Capítulo 4 4
CORA
Más notícias: este lugar é um labirinto. Parece que estou correndo há horas, virando e revirando por corredor atrás de corredor. O único lado bom é que, pelo menos, deixei o super Hulk para trás.
Eu estremeço só de pensar nele. Ele era perfeito demais para ser real. A estrutura óssea dele era brutalmente marcada. Aqueles lábios tinham uma inclinação cruel. E aqueles olhos—meu Deus do céu, aqueles olhos cor de âmbar podiam hipnotizar uma garota se ela não tomasse cuidado.
Ele não encostou um dedo em mim, mas o jeito como me olhou foi um toque físico por si só. Acariciou as partes mais profundas de mim.
Como se eu já não me sentisse pelada o bastante com um rasgo escancarado na parte de trás do meu vestido.
Eu sacudo a lembrança quando uma porta com uma fina faixa de luz por baixo me chama. Parece um banheiro, então eu empurro e entro—
E paro em seco.
Um trio de garotas está agrupado em volta de um espelhinho de mão apoiado em cima da pia. Os cabelos delas estão impecavelmente cacheados, os vestidos perfeitos, as unhas brilhando à luz de velas.
Duas nem percebem que eu entrei. A terceira levanta o olhar de onde está curvada sobre o espelho, com um canudo pressionado na narina. O rosto dela se reflete na superfície abaixo, embora esteja cortado por cinco ou seis linhas bem alinhadas de pó branco.
Quando me vê, ela franze a testa. Mas não é uma careta de surpresa por eu ter invadido.
É uma careta de reconhecimento.
“Cordelia?”, ela diz, chocada. “É você?”
Cordelia. Um nome morto. Um nome de ninguém.
Meu coração pula para a garganta. Um pensamento berra na minha cabeça como sirene de tornado: corre.
Dessa vez, eu não economizo nada. Eu corro, corro, corro. Que se dane o salto alto. Que se dane o vestido rasgado.
Eu continuo correndo, por corredores e subindo escadas, até meu fôlego queimar nos pulmões. Então eu atravesso a primeira porta que vejo e bato, fechando com força atrás de mim.
Dentro do cômodo escuro, eu me dobro, com os cotovelos apoiados nos joelhos, e tento puxar ar. Estou tão cansada que não dou a mínima para o fato de que qualquer pessoa que viesse por trás poderia ter uma visão em alta definição de onde o sol não bate.
Eu fico ali por um tempo. Mesmo quando recupero o fôlego, meu coração continua disparado no peito.
Ela me viu. Ela me conhecia.
Eu estremeço de novo. Cordelia. Deus, como eu odeio o som disso.
Agora eu sou Cora.
Cordelia está morta.
Com o tempo, meu coração se acalma, embora o gosto acre do medo nunca saia de verdade da minha boca. Quando estou tão tranquila quanto vou conseguir ficar, observo o ambiente.
É um escritório, ou algo do tipo. Bem masculino, paleta escura, soturno. Está cheio de sombras aqui dentro, embora entre luz por um conjunto de portas francesas. Quando caminho até lá, percebo que a varanda anexa dá para o gramado dos fundos. A maior parte da multidão foi se arrastando para fora, então lá está um mar de corpos. O som de risadas e de taças tilintando sobe até mim. Não há sinal do Príncipe Testosterona nem do amigo dele.
Dou as costas para a varanda e pego meu celular na bolsa. Aperto o contato da Jorden e levo ao ouvido. Chama, chama, chama, e então:
“Oiiii! Amiga, pra onde você foi? Essa festa tá insana!”
Ai, meu Deus. A Jorden está bêbada num nível absurdo. Eu reconheço aquela moleza na voz, aquela gargalhada. A garota está B-Ê-B-A-D-A. Ela não vai vir me salvar.
Estou completamente sozinha.
— Ah, deixa pra lá — murmuro ao telefone. — Toquei sem querer. Vou te procurar. Um segundo. — Desligo e jogo o celular no sofá ali perto.
Encontro um abajur no canto e acendo. O rasgo é nas costas, então preciso tirar este vestido e dar um jeito de improvisar alguma solução com alfinete de segurança, boa o bastante pra eu sair daqui sem mostrar a bunda pra todo mundo na festa. Com uma careta e uma prece, começo a tentar me livrar do vestido, fazendo o mínimo de estrago possível.
As costas, onde as mãos do bêbado passaram, estão bem destruídas, mas se eu conseguir me desvencilhar com cuidado e achar um alfinete de segurança por aqui em algum lugar, há uma chance de eu conseguir—
Raaaasga.
Esquece. Tô ferrada.
Meus esforços supercuidadosos só estenderam o rasgo ainda mais. Assim que deixo as mãos caírem, o vestido se abre em dois como pétalas murchas e se amontoa aos meus pés. Eu fico ali, parada, no meio do escritório de um estranho, usando nada além de salto alto e tapa-mamilos.
E, claro, é nessa hora que a porta se abre.
Por um segundo, eu me permito acreditar que é o Jorden, vindo me salvar.
Mas não é o Jorden.
Não é o Jorden nem de longe.
5
IVAN
Seria um erro chamá-la de a garota do vestido verde — principalmente porque ela não está mais no vestido verde. Ele está feito uma poça aos pés dela, e ela não está usando um fiapo de roupa. Só salto alto e tapa-mamilos.
Fecho a porta atrás de mim. — Ninguém devia estar aqui.
— Eu tô me escondendo — ela solta, tentando ao máximo se cobrir, embora isso não ajude grande coisa. Eu teria que ser a porra da Madre Teresa pra conseguir tirar os olhos do corpo dela.
Puta merda, ela é deslumbrante.
Engulo o impulso de desejo. — Tirando a roupa, se escondendo... não tô nem aí como você chama isso — mas você não pode fazer isso aqui.
Ela me encara com um olhar tão cortante quanto o que lançou pro vira-lata grego lá fora. — E quem é você? Segurança?
— Você só pode estar brincando.
Ela não sabe quem eu sou? Ah, tá. Conversa fiada. Todo mundo aqui sabe quem eu sou.
Ela está corada da cabeça aos pés — dá pra ver cada centímetro de pele ruborizada —, mas não recua. — Então não é segurança? Provavelmente algum filhinho de papai com dinheiro, que acha que é dono de todo cômodo em que entra.
— Palavras grandes pra alguém se esgueirando pelada pela casa de um estranho.
— Me escondendo! — ela guincha de novo. — E pode acreditar, eu daria qualquer coisa pra estar vestida agora. De preferência com moletom e um casaco com capuz, com uma parka por cima, mas mendigo não escolhe. Eu aceitaria essa monstruosidade justa e cheia de tirinhas no chão agora mesmo, se ela colaborasse.
Ela odeia essa festa, não faz ideia de quem eu sou, e em vez de se gabar pra mim de quem desenhou o vestido destruído, ela está sonhando com roupa de ficar em casa.
Ela não pode ser real.
Uma brisa atravessa as portas abertas e a mulher à minha frente estremece. Antes que eu possa repensar o impulso, tiro meu paletó.
— O que você tá fazendo? — ela pergunta.
Boa pergunta. Talvez seja a primeira vez na minha vida que eu, voluntariamente, peço pra uma mulher colocar mais roupa.
Os olhos dela estão arregalados e são de um verde chocante enquanto ela se encolhe, afastando-se de mim. Como um cachorro que apanhou tantas vezes que tem certeza de que o futuro só pode guardar mais dor.
