Capítulo 1 CAPÍTULO UM | PLANOS DE ANIVERSÁRIO

POV da Alaia

Sonhei com ele de novo.

Eu não sabia quem ele era — nunca soube. Só a impressão de alguém absurdamente alto, com um cheiro quente e fermentado, tipo pão saindo do forno. E os olhos. Transparentes, cristalinos, como olhar através do gelo para águas profundas. No sonho, ele estendeu a mão pra mim, e eu deixei. Foi essa parte que me fez acordar assustada.

Fiquei deitada no escuro, com o coração disparado, e disse a mim mesma que não significava nada.

Daqui a quatro dias, eu faria dezoito. Minha loba ia despertar. E com ela, o vínculo de companheiros — aquele fio invisível e inevitável que a Deusa da Lua amarra entre duas pessoas antes mesmo de elas nascerem. Todo mundo à minha volta estava surtando de empolgação com isso. Meu irmão, Aaron, praticamente tremia por dentro só de tocar no assunto. Minha mãe vinha planejando uma festa fazia semanas.

Eu era a única naquela casa da alcateia que estava, em silêncio e em segredo, morrendo de medo.

“E se ele não me quiser?”

O pensamento pesava no meu peito como uma pedra que eu não conseguia tirar. Eu empurrei pra baixo, como sempre fazia, e peguei o celular. O alarme ainda não tinha tocado. Claro que não — eu já tinha apertado soneca três vezes.


“Alaia, levanta da cama agora! Não me faça subir aí!”

A voz da minha mãe atravessou o teto como se ela tivesse um fio direto ligado ao meu crânio. Eu pulei da cama e fui pro banheiro, xingando quando o chuveiro saiu gelado como gelo antes mesmo de eu me preparar. Funcionou. O sonho se desfez. A pedra no meu peito ficou.

Enquanto a água esquentava, vi meu reflexo no espelho — olhos dourados, cor de mel, me encarando de volta, os mesmos da minha mãe, no mesmo rosto liso cor de caramelo. Meus cachos longos e escuros estavam um desastre, armados de tanto dormir, e eu enfiei tudo num coque bagunçado antes que me fizesse me atrasar. Rímel. Gloss. Vestido longo amarelo com um nó na frente, porque com 1,57 a barra arrastava no chão se eu não improvisasse.

A garota no espelho estava bem. Parecia normal. Não parecia alguém desmoronando por dentro por causa de um companheiro que nem tinha conhecido ainda.

“Se controla, Alaia.”

Peguei minha bolsa e desci.


A cozinha da casa da alcateia já estava a mil quando eu cheguei — o burburinho grave dos membros da alcateia comendo, rindo, circulando no começo do dia. O cheiro de café e alguma coisa salgada me puxou direto pra geladeira. Enfiei a cabeça lá dentro e comecei minha varredura automática nas prateleiras, já fazendo o que a Jordyn chamava de minha “dancinha da comida feliz”.

“Ah, geladeira, que delícias você guarda com tanto carinho?”

Eu nunca tive a resposta.

Aaron se aproximou sorrateiro por trás de mim e soltou um grito tão agudo que eu bati a cabeça na prateleira, dei um berro alto o bastante pra interromper todas as conversas na cozinha e quase engoli o próprio coração.

Virei num pulo e acertei um direto de direita bem nas costelas dele antes que ele terminasse de rir.

“Alaia, mas que—”

“Não.” Apontei pra ele. “Nem vem. Meus olhos ainda estão tortos.”

Ele se curvou, segurando o lado do corpo, sorrindo apesar da dor. Ao nosso redor, uns vinte membros da alcateia faziam um péssimo trabalho fingindo que não estavam se divertindo.

“Esse direto tá melhorando”, ele chiou, sem fôlego. “Seis meses de treino e ela finalmente aparece.”

—Eu sempre estive aqui. Você é que só agora começou a sentir.

