Capítulo 1 1- Anjo da morte..
Capítulo 1 — O Anjo da Morte
Mattheo Messina Denaro
Eu não acredito em inferno.
Acredito em escolha.
O inferno é uma desculpa confortável para homens que não querem assumir o que fizeram com as próprias mãos. Colocam tudo nas costas de um diabo imaginário e seguem dormindo à noite. Eu nunca dormi por causa disso. Durmo porque sei exatamente quem sou.
Meu nome é Mattheo Messina Denaro.
No submundo, sou chamado de Anjo da Morte.
Não porque eu mate por prazer.
Mas porque quando eu chego, alguém deixa de existir.
Hoje sou o subchefe da máfia italiana. Amanhã, talvez Don. Isso não me excita. O poder nunca me excitou. O poder apenas organiza o caos. E eu gosto de ordem. A ordem impede erros. Erros custam vidas. As erradas, normalmente.
As pessoas gostam de criar mitos sobre mim. Dizem que eu nasci cruel. Que sempre fui frio. Que não sinto nada. É mais fácil pensar assim. A verdade exige mais coragem.
Eu não nasci assim.
Eu fui treinado.
Nasci em uma casa que nunca foi minha. Mesmo tendo meu sangue nas paredes, meu sobrenome na porta e minha mãe fingindo que me gerou. Eu era o erro visível. O defeito que não dava para esconder.
Um olho preto.
Outro azul escuro.
Para alguns, heterocromia. Para minha família, vergonha.
Para mim, sobrevivência.
Minha mãe nunca me chamou pelo nome. Meu pai só me chamava quando precisava de algo. Minhas irmãs me chamavam de cachorro. Não como brincadeira. Como função.
Eu dormia do lado de fora da casa, nos fundos, em um quarto improvisado que cheirava a mofo e urina velha. Tinha uma cama dura, um banheiro malfeito e uma porta que não fechava direito. Ali eu não incomodava. Ali eu não era visto. Era o lugar certo para quem não devia existir.
Eu limpava tudo.
Servia todos.
Apanhava calado.
Aprendi cedo que dor não mata. Esperança, sim.
Meu pai batia com método. Nunca no rosto. Nunca em lugares visíveis. Ele era violento, mas não burro. Minhas irmãs riam. Minha mãe desviava o olhar. Nenhum deles era inocente. Nunca confunda silêncio com bondade.
Quando eu tinha dez anos, Enrico Clerecuzio veio nos visitar.
Era madrugada. Eu estava acordado, como sempre. O frio da noite me mantinha alerta. Ouvi os passos antes de vê-lo. Passos firmes. Sem pressa. Quem vem com pressa tem medo. Enrico não tinha medo de nada.
Ele me encontrou nos fundos, encostado na parede, tentando me aquecer com os braços.
— Você mora aqui? — perguntou.
Eu ri. Um riso curto, seco.
— Eu durmo aqui.
Ele me analisou de cima a baixo. Viu as roupas rasgadas. O corpo magro. As marcas antigas na pele. E meus olhos. Sempre os olhos.
— Quem é você? — perguntou de novo.
— Sou o cachorro da casa.
Não foi vitimização. Foi informação.
Enrico ficou em silêncio por alguns segundos. Depois disse algo que mudou tudo:
— Tenho ordens para matar todos lá dentro.
Eu já sabia. A máfia sempre sabe antes.
— Você não veio para amizades — respondi.
Ele sorriu de canto. Um sorriso perigoso.
— Você tem duas opções — disse. — Ou morre com eles… ou participa.
Eu não precisei pensar. Crianças que pensam morrem cedo.
— Como o senhor faria?
Ele me explicou. Com detalhes. Sem suavizar nada. Disse o que faria com minhas irmãs. O que faria meu pai assistir. Disse que a dor era parte da lição. Disse que traição se paga com espetáculo.
Quando terminou, me olhou esperando medo.
Recebeu curiosidade.
— Sem plateia não é divertido — eu disse.
Ele não respondeu. Apenas esperou.
Peguei dois galões de gasolina. Derramei pelo andar de cima primeiro. Quartos. Corredores. Escadas. Depois o térreo. Sala. Cozinha. Tudo precisava queimar igual. Justiça exige simetria.
Fiz barulho. Muito. Bati portas. Arrastei coisas. Acordei todos. Eles desceram apavorados. Quando viram Enrico, entenderam. O terror é sempre rápido quando a verdade chega.
Meu pai tentou falar. Implorar. Mentir.
Enrico levantou a mão. Silêncio absoluto.
— Diga olá para Lúcifer — ele disse.
Saiu.
Eu risquei o isqueiro.
Não olhei para trás quando a casa começou a gritar.
Do lado de fora, Enrico me esperava.
— Venha comigo, garoto.
E eu fui.
Desde então, nunca mais fui chamado de cachorro.
Enrico me criou como se cria uma lâmina. Afiando. Testando. Cortando o que sobrava. Ele nunca tentou me ensinar moral. Apenas consequência. Moral muda. Consequência permanece.
Aprendi a ler pessoas antes que falassem. A perceber mentira no jeito que respiram. A distinguir medo de culpa. Amor de apego. Lealdade de conveniência.
Aos quinze, eu já matava sem tremer.
Aos vinte, eu comandava homens mais velhos que eu.
Aos vinte e nove, ninguém ousa me desobedecer.
Não porque eu grite.
Mas porque eu cumpro.
Hoje moro em uma casa grande demais para um homem só. As paredes são limpas. O chão é impecável. Tudo tem lugar. Pessoas desorganizadas cometem erros. Eu não.
Respeito apenas um homem: Salvatore Clerecuzio, o Don. Não por carinho. Por lógica. Ele mantém a estrutura. Eu executo.
Mulheres?
Nunca precisei delas para nada além do óbvio.
Não confio. Não romantizo. Não salvo.
Quando Salvatore me disse que havia escolhido uma esposa para mim, não senti raiva. Nem curiosidade. Apenas perguntei se ela era virgem. Não por moral. Por controle.
Mulheres com passado trazem fantasmas. Fantasmas fazem barulho.
— Ariana Santinno — ele disse. — Jovem. Bonita. Filha do conselho.
Eu aceitei. Casamento é estratégia. Nada além disso.
O que eu não sabia…
Era que o destino, às vezes, gosta de rir de homens que se acham preparados.
E quando ele ri, não pede permissão.
