Capítulo 1 1
Elara
Antes de completar dezoito anos, espera-se que você planeje a sua vida — não que acabe com ela.
Esta noite será a mais longa do ano e também marcará o meu aniversário. Nunca temi tanto a chegada de um dia como temo este. Desde que me entendo por gente, sou alertada sobre o meu terrível destino — o mesmo que aguarda todos os primogênitos nesta nova sociedade.
— Elara! — A voz da minha mãe me tira dos meus devaneios. — O jantar está pronto!
Olho para o meu reflexo uma última vez antes de me levantar da penteadeira e descer a escada rangente até a sala de estar, onde minha família me espera. A escada é iluminada por uma vela gasta pela metade, apoiada em uma arandela na parede. Desde a chegada deles, o progresso parou. Fomos condenados a viver do jeito deles. Malditos nostálgicos com aversão à tecnologia. Tudo o que sei sobre o "mundo avançado" é o que consegui ler em livros antigos ou ver em fotografias que já começam a desbotar e rachar. Passamos mais de um século voltando no tempo, nos adaptando ao modo de vida deles: viajamos de carruagem, usamos roupas pomposas e desconfortáveis e nos comunicamos por cartas. Nasci quando computadores, celulares e carros movidos a gasolina já eram apenas uma lembrança na mente dos mais velhos.
Piso no último degrau, que range sob o meu peso, e encontro toda a minha família reunida em volta da mesa. Minha mãe serve a sopa com uma concha, enchendo as tigelas com um sorriso, pois poder nos oferecer essa refeição esta noite não é algo comum. Não somos uma família rica, nem mesmo de classe média.
— Querida, sente-se, está esfriando.
Sento-me ao lado da minha irmã de sete anos, Angela, uma garotinha de cachos acobreados e olhos cor de mel. Ela sorri para mim, exibindo a janelinha entre os dentes.
— Não fique nervosa, talvez eles não escolham você.
A voz do meu pai é doce, assim como ele. Às vezes, acho que ele é assim comigo porque fui marcada desde que nasci. Ser a primogênita me estigmatizou e me condenou a um destino miserável. Um destino no qual sou vista como uma mera fonte de alimento para aqueles seres frios, sádicos e sem alma.
— Não estou nervosa — minto. — Passei dezoito anos me preparando para isso.
Sei que o sorriso não chega aos meus olhos, embora eu tente transmitir a maior calma possível. Isso não é fácil para eles — e como poderia ser para qualquer pai ou mãe? Em poucas horas, completarei dezoito anos e, em apenas alguns dias, haverá lua cheia, o que significa entrar no Leilão de Sangue. Com sorte, talvez ninguém compre você, mas se apegar a essa esperança é tolice. Somos produtos, somos apenas sangue. Eles acabarão nos comprando, não importa se você é atraente, só pele e osso, ou doentio. Mais cedo ou mais tarde, alguém estará disposto a se alimentar de você.
— Para ser exato, foram dezessete anos e trezentos e sessenta e quatro dias — diz meu irmão, tentando aliviar o clima. — Não me peça para ser mais preciso com horas, minutos e segundos, porque nisso eu ficaria te devendo.
Reviro os olhos; isso é típico dele — recorrer a um humor bobo quando as situações o sobrecarregam. Silvano — a quem todos chamamos de Tucker — é meu irmão dez meses mais novo, mas insiste em agir como se fosse mais velho do que eu. Ele tem um corpo largo e atarracado, cabelos loiro-palha e olhos cor de mel como os de Angela. Os meus são cinzentos, vazios, sem cor. Tudo em mim parece não ter brilho, dos meus olhos ao tom escuro do meu cabelo.
Pego a colher e tomo um pouco de sopa. O olhar da minha mãe está sobre mim, esperando que eu diga algo ou reaja de alguma forma. Sorrio para ela, que parece relaxar na cadeira. Seu cabelo é da mesma cor que o do meu irmão, levemente grisalho e preso em um coque baixo na nuca. E, embora seu olhar seja o mais doce que já vi, é também o mais triste.
— Está deliciosa, mãe.
Eu me forço a continuar comendo, mesmo com o estômago fechado de nervosismo. Sou uma péssima filha e irmã pelo que planejo fazer esta noite. Certamente eles não terão orgulho de ter criado uma filha tão egoísta, disposta a acabar com a própria vida por medo de vivê-la até o último suspiro com aquelas criaturas insaciáveis e pecaminosas.
— Então você diz que você e a Lea vão dar uma volta perto do lago... — diz meu pai. — Sabe que não devem voltar tarde, já está escurecendo. Não importa o que prometam, eles são perigosos.
— Eu sei, pai. Não se preocupe, vamos ficar bem.
Ele passa os dedos pela barba de vários dias enquanto me examina. Será que ele sabe das minhas verdadeiras intenções? Estão estampadas na minha cara? Por fim, ele volta a atenção para a tigela.
— Posso ir junto? — pergunta Angela. — Por favor, por favor...
— Não — respondemos todos ao mesmo tempo.
Angela faz bico e volta a tomar sua sopa. O clima está mais tenso do que o esperado; não deveria ser assim, mas a ameaça está no ar, e ninguém está disposto a ignorá-la. Em quatro dias, deixarei esta casa, muito provavelmente para o resto da vida.
Não deixo uma única gota na tigela antes de me levantar. Olho para toda a minha família, gravando-os na memória. Queria poder dizer a Tucker que espero que ele me perdoe um dia pelo que a minha morte lhe custará, pela forma como isso o condenará. Queria poder explicar que vivi com medo por muitos anos e que não aguento mais. Que a morte parece um passeio no parque em comparação ao destino que a vida me reserva.
Não faço nada disso. Apenas sorrio para eles uma última vez, corro para o meu quarto e lá pego uma capa forrada de pele que a Lea me deu anos atrás e que guardei com cuidado, pois é uma das poucas coisas de valor que possuo. Depois de alguns minutos, saio pela porta sob o olhar de todos. O ar frio beija minhas bochechas e, embora a primeira neve ainda não tenha caído, temo que não demore muito. Sigo o caminho até a casa da Lea, que fica a algumas ruas da minha. Os últimos trabalhadores caminham pelas ruas, ansiosos para se refugiar no calor de suas casas, algumas mulheres terminam de recolher as roupas que estenderam de manhã, e os comerciantes estão fechando seus estabelecimentos.
