Capítulo 5 Suzana sopranno
CAPÍTULO 5 — SUZANA SOPRANO
Eu sempre acreditei que era uma pessoa boa.
Não perfeita. Nunca fui tola a esse ponto. Mas boa. Do tipo que escolhe o certo mesmo quando ninguém está olhando. Do tipo que engole o cansaço, a injustiça, a vontade de desistir, e engole em silêncio, porque foi assim que aprendi a sobreviver.
Naquela semana, essa certeza começou a apodrecer por dentro.
Não foi de uma vez. Não foi um choque. Foi lento, quase educado. Como tudo que realmente destrói.
A cafeteria continuava a mesma por fora. Mármore claro, vidro limpo, máquinas caras, cheiro constante de café recém moído. Um lugar feito para pessoas que não têm pressa porque nunca precisaram correr atrás de nada. Eu vestia o mesmo uniforme, dobrava os mesmos guardanapos, anotava pedidos com a mesma letra organizada.
Por dentro, eu já não era a mesma.
Passei a observar as pessoas com mais cuidado do que antes. Não como curiosidade. Como defesa.
Homens de terno falavam baixo, inclinados sobre a mesa, como se o mundo inteiro estivesse conspirando contra eles. Mulheres bem vestidas riam de coisas que não eram engraçadas, apenas convenientes. Casais se tocavam com intimidade ensaiada, mais preocupados com quem via do que com quem sentia.
Eu via tudo.
Via os gestos mínimos. O jeito como alguém segura a xícara quando está nervoso. O silêncio longo demais depois de uma pergunta simples. O sorriso que não alcança os olhos.
Sempre gostei de entender pessoas. Sempre achei que compreender o outro era uma forma de cuidado. Naquela semana, comecei a perceber algo que me incomodou profundamente.
Entender também é poder.
E poder, quando existe, quase nunca é usado para o bem.
Uma mulher deixou cair dinheiro demais sobre a mesa ao pagar a conta. Eu notei imediatamente. Não era gorjeta. Era erro. Meu primeiro impulso foi devolver. Meu segundo impulso foi pensar no hospital.
Esse pensamento durou menos de um segundo.
Mesmo assim, ele existiu.
E isso foi suficiente para me envergonhar.
Devolvi o dinheiro. Sorri. A mulher agradeceu distraída, como quem agradece a um objeto funcional.
Fui até o fundo da cafeteria e lavei as mãos mais tempo do que o necessário.
Não era o dinheiro que me assustava. Era o fato de eu ter considerado ficar com ele.
Naquela noite, caminhei até em casa mais devagar. O bairro era simples, conhecido, quase previsível. As mesmas fachadas gastas, os mesmos vizinhos sentados nas calçadas, as mesmas crianças correndo atrás de nada.
Eu sempre senti orgulho daquele lugar.
Naquela noite, senti algo diferente.
Uma pontada de impaciência.
E isso doeu mais do que qualquer humilhação que já vivi.
Minha avó estava sentada à mesa quando cheguei. O rosto cansado, mas o olhar atento. Ela sempre percebia quando algo estava fora do lugar em mim.
— Você está quieta — disse.
— Só cansada.
Era meia verdade. As piores.
Jantamos juntas. Arroz simples, legumes, silêncio confortável. Ela falou de coisas pequenas, como sempre fazia quando queria me poupar. Eu respondi no automático, a cabeça longe.
Depois, fui para o quarto e sentei na cama sem acender a luz.
Pensei em Deus.
Não em oração. Em cobrança.
Sempre me ensinaram que o errado começa no pensamento. Que desejar já é pecado. Que imaginar o caminho torto é o primeiro passo para segui-lo.
Eu sempre concordei.
Então por que agora eu pensava tanto em possibilidades que me repugnavam?
Não cheguei a formular nada concreto. Não havia plano. Não havia escolha.
Havia apenas perguntas que eu nunca me permiti fazer.
Por que pessoas boas sempre esperam?
Por que o certo quase nunca é urgente?
Por que quem faz tudo errado parece sempre chegar primeiro?
No dia seguinte, uma conversa me atravessou como lâmina.
Dois homens sentados perto do balcão falavam baixo, mas não o suficiente. Um deles reclamava de atraso. De burocracia. De alguém que estava “no fim da fila”.
— Sempre tem quem morra esperando — ele disse, dando de ombros.
O outro riu.
Meu corpo reagiu antes da mente.
Minhas mãos tremeram.
Eles não falavam da minha avó. Não podiam estar falando. Mesmo assim, senti como se estivessem.
Foi irracional.
E, ainda assim, verdadeiro.
Passei o resto do dia em estado de alerta. Cada palavra parecia esconder algo. Cada cliente parecia saber demais. Comecei a desconfiar de tudo.
Não porque houvesse perigo real.
Mas porque dentro de mim algo estava mudando.
Percebi que minha fé sempre foi confortável enquanto não exigia sacrifício extremo. Eu rezava, sim. Eu acreditava, sim. Mas nunca precisei escolher entre Deus e tudo o que amava.
Até agora.
Naquela noite, ajoelhei ao lado da cama.
As palavras não vieram como antes.
Não pedi nada específico. Não pedi milagre. Pedi clareza.
E o que veio não foi conforto.
Foi um pensamento simples e devastador.
Talvez eu não seja tão boa quanto sempre acreditei.
Talvez eu só nunca tenha sido colocada diante de uma escolha impossível.
Fiquei ali por um tempo indefinido. Quando me levantei, não me senti melhor.
Apenas mais consciente.
E essa consciência pesava mais do que qualquer culpa.
Porque agora eu sabia.
Se o mundo me empurrasse com força suficiente, eu talvez cedesse.
E essa possibilidade passou a caminhar comigo.
