Capítulo 2 Capítulo Dois - Gabriella

Depois de um tempo, Mitchell desistiu de esmurrar a minha porta, provavelmente percebendo que eu não ia dar mais um minuto do meu tempo pro traseiro traidor dele. Em vez de perder tempo com ele, agora estou na segunda taça de vinho — tinto, é claro — e ouvindo a muito apropriada Women Don’t Owe You Shit, da cantora Aston.

“Você tá no fundo, eu tô por cima feito matriarca. Você fica todo atiçado quando eu tô pouco me fodendo. Sem explicação, não, eu não tenho que falar. Eu não gosto tanto assim de você, então tô te cortando da minha vida!” canto a plenos pulmões, fazendo uma pausa pra dar um gole na minha bebida.

Continuo cantando junto com o que estou chamando de A Playlist Suprema de Término enquanto enfio todos os meus lençóis num saco de lixo, pronto pra levar pra fora com o lixo desta semana. Felizmente, tenho outros lençóis, então vou ficar bem. Caminho até minha escrivaninha pequena e pego uma tesoura bem na hora em que meu celular toca.

Estico a mão, pego o aparelho e atendo. “Residência da Gostosa Má, falando a Rainha das Vadias”, digo enquanto vou até o pequeno cabideiro de roupas que eu chamo de guarda-roupa.

“Isso não parece a voz de alguém que saiu mais cedo do trabalho por causa de uma enxaqueca”, ri meu melhor amigo, Derrick.

“Não se preocupa, meu crânio ainda é o local de uma escavação arqueológica, mas não vou deixar isso acabar com o meu humor.”

Ele ri mais um pouco. “Você tem fofoca, eu sei. O que te deixou num humor tão encantador assim?”, pergunta, ansioso.

“Eu expulsei o Mitchell. Ele finalmente está fora da minha casa e fora da minha vida”, anuncio com orgulho, abaixando rapidamente o volume da música.

“O QUÊ?! Você finalmente chutou pra fora aquele perdedor com cara de saco escrotal de velho e não me ligou pra contar? Vadia! Que porra é essa?”, ele grita.

Dou uma risadinha. “Foi mal, eu estava toda empolgada limpando toda a tralha dele daqui. Eu ia acabar te ligando com a boa notícia.”

“Você tá bem? Tipo, o que aconteceu? Amiga, eu preciso desse babado porque dá pra perceber que ele tá fervendo”, ele diz, empolgado.

“Bom, eu cheguei em casa e encontrei ele e a minha vizinha transando na minha cama, então joguei água com gelo nos dois e mandei os dois embora. Eu não estou tão destruída quanto você imaginaria, mas não posso dizer o mesmo das roupas dele”, digo com malícia enquanto corto a camisa favorita do Mitchell. Foda-se ele. Fui eu que comprei, posso fazer o que eu quiser com ela.

Ouço silêncio do outro lado da linha e, por precaução, afasto o celular do ouvido bem a tempo de Derrick começar a berrar pelo telefone. Eu conheço esse homem ou conheço esse homem?

“VOCÊ VIROU O ICEBERG DO TITANIC NO SEU NAMORADO TRAIDOR E NÃO PENSOU EM ME LIGAR?!” ele grita.

O que vem a seguir é uma gritaria incoerente, então largo o telefone enquanto, sem pressa, corto mais algumas roupas do Mitchell e jogo tudo em sacos de lixo. Estou prestes a cortar a terceira camisa dele quando a névoa vingativa se dissipa da minha cabeça e eu percebo que porra eu estou fazendo. Tudo bem, destruir as coisas dele alimenta a minha necessidade de vingança, mas não faz bem nenhum pra mim nem pra mais ninguém. São todas peças de roupa boas. Eu sei porque fui eu que paguei e lavei. Ele não merece nem um pouco, mas eu consigo pensar em pessoas em situação de rua e abrigos por todo lado que com certeza merecem. Ponho a tesoura de volta na escrivaninha e separo as peças que eu já cortei — posso usar como panos de limpeza — e coloco todo o resto em sacos. Vou lavar tudo e depois doar pra quem precisa mais; assim, o dinheiro que eu gastei não vai ser desperdiçado e essas roupas boas vão beneficiar pessoas que realmente precisam.

“Alô? ALÔ?! GABRIELLA JONES!”, o Derrick grita.

Corro até lá e pego o telefone. “Tô aqui, tô aqui! Não fica com a calcinha toda embolada. Olha, você tá mais do que convidado pra vir aqui em casa comer uns petiscos e beber comigo, e aí eu te conto tudo, tá?” ofereço, tentando manter a calma.

