Capítulo 6 Matheo
Capítulo V
Matteo
Eu não acredito em intuição. Nunca acreditei. Intuição é o nome bonito que as pessoas dão ao medo quando não conseguem provar nada. O que me guia é informação. Dado cru. Fato confirmado. O resto é ruído emocional, coisa de gente que ainda precisa se contar mentiras para dormir.
Foi por isso que contratei Tomás Alencar.
Não porque eu desconfiava de Ariana Santinno. Desconfiança pressupõe dúvida. Eu não tinha dúvidas. Eu tinha uma certeza antiga, enraizada, quase genética: mulheres daquele mundo sempre escondem algo. Sempre. Luxo, status, herança, sobrenome. Tudo isso vem acompanhado de sujeira. O problema não é a sujeira em si, é a tentativa de disfarçá-la como virtude.
Tomás era o único capaz de arrancar a verdade sem deixar vestígios. Americano de nascimento, italiano por criação, fluente em sete idiomas, invisível para governos e inexistente para a mídia. O hacker mais procurado da Europa não tinha rosto, não tinha foto, não tinha nome verdadeiro. Tomás Alencar era só um rótulo operacional. Uma sombra que eu pagava para olhar no escuro.
Eu o contratei na mesma noite em que Salvatore anunciou o noivado.
Não por ciúme. Não por surpresa. Por cálculo.
Se Ariana Santinno seria minha esposa, então eu precisava saber exatamente quem estaria dormindo ao meu lado. Não versões sociais. Não máscaras de família. Eu queria o histórico completo. Passado, presente, padrões de comportamento. Cada homem que cruzou o caminho dela. Cada escolha feita longe dos olhos do pai, da mãe, do Don.
Tomás não faz perguntas morais. Ele só trabalha.
— Quer até onde? — foi tudo o que ele disse no primeiro contato criptografado.
— Até o osso — respondi. — Quero saber se existe algo que ainda não apodreceu.
Ele entendeu.
Enquanto Tomás cavava, eu mantive a rotina. Reuniões. Execuções indiretas. Cobranças. O submundo não espera crises existenciais. Mas por dentro, algo em mim já estava em estado de observação. Ariana falava, sorria, desempenhava o papel de filha perfeita e futura esposa obediente. Quanto mais perfeita parecia, mais previsível se tornava.
Minha mãe também parecia perfeita, aos olhos da sociedade da máfia.
Até eu aprender que perfeição é só uma embalagem para esconder falhas estruturais.
Eu não cresci acreditando em amor. Cresci acreditando em sobrevivência. Mulheres sempre estiveram associadas a fraqueza, barganha ou traição. Minha mãe usou o próprio corpo como prazer, o prazer que meu pai não dava a ela.. E sim a secretária dele, que vivia gritando na ala de baixo da casa de madrugada, enquanto meu pai a fodia, minha mãe estava fodendo no carro com o motorista, segurança qual quer um que aceitasse a fazer goza ela estava montada no pau deles.
Eles não sabiam ou fingiam não saber as regras da máfia.
Mesmo assim, o resultado foi o mesmo: degradação. Quando você cresce vendo isso, aprende cedo que o corpo feminino, naquele mundo, é sempre uma ferramenta. Nunca um refúgio.
Foi por isso que impus a exigência da pureza.
Não por moral religiosa. Não por romantismo. Por controle. Eu não sei o que é receber amor carinho, compaixão. Nunca ouvi um eu te amo vem deixa eu cuidar de você ou me defender com unhas e dentes, aprendi a humilhação o espancamento os risos debochados para meu lado. aprendi também que o prazer é a destruição, meu pai gostava de ver a sua secretária chupando meu membro mesmo mole, aquilo me machucava mais ela continuava, nunca parava e meu pai me batia com barra de ferro nas pernas, porque eu não ficava duro e nem gozava, além de ser uma aberração é um viado.
Então Pureza, para mim, não era ingenuidade física. Era ausência de sujeira estratégica. Era saber que ninguém mais havia deixado marcas onde eu pisaria. Ariana aceitou rápido demais. Garantiu com um sorriso confiante que era virgem. O pai confirmou com orgulho. A mãe desviou o olhar por meio segundo.
Meio segundo basta quando você foi treinado a matar.
A mensagem de Tomás chegou numa madrugada silenciosa. Sem aviso. Sem introdução. Só um arquivo pesado demais para ser ignorado.
Abri sozinho.
Sempre faço isso.
O primeiro bloco era cronológico. Ariana Santinno desde os dezesseis anos. Escolas. Festas privadas. Viagens “familiares” que nunca envolveram a família inteira. Hotéis pagos por terceiros. Contas que não batiam com a mesada declarada. Presentes caros demais para uma jovem “resguardada”.
Eu não senti raiva ainda. Raiva exige surpresa. Aquilo era confirmação.
Rolei a tela.
