Capítulo 4 Ariana

CAPÍTULO — ARIANA SANTINNO

Eu soube que estava condenada antes mesmo de ouvir o nome dele.

Na máfia, a sentença nunca vem gritada. Ela vem educada, servida à mesa, com vinho caro e silêncio demais. Vem na forma de um convite irrecusável, de um sorriso contido, de um pai que evita encarar a própria filha nos olhos.

Uma semana depois do anúncio oficial do meu noivado, veio o jantar.

Não era uma celebração. Era um fechamento.

O tipo de encontro em que nada é brindado porque tudo já foi decidido antes. Onde cada palavra pesa como assinatura de contrato, e cada olhar confirma que não existe recuo.

Eu sabia disso enquanto me preparava.

O vestido preto foi escolhido com cuidado. Não por vaidade. Por estratégia. Justo o suficiente para marcar território, elegante o bastante para não parecer vulgar. O decote calculado, não escancarado. Joias discretas, mas inegavelmente caras. Cabelos soltos, não por descuido, mas porque presos pareceriam submissão.

Eu precisava parecer exatamente o que sempre me ensinaram a ser: uma Santinno à altura da mesa onde sentaria.

Minha mãe observava em silêncio enquanto eu me arrumava. Florença Santinno não era uma mulher burra. Nunca foi. Ela apenas escolheu sobreviver da forma mais segura possível: fingindo que não via, não ouvia, não sabia.

Meu pai entrou no quarto pouco antes de sairmos.

Juan Santinno tinha o rosto sério demais para um homem que acabara de garantir o futuro da família. Não havia orgulho ali. Havia alívio.

— Ariana — ele disse, ajeitando a gravata — hoje você precisa se comportar.

Como se houvesse outra opção.

— Sempre me comportei — respondi.

Ele assentiu, mas não parecia convencido.

O carro nos levou até a propriedade escolhida para o jantar. Um lugar antigo, afastado, silencioso demais. Segurança demais. Luxo demais para parecer humano.

O Don já estava lá.

Salvatore Clerecuzio ocupava o centro da mesa como se o mundo tivesse sido desenhado ao redor dele. Jovem para o cargo que ocupava, perigoso demais para alguém da sua idade. Ele me cumprimentou com um gesto contido, o mesmo que se faz a um objeto valioso.

E então eu o vi.

Mattheo Messina Denaro.

O subchefe.

O Anjo da Morte.

Nada nele era exagerado. Nada chamava atenção de forma óbvia. E talvez isso fosse o pior. A única coisa que chamava atenção era sua beleza, era lindo com uma áurea sombria, olhar vazio e frios.

Homens como ele não precisam se impor. Eles apenas existem, e o ambiente se adapta.

Quando seus olhos tocaram em mim, não houve desejo. Não houve curiosidade. Houve avaliação.

E repulsa.

Eu reconheci aquilo imediatamente, porque já vi muitas vezes em outros homens. Não a repulsa pelo meu corpo, mas pela intenção que eles projetavam nele.

Ele me olhou como se eu fosse uma encenação mal feita.

Sentamos.

O jantar começou.

Conversas protocolares. Meu pai falando demais. Minha mãe sorrindo pouco. O Don conduzindo o ritmo como quem rege um funeral elegante.

Mattheo quase não falava.

Observava.

Quando falava, era curto. Preciso. Mortal.

Eu mantive a postura. Respondi quando perguntada. Não forcei proximidade. Não ri além do necessário. Não baixei os olhos.

Por dentro, eu contava os segundos.

Eu sabia que o momento viria.

E veio.

Depois do jantar, o Don se levantou. Disse algo sobre assuntos a tratar com meu pai. Minha mãe foi chamada para acompanhá-los.

Ficamos sozinhos.

O silêncio mudou de textura.

Ele se levantou devagar. Não havia pressa. Nunca há pressa em quem tem poder absoluto.

— Acho que Salvatore quer se livrar de você — ele disse, finalmente.

A frase caiu limpa. Sem raiva. Sem emoção.

Meu corpo inteiro reagiu, mas meu rosto não.

— Como é? — perguntei.

— Me entregar uma meretriz vulgar como você — continuou — é uma forma interessante de insulto.

O sangue ferveu, mas eu permaneci imóvel.

— Você se veste como se estivesse em exposição — ele disse, olhando para mim de cima a baixo — Corpos não significam nada. Postura, sim.

Eu engoli em seco.

— Se eu tocar em você — ele prosseguiu — e descobrir que não é pura como exigido, eu mato você.

Não houve elevação de voz.

— Enforcada na cama mesmo.

Ele deu um passo para trás.

— Tenha uma boa noite, senhorita Santinno.

E saiu.

Sozinha.

O ar ficou pesado demais para respirar.

Eu permaneci ali por alguns segundos, imóvel, tentando manter o controle.

Então minha máscara caiu.

Droga.

Droga.

Droga.

Se ele soubesse.

Se ele descobrisse.

Eu morreria.

Não era uma ameaça vazia. Não era um exagero. Era uma constatação.

Passei pelas mãos de soldados. De homens importantes. De gente que jamais seria punida por isso.

Eu não era virgem.

E isso, naquele mundo, era sentença.

Voltei para o quarto como um animal acuado.

Fechei a porta.

Andei de um lado ao outro.

Meu reflexo no espelho não parecia o de uma noiva. Parecia o de alguém à beira do abate.

Preciso de um plano.

Preciso sobreviver.

Não era amor que estava em jogo.

Era vida.

E eu não pretendia morrer obedecendo.

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