“Muito bem. Vou avisar o Wyatt que vou pra sua casa. Devo chegar aí em quinze minutos.”

“Ótimo! Vou deixar uma taça de vinho te esperando”, digo, animada, e desligo.

Olho em volta pra bagunça que eu fiz, arrumo tudo rapidinho e troco os lençóis da cama. Já é ruim o bastante o mundo estar cheio de gente que precisa ir a lugares tipo a Good Will pra conseguir roupa de cama, mas eu não vou deixar eles receberem lençóis encardidos, ainda fedendo às puladas de cerca do meu agora ex. Eles merecem coisa melhor do que isso, então vou lavar direitinho antes de doar, junto com as roupas.


“Aquele primatinha vil. Não acredito que ele passa um ano inteiro te parasitando e, enquanto isso, tá com o pau sem capuz enfiando na tua vizinha, falando mal de você e mentindo dizendo que o lugar é dele”, diz Derrick, incrédulo, enquanto eu reabasteço as nossas taças.

Eu me aconchego no canto do meu sofá seccional em L cinza e tomo um gole do vinho. “Eu nem tô com raiva da traição ou das mentiras. O que me irrita é que eu queria terminar com ele fazia um ano e fui adiando.”

Derrick quase engasga com o vinho, ansioso pra responder. Ele engole e põe a taça na mesa de centro. “Exatamente! Você tá reclamando desse cara faz um ano, e eu não parava de dizer pra você largar logo e acabar com isso. Estamos em 2026, você não precisa de homem nenhum pra se sentir realizada.”

Eu enrugo o nariz com a insinuação. “Eu nunca precisei de homem e não vou começar agora; eu só fiquei com pena dele. Ele estava desempregado e sem dinheiro. Eu não queria ser a mulher que largou o namorado no pior momento. Eu ia esperar ele arrumar um emprego e aí expulsar de casa. Eu não percebi que ele não tinha a menor intenção de trabalhar e estava mais do que feliz em continuar encostado em mim enquanto comia a minha vizinha — com quem eu tô presa no mesmo prédio”, digo, com desprezo, antes de tomar mais um gole.

“A gente devia colocar pó de coceira na caixa de correio dela ou sei lá”, ele diz, malicioso.

“Tenho quase certeza de que isso é crime federal.”

Ele faz beicinho. “Tinha que existir uma lei contra traidores. Como um idiota chato, feio e com prepúcio como ele consegue arrumar uma mulher, afinal?”, diz, confuso.

Eu só fico olhando para ele. Será que ele já esqueceu que eu namorei com ele por dois anos? Ele percebe meu olhar e rapidamente faz um gesto displicente com a mão.

“Você não conta, você é a pessoa mais doce da Terra, não liga para essas coisas superficiais. Embora eu ainda não saiba o que você viu naquele cara.”

Dou de ombros. “Não sei. E o que é essa sua implicância com paus não circuncidados?”

“Você tá falando sério? Amiga, eles parecem um Shar Pei.” Ele estremece, enojado.

Jogo a cabeça para trás e dou risada. “Isso é tão idiota! Então você está dizendo que teria largado o Wyatt se descobrisse que ele não era circuncidado?”, pergunto, divertida.

Ele pondera minha pergunta com seriedade e então puxa o ar, pensativo, cruzando as pernas. “Isso me daria muito em que pensar.”

“Você é dramático demais às vezes, eu não aguento”, dou uma risadinha contra a borda da taça, tomando mais um gole.

Quando meus pais morreram, eu não tinha nenhum parente vivo, e acabaria indo para um lar adotivo até completar dezoito anos. Foram Derrick e a família dele que me acolheram, me trataram como parte da família e me ajudaram a atravessar o pior momento da minha vida. Derrick e os pais dele estiveram ao meu lado quando eu precisei, o que não é surpresa nenhuma, porque Derrick e eu somos amigos desde os doze anos.

Derrick Allan tem 26 anos, assim como eu. Ele tem seus dignos 1,73 m, pele bronzeada na qual vem trabalhando há muitos anos. É bem magro, de ombros largos e pescoço comprido, que leva ao seu grande trunfo. Derrick tem o rosto mais esculpido que eu já vi e parece ter sido perfeitamente moldado em argila, como a tela ideal. Tem uma mandíbula marcada, um cavanhaque com uma leve sombra de barba, maçãs do rosto tão altas que tocam os céus e olhos azul-safira penetrantes. Seu cabelo castanho-chocolate quente é penteado para cima no topo e raspado nas laterais. Derrick também é gerente e principal entertainer do bar gay onde nós dois trabalhamos, chamado Glitter Hole, aqui em San Francisco, e como ele acabou de sair do trabalho, isso explica por que está usando um paletó de arco-íris, calças sociais de arco-íris, camisa social branca e gravata bordô. Ele gosta de causar impacto.

