Capítulo 2 2
IVAN
Estou entediado pra caralho.
Aonde quer que eu olhe nesta festa, eu vejo a pessoa menos interessante que já conheci. E a próxima, e a próxima. Para um bando de canalhas e criminosos, dava pra pensar que eles teriam algo envolvente para discutir.
Mas não têm. Bem longe disso, na verdade.
Porque praticamente toda alma sob o meu teto esta noite está aqui pelo mesmo motivo irritante.
Para me fazer casar.
Seja comigo que eu deveria me casar, ou com a filha deles, irmã, prima, mãe, tanto faz, eles não são muito exigentes. Só querem se aproximar de mim. Do meu império. Por qualquer meio necessário.
Eu nem os culpo. A Bratva Pushkin é o maior tubarão num mar cheio deles. Nós temos o dinheiro. O poder. Nós decidimos quem fica com o quê e quando, e as respostas habituais para essas perguntas são “nós”, “tudo” e “agora mesmo, porra”.
— Essas coisas ainda vão me matar — murmuro.
— Então por que você está aqui? — pergunta Yasha, meu melhor amigo e braço direito, enquanto apanha um palito com queijo de um garçom que passa.
— Porque a Anya vai me matar se eu der o cano.
Ele solta um resmungo pelo nariz, de boca cheia de brie. — Verdade. Essa sua irmã está te devendo uma, pelo que está te fazendo passar hoje.
— Está mesmo — concordo.
Mas até isso é um baita eufemismo. Eu não estaria aqui, me submetendo a essa merda, por ninguém além dela.
Se não fosse por mim, ela estaria atravessando o inferno agora. Nosso pai já estava furioso o bastante quando descobriu o que ela tinha feito. Rejeitar meia dúzia de propostas de casamento decentes para fugir e se casar com um simples soldado raso da Bratva? É blasfêmia aos olhos do velho desgraçado que nos pôs no mundo. Filhas, na cabeça do nosso pai, são peões a serem movidos no tabuleiro como ele bem entende. Deus nos livre elas se casarem por amor.
Eu acho que ela tem que fazer o que quiser. Dito isso, eu não sou exatamente fã do conceito. Casar por amor: ótimo, se é isso que a Anya quer.
Mas eu não vou fazer o mesmo.
Se eu for obrigado a casar, eu vou casar por negócios. Nada além disso. Vou me casar para tirar o foco das transgressões da minha irmã. Vou me casar para consolidar a Bratva Pushkin como a força preeminente no submundo americano.
Amor não tem nada a ver com isso.
Um som repentino às minhas costas chama minha atenção. Yasha e eu nos viramos ao mesmo tempo, condicionados por anos lutando lado a lado a estar prontos para o que vier. Não seria a primeira festa a que comparecemos que termina em tiros e banho de sangue.
Mas não há nada disso à vista.
Ainda não, pelo menos.
Uma mulher que eu nunca vi antes está mostrando os dentes para o sobrinho bêbado do chefão da máfia grega Genakos. Stefanos, acho que é o nome dele. Ele é grosseiro e seboso, o que combina com a fama. Mesmo agora, os olhos dele reviram nas órbitas, soltos de tanto beber do álcool de graça. As garras dele se estendem na direção da garota.
—Tira essas suas mãos do caralho de cima de mim —ela cospe nele.
—Ah, qual é... —ele resmunga, com a língua enrolada. —Eu só tava tentando ser gente boa.
—Apalpando a minha bunda?
—Tava tentando te apreciar também —ele murmura. —Não precisa ser uma vadia por causa disso.
O queixo dela cai. —Eu sei que você não acabou de me chamar de vadia.
—Eu disse que você tá sendo uma vadia, não que você é—
Ele não consegue terminar a frase antes de ela estalar um tapa cruel na cara dele. Aqueles olhos soltos dele ficam vazios e ele cambaleia para trás. Bate na parede e quase perde o equilíbrio.
Então se endireita, e o sorriso desleixado se torce em algo muito mais cruel.
—Escuta aqui, sua putinha do caralho... —Ele avança nela. Aquelas mãos de repente não parecem tão moles e inofensivas. Ele tenta apalpá-la de novo. Ela tenta afastá-lo, mas ele é maior e mais forte, então a engole com o próprio corpo enquanto a encurrala no canto perto dos banheiros.
E com isso, eu já vi o bastante.
Não estou aqui para bancar o cavaleiro branco de ninguém. Mas que eu seja amaldiçoado se esse idiota bêbado vai sair por aí apalpando mulheres contra a vontade na minha frente.
Quando eu era menino, vi meu pai fazer isso vezes demais. Naquela época, eu não podia fazer nada para impedi-lo.
Mas agora? Agora eu sou perfeitamente capaz de despedaçar esse filho da puta.
Eu atravesso a distância, agarro a nuca da gola de Stefanos e o arrebento no chão. Ele guincha e cai com tanta força que faz as esculturas próximas tremerem nos pedestais.
Uma taça de champanhe se espatifa no chão e se estilhaça em mil direções. Um dos cacos serrilhados corta a orelha de Stefanos. O sangue dele começa a se juntar no mármore branco.
Planto um joelho no peito de Stefanos e me inclino, perto o bastante para ele ouvir cada palavra que eu sopro na cara dele. —Acho que quem devia “escutar aqui” é você, meu amigo. A moça disse não. Ela mandou você ficar com as mãos no bolso, mas você não ficou. Então agora sou eu que vou pôr as mãos em você, e não vou parar quando você me pedir. Não vou parar quando você implorar. Nem vou parar quando você gritar e suplicar e chorar, pedindo, pelo amor de Deus, que eu tenha um pouco de misericórdia.
Os olhos de Stefanos estão arregalados e imóveis agora. O lábio inferior treme. O suor frio de medo formando gotinhas no bigode me dá nojo. —P-p-por f—
—Shh. —Levo um dedo à boca. —Acabei de te dizer que implorar não vai adiantar. —Então, suspirando, tiro o peso de cima do peito dele e me levanto. Puxo os punhos do meu smoking para o lugar enquanto olho para ele de cima. —Mas não estou a fim de sujar meu terno com seu sangue hoje. Então, por enquanto, vou te deixar ir. Some da minha frente.
Ele não precisa ouvir duas vezes. Se arrasta de quatro, sangrando, até conseguir se firmar e ficar de pé de novo. Aí sai tropeçando, vira a esquina e desaparece de vista.
Quando ele vai embora, eu me viro para a garota.
