Capítulo 1 Capítulo Um - Gabriella

[Nota da autora: A Saga dos Deuses é uma série de livros fortemente interligada. Todos os livros anteriores a este levaram aos acontecimentos deste livro, então, se você não leu os livros anteriores da Saga, as revelações e reviravoltas não vão significar absolutamente nada para você. Por isso, recomendo fortemente ler os livros na ordem. A lista de livros está abaixo da sinopse.]

Eu nem sempre tenho enxaqueca, mas, quando tenho, fico tentada a enfiar uma colher na têmpora e arrancar um pedaço do meu cérebro, na esperança de que a tortura finalmente acabe.

Desde que me entendo por gente, sofro de enxaquecas debilitantes. O engraçado é que, ao contrário da maioria das pessoas, a exposição à luz nunca as piorou; na verdade, a luz parece acalmá-las. Já fui a todo médico e especialista possível, fiz todo exame conhecido pela humanidade, e tudo o que recebo são profissionais com, somados, centenas de anos de experiência me dizendo que não há absolutamente nada de errado comigo. Às vezes, eu tenho vontade de afundar os dedos no crânio deles e sacudir seus cérebros como um globo de neve, e, quando eles olhassem para mim para dizer que estão com dor, eu poderia olhar de volta e dizer que não há absolutamente nada de errado com eles. Sádico, eu sei, mas ei, a dor deixa as pessoas malucas.

Aqui vai mais informação sobre mim que você não pediu, mas vai receber mesmo assim. Minhas enxaquecas sempre aparecem no dia seguinte a um dos meus sonhos vívidos. Isso vai soar louco, mas meus sonhos sempre acabam se realizando. Às vezes é algo pequeno, como sonhar com uma mulher derrubando um café no Starbucks perto da minha casa, mas o pior de todos foi quando sonhei com meus pais morrendo em um acidente de carro. Na noite em que tive esse sonho, pulei da cama, corri para o quarto deles e implorei que não dirigissem o carro tão cedo. Eles disseram que era só um pesadelo e mandaram que eu voltasse para a cama. Mas meus sonhos nunca são apenas sonhos. No dia seguinte, um motorista bêbado bateu na lateral do carro dos meus pais, e eles morreram na hora. Eu tinha dezesseis anos. Agora tenho vinte e seis, mas me lembro daquele dia como se fosse ontem, e desde então nunca mais duvido dos meus sonhos.

A enxaqueca de hoje foi provocada por um sonho que tive ontem à noite, em que meu namorado de dois anos estava transando com a minha vizinha. Aguentei a enxaqueca no trabalho pelo máximo de tempo que consegui, mas depois a usei como desculpa para ir para casa. Não estou nem aí para a enxaqueca; depois de vinte e seis anos de dor, eu sou resistente pra caralho. Não, estou indo para casa para pegar o desgraçado no flagra.

Paro diante da minha porta, me preparando. Eu sei o que vou encontrar e, ainda assim, uma parte de mim espera que, desta vez, tenha sido só um sonho. Não porque eu vá ficar arrasada e de coração partido por aquele idiota estar me traindo — não, por mim ele podia ter o pau serrado ao meio com uma serra enferrujada. Eu só, pelo menos uma vez, não quero sentir que meus sonhos vão me render uma passagem só de ida para o hospício.

Enfio a chave na fechadura e entro no meu loft e, assim que passo pela porta, ouço os gemidos ofegantes de uma mulher que definitivamente não sou eu e os grunhidos de prazer do meu futuro ex-namorado.

“Isso, bebê. Porra, cavalga o pau do papai assim mesmo”, ouço meu namorado gemer, o que me dá vontade de engasgar. Desde quando ele tem tara por “papai”?

Entro no loft em silêncio e fecho a porta devagar, tomando cuidado para não fazer barulho. Vou até a cozinha pequena à direita da entrada e pouso minhas chaves e a bolsa com delicadeza no balcão. Em seguida, prendo meu cabelo loiro comprido num rabo de cavalo enquanto, sem fazer barulho, pego o balde que guardo embaixo da pia. Coloco o balde dentro da pia, abro a torneira devagar e deixo o balde encher de água. Eu ia encher com água fervendo, mas não quero acabar queimando ninguém e receber um processo com conta de hospital pelo correio, então vai de água fria mesmo.