Derrick e eu conseguimos emprego no Glitter Hole assim que saímos do ensino médio, mesmo sem termos 21 anos. Nós dois fazíamos trabalhos variados, e Derrick rapidamente se apaixonou pela arte do drag. Ele também foi subindo até virar gerente, enquanto eu sou bartender e também faço uma apresentação ao vivo de vez em quando no clube. O ambiente é ótimo, os clientes são incríveis e as gorjetas são sensacionais.

“A gente devia sair para comemorar”, anuncia Derrick.

“Eu ainda tenho juízo. A gente não pode simplesmente curtir um vinho e falar mal do meu ex?”

“Claro, mas você ficou presa a esse pedaço de madeira por um ano e nem sentia mais nada por ele. Você merece sua liberdade, e você sabe o que dizem: não há jeito melhor de superar alguém do que ficar por baixo de outra pessoa”, diz ele, carismático.

— Eu já superei ele, então não preciso ficar por baixo de ninguém — eu argumento.

— Tá, mas faz quanto tempo que alguém não soca a sua boceta como se estivesse amaciando carne? Quero dizer, quando foi a última vez que um homem foi caçar tesouro na sua Caverna das Maravilhas? — ele pergunta, todo animado, me fazendo levar a mão à boca para não cuspir o vinho.

Eu apoio a taça e engulo rápido para não me engasgar e, por fim, me permito rir.

— Para de tentar me matar de tanto rir.

Ele ofega e aperta o peito, levando os dedos aos lábios e fazendo uma cara triste.

— Meu Deus, faz tanto tempo que seu reflexo de vômito voltou — ele diz, numa histeria dramática.

Reviro os olhos.

— Vai se foder — digo, empurrando-o. — Olha, só porque as coisas andam em falta nesse departamento há um tempo, não quer dizer que eu precise sair por aí abrindo as pernas pro próximo cara que me der atenção.

— Por que não? O Mitchell foi catar no lixo a primeira mulher que abriu as pernas pra ele.

Eu bufo de tanto rir.

— Isso é hilário.

— Mas falando sério: amanhã à noite é a Noite do Pecador Misterioso no clube. Em vez de trabalhar, vem como convidada. Vai ser uma noite ótima de máscaras e pecado. Eu e o Wyatt vamos — ele diz, mexendo as sobrancelhas de um jeito sugestivo.

— Pra quê? Vocês são monogâmicos.

— Somos, mas a gente curte a adrenalina da sedução em público, e eu sei que você também. Aquele imbecil estava apagando a sua diversão e a sua luz, minha jovem diva. Mostra pra ele que não te quebrou. Sai, se diverte. Você não precisa fazer nada que não queira, mas vai, solta o cabelo e aproveita um pouco. Você merece. Você passou tanto tempo cuidando dele e de todo mundo à sua volta, até de mim. Você merece um pouco de indulgência — ele diz, estendendo a mão e apertando meu joelho.

Eu encaro o rosto gentil e solidário do meu amigo, que esteve ao meu lado em tudo, como eu estive no dele. Ele tem razão. Eu parei de me divertir porque estava me matando de trabalhar para sustentar a mim e ao Mitchell. Sinto falta da Gabriella divertida. Não quero que os momentos em que eu me apresento no clube sejam os únicos em que eu me sinto viva. Quero me divertir de novo — e não estou dizendo que vou sair caçando, mas, meu Deus, como eu senti falta de sexo bom.

— Tá bom, você me venceu. Eu vou na Noite dos Pecadores Misteriosos — anuncio, rendida.

— ISSO! Essa é a minha garota! — ele comemora, batendo na minha mão.

— Agora eu só preciso descobrir o que vestir.

Ele arregala os olhos.

— É como se você tivesse esquecido quem é o seu melhor amigo.

Derrick se levanta, pega a taça de vinho e sobe as escadas rebolando.

— Hora de tirar do armário a coisa mais puta que você tiver.

Eu rio, balançando a cabeça, mas sorrio enquanto vejo Derrick no patamar, revirando minhas roupas como se estivesse julgando um desfile. Não sei o que eu faria sem ele. E ele tem razão: eu preciso de uma noite de libertinagem sem vergonha e com o cérebro desligado, e a Noite do Pecador Misterioso é exatamente o que o médico receitou.

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