Fotos borradas, propositalmente difíceis de rastrear. Ariana entrando em alas privadas de propriedades mafiosas. Ariana saindo horas depois, sozinha, com passos apressados. Mensagens apagadas recuperadas de backups antigos. Linguagem codificada, mas clara o suficiente para quem sabe ler entre linhas.
Ela não era amante fixa.
Era circulante.
Tomás organizou por hierarquia.
Primeiro os soldados. Jovens, violentos, ávidos por status. Depois capos intermediários. Homens casados. Homens que pagavam silêncio com joias e viagens. Mais tarde, nomes que eu reconhecia. Homens que sentavam à mesma mesa que eu em reuniões estratégicas.
Ariana não era uma exceção naquele mundo.
Ela era um produto em circulação.
O estômago não embrulhou. O que senti foi algo mais frio. Uma repulsa limpa, sem drama. Como quando você descobre mofo dentro de um alimento caro. Não é tristeza. É nojo pela tentativa de engano.
Continuei lendo. A data ali me chamou atenção, a data foi dois dias atrás eles começaram a mexer os passinhos, sorri amargo estão disposto a me enganarem e eu deixarei até todos se enforcarem sozinhos.
Relatórios médicos falsificados. Certificados de virgindade comprados. Um ginecologista particular ligado à família Santinno. Transferências discretas. Um padrão de apagamento sistemático.
O pai tenho certeza que não sabia, deve que ficou sabendo por um acaso, então resolveu agir, ele sabe como eu sou.
A mãe sabia, desde o início mais se calou por ser igual a filha.
Salvatore provavelmente sabia de parte.
E ainda assim, decidiram me oferecer aquilo como esposa.
Minha mandíbula travou. Não por desejo de gritar. Por contenção. A violência, quando vem cedo demais, atrapalha o raciocínio. Eu precisava entender a extensão da afronta.
Tomás anexou áudios.
A voz de Ariana, sem o tom doce que ela usava em público. Rindo. Negociando. Prometendo presença em troca de favores. Nenhuma coerção explícita. Nenhuma vítima. Ela sabia exatamente o que fazia e por que fazia.
Ali caiu a última ilusão possível.
Não era uma mulher presa a circunstâncias.
Era uma mulher que escolheu.
E isso, para mim, era imperdoável.
Fechei o arquivo por alguns segundos. Não para digerir. Para organizar.
O que mais me incomodava não era o passado sexual. Não sou um moralista. Homens da minha posição não têm esse luxo. O que me enojava era a mentira estratégica. A tentativa de me colocar como mais um cego na fila. A ideia de que eu aceitaria uma mulher que havia sido tocada, usada e descartada por homens que eu comando.
Isso não é só desrespeito pessoal.
É um erro político.
Uma esposa carrega o nome do marido. Ela entra em salas onde decisões são tomadas. Ela escuta. Observa. Aprende. Ariana não tinha histórico de lealdade. Ela tinha histórico de adaptação. De sobrevivência individual às custas de qualquer um.
Mulheres assim não pertencem ao meu lado.
Pertencem ao chão.
Abri o último bloco do relatório.
Projeção de risco.
Tomás era preciso como um cirurgião. Ariana apresentava alto risco de chantagem externa. Muitos homens sabiam demais. Muitos segredos compartilhados na cama. Muitas dívidas emocionais. Ela não tinha código. Não tinha limites. O casamento seria uma ameaça constante à minha autoridade.
A conclusão era simples.
Ela não podia se tornar minha esposa.
Mas também não podia simplesmente desaparecer.
Eu fechei o arquivo e permaneci em silêncio por longos minutos. O tipo de silêncio que só existe quando a decisão já foi tomada, mas o método ainda está sendo escolhido.
Não senti pena.
Não senti ódio descontrolado.
Senti algo pior.
Desprezo absoluto.
Ariana Santinno não era diferente das outras. Era exatamente o que eu sempre soube que elas eram. Piores, inclusive, porque ainda acreditavam que poderiam enganar alguém como eu.
Minha mãe vendeu o corpo para sobreviver.
Ariana vendeu o corpo para subir.
Existe uma diferença brutal entre as duas.
Levantei da cadeira e caminhei até a janela. A cidade dormia. Inocente na própria ignorância. Pessoas acreditam que o mal sempre anuncia a própria chegada. Não entendem que ele se veste de luxo, perfume e sorriso educado.
Eu já sabia o que faria.
Não naquela noite. Não com pressa.
A morte é uma linguagem que precisa ser falada no tempo certo.
Antes, haveria o jogo.
E Ariana ainda não fazia ideia de que o tabuleiro havia mudado.
Ela achava que estava prestes a se casar com o demônio.
Não fazia ideia de que o demônio já havia lido cada pecado dela, um por um, com calma, sem emoção.
E que nojo, quando nasce frio, não desaparece.
Ele só espera.