Enquanto o balde vai se enchendo aos poucos e eu sou obrigada a ouvir meu namorado trepando com outra mulher na minha cama, de repente me lembro daquela tendência viral de uns doze anos atrás. O Desafio do Balde de Gelo. Com um sorriso maldoso no rosto, vou até o freezer, puxo as formas de gelo e faço o possível para despejar todo o gelo no balde sem fazer barulho. Quando o balde está cheio, deixo o gelo ali por um minutinho, para baixar bem a temperatura da água até um nível apropriadamente congelante.

Depois de esperar, impaciente, ergo o balde com cuidado, caminho até a escada que fica sobre o hall de entrada e subo carregando o balde em silêncio. Chego ao patamar de cima, que na verdade é o meu quarto, com um banheiro anexo. Eu amo meu loft. Ele é espaçoso, com uma janela enorme do chão ao teto e um jardim vertical na parede de tijolos à esquerda da janela. Embaixo tem piso laminado; em cima, carpete cinza e uma janelinha lá no canto. Peço desculpas ao meu pobre carpete indefeso pelo que estou prestes a fazer, mas precisa ser feito.

Dou um passo para dentro do quarto e tenho a visão nauseante da minha porra de vizinha montada no meu namorado, na minha cama. Ela está com tudo, e eu até me surpreendo por ela ainda não ter travado as costas. Mitchell está só largado, com os braços sob a cabeça, como se fosse o rei do caralho do mundo, e eu quero muito socar a cara convencida dele, mas vou me contentar em fazer o pau dele murchar.

Sem que eles percebam minha presença, me aproximo e despejo a água gelada com gelo em cima dos dois, sorrindo, satisfeita, quando minha vizinha grita e sai de cima do Mitchell com a agilidade de uma gazela, enquanto ele se arrasta para trás, contra a cabeceira, gritando de susto. Minha vizinha — também conhecida como Julie — tenta se cobrir com os braços ao lado da cama, tremendo de frio, com os olhos arregalados e uma expressão confusa. Para garantir, viro o resto da água na virilha do Mitchell e, sinceramente, nunca vi um pau amolecer tão rápido.

— Desculpa, vocês pareciam que precisavam se refrescar — digo, toda animadinha.

“O que foi essa porra?! Qual é o seu problema?!” Mitchell guincha, pegando um travesseiro seco e apertando contra o pau enrugado enquanto Julie ajunta as roupas do chão.

“Eu? Absolutamente nada. Bom, talvez a minha saúde. Já que você claramente não embrulha o pau quando transa com outras mulheres, acho que agora vou ter que ir fazer exames pra garantir que essa sua vara imunda, cheia de doença, não me infectou”, digo em tom de deboche, gesticulando para o pau dele.

“Você vai deixar ela falar com você desse jeito? Joga essa vadia pra fora”, Julie dispara, indignada.

“Desculpa, tem algum motivo pros seus lábios estarem batendo? Abrir um par deles não devia ter sido o suficiente por um dia?”, digo, cortante.

Os olhos castanhos dela me encaram por entre mechas do cabelo vermelho encharcado, mas eu não acho a cara de rato afogado muito intimidadora. Engraçada, mas não intimidadora.

“O Mitch quer você fora há meses, ele só não queria ferir seus sentimentos, mas já que a merda veio à tona, acho que tá na hora de você cair fora do apartamento dele e da vida dele”, ela diz, altiva, enquanto tenta vestir as roupas com muito esforço, porque o tecido não para de grudar na água do corpo dela.

Olho de um para o outro e vejo Mitchell com uma cara de quem queria que a cama abrisse um portal pro inferno, tipo em A Hora do Pesadelo, e engolisse ele inteiro. Olho dela pra ele e de volta e então me agarro ao corrimão de metal quando explodo em gargalhadas. Que vadia triste e burra.

“O que é tão engraçado, porra?” ela rosna.

“Amor, deixa comigo, mas eu acho melhor você ir”, diz Mitchell, se arrastando até a beira da cama, ainda tentando cobrir as partes.

“Eu?! Ela é que tem que ir embora! Você me disse que ia largar ela e expulsar ela, então faz!” Ela berra como uma banshee.

