Capítulo 7 Ariana Santinno
CAPÍTULO — ARIANA
Eu não a vi de imediato.
Primeiro senti algo fora do lugar, como quando o ar muda dentro de um ambiente que você conhece bem demais. A cafeteria sempre foi previsível. As mesmas mesas, os mesmos clientes influentes, as mesmas conversas abafadas, os mesmos olhares treinados para não ver nada além do que convém. Eu fazia parte daquele cenário. Sempre fiz.
Até aquele momento.
Levantei os olhos por hábito, esperando encontrar mais do mesmo, e foi aí que o mundo travou.
Não foi susto. Não foi medo. Foi algo mais profundo, mais instintivo. Meu corpo reagiu antes da mente. O coração acelerou de um jeito errado, o estômago se fechou, e por um segundo eu pensei que estivesse vendo meu próprio reflexo em um vidro invisível.
Ela caminhava entre as mesas com uma bandeja simples nas mãos.
Simples demais.
Roupas neutras, corpo sem a intenção explícita de ser notado, cabelo mais longo que o meu, preso de qualquer maneira funcional. Nada nela gritava poder, dinheiro ou status. Ainda assim, cada traço do rosto dela era o meu.
O mesmo formato de olhos.
O mesmo nariz.
A mesma boca.
O mesmo queixo.
Idênticas.
Senti um frio subir lentamente pela espinha, como se alguém tivesse encostado uma lâmina gelada na minha pele. Não era possível. Não fazia sentido. Eu conhecia meu rosto desde sempre. Ele era meu passaporte, minha armadura, minha moeda. E agora estava ali, andando, respirando, servindo café.
Ela sorriu para um cliente. Um sorriso simples, automático, sem cálculo. Aquilo me irritou de imediato. Sorrisos assim não existem no meu mundo. No meu mundo, tudo é troca.
Desviei o olhar rápido demais, como se ela pudesse me ver, como se pudesse reconhecer algo em mim também. Peguei a bolsa, dobrei o dinheiro do cappuccino com cuidado excessivo e deixei sobre a mesa. Levantei-me sem me despedir de ninguém.
Saí.
O ar do lado de fora parecia pesado. Entrei no carro ainda tentando organizar pensamentos que não queriam se organizar. Aquilo não era coincidência. Nunca foi. Minha vida inteira foi construída sobre controle, escolhas antecipadas, peças bem posicionadas. Aquela mulher não deveria existir.
Mas existia.
No caminho para casa, imagens dela invadiam minha mente sem permissão. O jeito de andar. A postura humilde. A forma como ocupava pouco espaço. Tudo nela era o oposto de mim e, ainda assim, era eu.
Quando cheguei, a casa estava silenciosa. Nenhum sinal da minha mãe. Ótimo. Subi para o quarto, troquei de roupa, vesti um biquíni e desci para a piscina. Precisava parecer calma antes de realmente ficar.
Deitei na espreguiçadeira, coloquei os óculos escuros e fechei os olhos, mas não adiantou. A imagem voltava. Sempre ela. A outra.
Meu reflexo pobre.
O sol já estava mais baixo quando ouvi passos. Reconheci o som antes mesmo de olhar. Florença nunca andava sem anunciar presença. Sempre impecável, sempre pronta para ser vista, mesmo dentro da própria casa.
Ela começou a falar de moda. Tendências. Um novo estilista. Um evento que precisávamos comparecer. Eu deixei por alguns segundos, só observando.
Depois interrompi.
— Aí, mãe. Tá. Entendi. — tirei os óculos devagar. — Não quero saber disso agora.
Ela me olhou surpresa.
— Ariana, isso é importante…
— Quero saber outra coisa. — sustentei o olhar. — Eu tenho uma irmã gêmea ou sou adotada?
O silêncio foi imediato.
Vi o rosto dela perder cor. Os olhos desviaram. Pequenos gestos que denunciavam muito mais do que qualquer palavra.
— Por que está me perguntando isso? — respondeu rápido demais.
— Porque hoje, na cafeteria aquela que a gente frequenta, a garçonete de lá é idêntica a mim, mamãe. Idêntica. — pausei. — Por quê?
Ela se levantou de repente.
— Eu não sei do que você está falando. Com licença, Ariana.
Virou-se e começou a subir as escadas. Não era costume. Minha mãe nunca fugia de confronto. Aquilo era medo. Puro.
Sorri.
Levantei e fui atrás dela. Subi correndo, ignorando postura, ignorando tudo. Entrei no quarto antes que ela fechasse a porta.
— Mãe, por favor. Me conta a verdade. Eu preciso saber.
Ela estava pálida. As mãos tremiam levemente.
— Que verdade, Ariana? Você está louca.
— Não estou louca. Aquela mulher sou eu. Só que sem dinheiro. Sem sobrenome. Sem proteção. — me aproximei. — Nós somos idênticas.
Ela respirou fundo, sentou-se na beira da cama como se o corpo tivesse desistido.
— E se for isso… — deixei minha voz suave — eu te amo. Você me salvou do demônio do Matteo e nem sabe.
— Como assim?
— Para e pensa. — dei de ombros. — Aquela pobretona deve topar tudo por dinheiro. E se não topar, eu faço topar. Investigação, ameaça… eu vejo. — sorri. — Quem morre é ela. Não eu.
Ela fechou os olhos.
— Eu não sei se estou pronta, Ariana.
— Então eu pergunto ao meu pai.
— Não! — ela quase gritou. — Não. Eu te conto tudo. Só… não envolva seu pai.
Respirou fundo.
— Vinte anos atrás… eu era noiva do seu pai. Não sabia dos negócios. Eu tinha uma melhor amiga. Ana Belle. Enfermeira como eu.
Fiquei em silêncio. Absorvendo cada palavra.
— Eu o amava demais. Quando ele me disse que o pai dele havia escolhido outra esposa, eu perdi o controle. Ana estava grávida. Eu trocava exames. Fingíamos que era eu. Até o dia em que ameacei o pai dele.
Minha respiração ficou calma. Atenta.
— Quando descobri que eram gêmeas… eu entrei em pânico. No dia do parto, Ana me chamou. Ela perdeu muito sangue. Desmaiou.
Uma pausa.
— Eu levei você. Deixei a outra lá. Peguei você e fui embora. — a voz dela falhou. — Fiz tudo para que ninguém descobrisse.
O silêncio caiu pesado.
Depois eu ri.
— Meu Deus, mãe. — balancei a cabeça. — Que história perfeita.
Ela me olhou assustada.
— Agora tudo faz sentido. — continuei. — Existe uma versão minha descartável no mundo. E eu não vou desperdiçar isso.
Ela engoliu seco.
— Você é brilhante, Ariana.
— Eu sei. — sorri. — Filha de cobra.
Naquele momento, eu soube.
O demônio não me levaria.
Eu tinha encontrado minha substituta.
E eu não sentiria culpa alguma.