Ele se endireitou e bagunçou meu cabelo como se eu fosse um labrador dourado, e eu dei um tapa na mão dele antes que ele tentasse de novo.

—Dezesseis minutos —lembrei. —Você é dezesseis minutos mais velho do que eu. Só isso. Essa é a base inteira desse seu complexo de superioridade.

—E que dezesseis minutos gloriosos foram aqueles.

Eu queria bater nele de novo, mas ele estava com aquele sorriso idiota e quente que tornava impossível continuar irritada — o mesmo sorriso que deixava a escola inteira na palma da mão dele, com ou sem esse papo de futuro alfa. Eu o amava mais do que jamais conseguiria dizer, e era exatamente por isso que eu nunca diria em voz alta.


Mamãe entrou na cozinha num ímpeto antes que eu conseguisse voltar para a geladeira, praticamente quicando na ponta dos pés. Eu conhecia aquele olhar. Era o olhar dela de tenho novidade e esperei a manhã inteira para contar.

Eu me preparei.

—Estão prontos, meus bebês?

Aaron e eu trocamos um olhar.

—...Pra quê? —falamos juntos.

Ela abriu os braços, animada. —Pro aniversário de vocês! Neste sábado! Eu já coloquei a matilha inteira pra preparar tudo, e seu pai convidou quatro alfas de matilhas vizinhas — Alfa Black, Alfa Roland, Alfa Grey e Alfa Beck. Vai ser a noite mais linda—

—Espera. —Ergui uma mão. —Quatro alfas?

Ela abriu um sorriso radiante. —Todos sem companheira. Não é maravilhoso?

Não era maravilhoso. Era exatamente o tipo de terror específico que eu vinha engolindo desde a hora em que acordei.

Aaron, o traidor, parecia empolgadíssimo. Eu abri depressa o nosso elo mental particular antes que meu rosto me entregasse.

Quatro matilhas, Aaron. São quatro vezes mais chances de eu encontrar o meu companheiro. Quatro vezes mais chances de ele me olhar uma vez e decidir que eu não sou suficiente.

Ou quatro vezes mais chances de ser ele, e tudo mudar. A voz mental dele estava irritantemente suave. Isso não vale o risco?

Eu não respondi. Cortei o elo.

—Car— —eu me interrompi a tempo. Os olhos da mamãe já tinham ficado atentos. —Desculpa. É que eu só... fiquei surpresa.

Ela me analisou por um instante tempo demais — aquele olhar de Luna, de quem sabe das coisas, que sempre me fazia me sentir transparente — e então voltou a disparar, falando sem parar sobre arranjos de flores, lista de convidados e o vestido que ela já tinha encomendado sem nem me perguntar.

Eu fiquei ali, deixando as palavras dela passarem por cima de mim, com um pensamento rodando baixinho por baixo de tudo:

Em quatro dias, tudo muda. E eu sou a única nesta casa que tem medo do que isso significa.

Eu ainda não sabia, naquela hora, o quanto eu estava certa.

Ela empurrou a gente porta afora antes que eu comesse qualquer coisa. Meu estômago roncou em protesto durante todo o caminho até o carro do Aaron. Ele ouviu, porque claro que ouviu, e abriu um sorriso de canto.

—Isso vai te ensinar a apertar soneca três vezes.

—Eu vou acabar com você.

Ele riu, destravou o carro, e eu me joguei no banco do passageiro, a bochecha encostada no vidro frio, vendo a casa da matilha ficar pequena atrás da gente.

Quatro dias.

Em algum lugar por aí, existia um homem que a Deusa da Lua tinha escolhido especificamente pra mim. Em algum lugar por aí, ele estava levando a manhã dele como sempre, sem fazer ideia de que eu existia. E, em quatro dias, no instante em que estivéssemos na mesma sala, nós dois saberíamos.

Eu continuava me dizendo que aquilo era uma coisa linda.

Quase acreditei.

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