.

“Você é…”

“Imagino que já tenha ouvido falar de mim”, digo, seca, recostando a cabeça.

“Ouvi dizer que você foi responsável por ajudar no sequestro da Imperatriz nagata”, ele diz num tom baixo e cauteloso. Meus olhos se arregalam de surpresa. Essa é novidade pra mim. Que diabos aquela vadia me incriminou dessa vez?

“Tem uma nova Imperatriz?”

As sobrancelhas dele se franzem, confusas. “Ela afirma que encontrou você.”

Eu solto uma risada anasalada, amarga. “Tenho certeza de que ela acha que encontrou.”

“Dizem que você é responsável pela morte de centenas, senão milhares de pessoas”, ele diz num tom acusatório. As palavras dele me atravessam como raiva e nojo, enchendo meus membros de força o bastante para eu fechar as mãos em punhos.

“Acredite no que quiser acreditar.”

“Eu gostaria de acreditar na verdade”, ele retruca.

“Ninguém quer a verdade. Querem o que é conveniente.”

“Talvez alguns queiram. Mas eu, com toda a certeza, quero saber por que a mulher que supostamente ajudou a sequestrar uma conhecida minha agora está tentando me tirar de uma prisão de caçadores no México”, ele diz num tom mais suave. Eu entendo por que os Deuses gostariam de proteger esse aqui; dá pra ver que ele tem uma alma boa. “Escuta: quando aqueles desgraçados me injetaram lupina, meu primeiro pensamento foi na minha Luna. Ela está grávida do nosso segundo filhote, e tudo que eu conseguia pensar era que eu nunca veria minha filha nascer. Que minha animai teria que parir sozinha e criar nossos filhos sozinha. Que eu nunca veria meu filho se tornar Alfa. Aí me jogaram aqui e eu te conheci — alguém que está me oferecendo minha única chance de salvação. Me dando uma chance de ver minha família de novo. Então, se existe uma explicação pra essas duas versões de você não baterem, eu quero ouvir”, ele diz, sincero.

Eu o encaro com cuidado e suspiro, resignada. “Não existem duas versões. Existe eu… e a vadia que vive por aí fingindo ser eu.”

“O que você quer dizer?” ele pergunta, profundamente interessado.

“É um feitiço de glamour. Ela faz isso há séculos. Rouba minha identidade, causa uma porrada de merda e me arma pra eu levar a culpa. Um plano bem genial. Significa que, quando testemunhas oculares contam à Delegação que me viram matando alguém—”

“Tudo que eles sentiriam seria a verdade, porque foi exatamente isso que eles viram”, ele completa minha frase, enquanto a compreensão se acende no rosto. “Por que você nunca se apresentou? Se você falasse com a Delegação, eles saberiam que você está dizendo a verdade”, ele diz, encorajador.

“Os makkares têm uma ordem de me matar à vista. É esse o tamanho do ódio que eles têm de mim — não que eu os culpe. Não há garantia nenhuma de que a Delegação sequer acreditaria em mim. Sim, eles sentiriam a verdade, mas não é impossível mentir e isso ser detectado como verdade. Qualquer coisa pode virar verdade se você acreditar o bastante”, aponto.

“Mas você está dizendo a verdade.”

“Como você sabe? Pelo que você sabe, eu inventei isso tudo agora”, digo, arqueando uma sobrancelha.

“Eu não sou ingênuo. Sou bom em ler as pessoas, e vadias psicopatas que saem por aí assassinando gente não se deixam ser torturadas até quase morrer pra salvar um estranho. Gente boa faz isso”, ele diz, com compaixão.

Sinto lágrimas pinicarem nos meus olhos com as palavras dele. Faz muito tempo que alguém acredita que eu sou inocente, mas isso não muda nada. Tem gente demais querendo me ver morta, e tenho certeza de que as evidências contra mim são enormes. Minhas palavras não seriam suficientes e, com tantos exigindo a minha cabeça, não sei se eu chegaria viva a Kartheca para contar minha verdade.

“Obrigada pelas suas palavras gentis. Você não tem ideia do quanto eu precisava ouvir isso, mas é melhor você ficar fora dessa. As pessoas têm uma tendência a morrer por minha causa. Não vá arriscar nunca mais ver sua família por causa de uma estranha”, peço.

“Mas—”

“Você não está aqui pra resolver meus problemas. Eu estou aqui pra te devolver à sua família, então vamos focar nisso, tá?” digo, encarando bem os olhos dele. Ele suspira e concorda com a cabeça. Eu relaxo, recosto a cabeça e fecho os olhos, tentando poupar a pouca força que me resta, porque, em poucas horas, vou precisar de cada gota que eu conseguir reunir.

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