As lágrimas se acumulam nos meus olhos enquanto eu caio de joelhos de tanto rir. “Para. Eu não aguento”, digo entre crises de riso. Por fim, consigo ficar de pé de novo e enxugo as lágrimas. “É tão patético que chega a ser engraçado. Você realmente acha que ele é dono daqui?” pergunto, espantada, antes de olhar para Mitchell, que não consegue me encarar. “Então a única forma de fazer mulheres transarem com você é fingir que tem um imóvel?” solto um riso pelo nariz e volto a encarar Julie. “Eu sou dona deste loft há cinco anos e só conheço o Mitchell há dois. Faz as contas. Ele não está em nenhum documento oficial; ele nem paga aluguel, porque está desempregado há um ano, vivendo às minhas custas. Então, querida, por mim, fica com ele. Vocês dois podem ir morar juntos e sumir da porra do meu apartamento, que isso não vai me fazer a menor falta”, digo, satisfeita.

Julie fica com a cara de quem acabou de ver alguém cagar no carro dela e, se eu não fosse uma mulher tão fina, talvez eu até considerasse fazer isso — mas, sinceramente, ela está me fazendo um favor. Ela olha para Mitchell, que também não consegue encarar ela.

“Ela tá falando merda, né?” ela pergunta.

“É complicado”, Mitchell diz, patético.

Julie solta um guincho irritante e começa a estapear ele, antes de descer as escadas feito um furacão e sair pela porta, batendo-a com força atrás de si.

— Bom, isso foi divertido — digo, com a maior naturalidade.

Mitchell sai da cama, ainda agarrado àquele travesseiro como se a vida dependesse disso — vou precisar de um novo agora —, e vem até mim com olhos suplicantes. — Olha, dá pra gente só conversar sobre isso? Eu tive um momento de fraqueza, mas ela não significou nada pra mim, eu juro — ele diz, desesperado.

— Eu tenho a palavra “idiota” tatuada na testa? — pergunto, num tom de “ah, para”.

A expressão dele muda de repente para raiva, e eu fico curiosa pra ver até onde isso vai. — Tá, beleza, então não foi uma vez só, mas dá pra me culpar, porra? Você não me dá nada, é como se você simplesmente não se importasse mais comigo, e o quarto tava ficando chato, você não faz nada divertido. Eu precisava de uma mulher de verdade que pudesse satisfazer minhas necessidades e me tratar e me respeitar como um homem de verdade. Você nem se importou! — ele berra.

— Você tem razão, eu não me importo mesmo, porra. Eu parei de me importar quando você passou a sentar a bunda no sofá todo dia, deixando eu ir trabalhar pra sustentar nós dois. Você joga seus videozinhos — que eu comprei pra você, aliás — e transa com a minha vizinha enquanto eu pago as contas, faço a comida e limpo a casa. Que porra você está contribuindo? E sexo? Eu consigo contar numa mão as vezes que você me fez gozar nesses dois anos que a gente tá junto, então por que diabos eu ia me dar cem por cento na cama com alguém que não me dá porra nenhuma? Você é um preguiçoso, um desperdício de espaço do caralho que quer ser tratado como o fodão quando só entrega energia de criança birrenta. Eu não preciso perder meu tempo nem meu dinheiro com um moleque crescido que não consegue nem limpar a própria sujeira. Eu tô tão feliz de finalmente poder me livrar da sua bunda lisa e falida — digo, eufórica, enquanto pego ele pela orelha e apanho a camiseta e a calça do chão, arrastando-o escada abaixo.

— Ai! Larga a minha porra da orelha, Gabbie! — ele grita.

— E pela milionésima vez, não me chama de Gabbie, porra! — berro, abrindo a porta e empurrando ele pra fora, jogando a calça e a camiseta na cara dele. — Toma. Não preciso da polícia aparecendo aqui porque você foi preso por atentado ao pudor. Quanto à sua carteira e ao seu celular, vou deixar numa caixa perto da porta pra você pegar — digo, satisfeita.

— E o resto das minhas porras?! — ele berra.

— Bem, pelo que eu vejo, eu comprei tudo o que você tem, então tecnicamente isso faz tudo ser meu, então... tchau! — canto, antes de bater a porta e trancar.

Mitchell começa a socar a porta e a gritar obscenidades pra mim, mas eu simplesmente não tô nem aí. Eu me escoro na porta e recupero o fôlego enquanto a adrenalina corre pelo meu corpo e, finalmente, quando a ficha cai de que eu consegui tirar esse parasita da minha vida e do meu loft, eu começo a dançar. Eu danço e pulo, guinchando de alegria, enquanto dois anos de estresse saem de mim. Ding dong, a vadia tá morta pra caralho!

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