Capítulo 5 5

— Mendigo não pode escolher. — Balanço minha jaqueta no ar entre nós. — Ou pega ou larga.

Ela me observa com cautela por mais um longo instante antes de se lançar na direção da jaqueta e vesti-la.

A pele dela desaparece sob as mangas compridas e os ombros largos. A jaqueta praticamente a engole, mas eu não estou rindo. De algum jeito, a imagem dela se perdendo dentro da minha jaqueta é ainda mais tentadora do que a pele nua e esticada.

Ela puxa o tecido em volta da cintura e cruza os braços para mantê-lo no lugar. — Obrigada. Por um segundo, achei que você ia me fazer desfilar daqui pelada como castigo.

— Não me provoque.

— Não me ameace — ela rebate.

— Não finja que seria só ruim. Você seria o centro das atenções.

— Não finja que todas as mulheres querem a mesma coisa.

Ergo uma sobrancelha, divertido. — Não querem? Você se arrumou toda e entrou aqui para vender a alma ao Ivan Pushkin. Igual às outras.

— Você também? — ela murmura. — Ivan pra cá, Ivan pra lá. Ninguém se cansa desse cara. Quem ele é, afinal?

Eu me junto a ela na janela, olhando para os convidados lá embaixo. — Todo mundo está aqui porque quer se casar com ele.

— Tenho certeza de que ele acha isso. — Ela franze o nariz e aponta para um homem barrigudo parado perto dos arbustos. — E aquele?

Reconheço a pessoa que ela aponta na hora. Minha mente gira e puxa os fatos relevantes. Valmor Shundi. Subchefe albanês. Gosta do uísque envelhecido por dezessete anos e das mulheres com menos do que isso.

— Ele também. O coitado tem um problema feio com drogas e está prestes a ser pego por roubar dinheiro dos clientes. Precisa que as filhas arrumem um bom casamento agora, antes que o nome dele vire merda.

— Como você sabe disso?

— Eu sei de tudo. — Aponto para o italiano magricela ao lado do palco. De novo, minha mente zune e puxa o que eu preciso saber. Alfonso Marciano. Subchefe da família Rossi. Viciado em cocaína. — Esse aí curte sexo em grupo com o chefe dele e a esposa.

— Nem a pau — ela dá uma risadinha. — Ele está usando uma polo rosa com a gola levantada. Como é que ele faz ménage?

— Na verdade, quarteto. Ele leva a própria esposa. — Aponto para a mulher no vestido marrom com pedrarias, que vasculha o gramado como um abutre. — Embora eu não tenha certeza se você pode criticar a aparência de alguém, considerando tudo.

Ela olha para baixo, para minha jaqueta, e faz uma careta tímida. — Justo. Mas eu estava mais bonita antes daquele babaca rasgar meu vestido.

— Concordo em discordar — murmuro.

Eu nem pretendia falar em voz alta, mas escapou antes que eu pudesse impedir. O rubor dela é intenso o bastante para se ver na penumbra.

— E aquele? — ela pergunta, obviamente mudando de assunto.

Sigo seu dedo e vejo que ela está destacando o cabelo loiro e ralo do homem em quem eu preferia não pensar. O riso some da minha voz. — Konstantin Sokolov — digo baixinho.

— Você não tem nenhuma sujeira sobre ele? — ela provoca. — Ele não é, tipo, um jogador de pôquer horrível ou secretamente curte se fantasiar de furry no tempo livre?

Não, penso. Ele é o pai da mulher com quem eu deveria me casar.

— Ele não é ninguém — digo em voz alta em vez disso. — Ninguém mesmo.

— Hm. Tá. — Ela vira o rosto de lado, o cabelo escuro escorrendo pelo ombro. — Última pergunta: qual é o seu nome?

Tenho que admirar a tenacidade dela. Ela realmente está fingindo que não sabe quem eu sou. Ainda não sei se acredito, mas é bom ser anônimo. Nem que seja por alguns minutos.

— Me diz o seu primeiro.

— Ou o quê? — ela desafia.

— Ou eu te expulso por invasão de propriedade.

Ela estreita os olhos. — Tem certeza de que você não é o chefe da segurança? Você está numa bela viagem de poder.

Meu olhar não vacila do dela. O mundo encolhe ao nosso redor. — Eu respondo quando você me disser quem é.

Ela hesita só por um segundo. — Francia Delacour.

Reviro meu fichário mental de nomes e contatos e aliados e inimigos, mas não existe nenhuma Delacour, pelo que eu me lembro.

Franzindo a testa, viro até o carrinho de bar e pego dois copos. — Quer uma bebida, srta. Delacour?

— Meu Deus, sim. Mas você não vai escapar tão fácil. Era pra você me dizer se é ou não o chefe da segurança.

Ergo meu copo e dou um gole. — Se eu fosse o chefe da segurança, eu estaria bebendo em serviço?

— Se você fosse ruim no seu trabalho, poderia estar.

Entrego o segundo copo a ela. — Eu não sou ruim em nada.

— Eu odeio o fato de acreditar em você. — Ela prova a bebida e faz uma careta. — Eu também odeio conhaque.

— Essa garrafa custa trezentos dólares.

— Ah. Bom, nesse caso, é a melhor coisa que eu já provei na vida. — Ela estampa um sorrisão falso. — Melhor?

Tenho certeza de que nunca mais vou vê-la depois de hoje, então que se dane. O casamento está chegando, e depois de tudo o que aconteceu com Konstantin e Katerina Sokolov, tenho certeza de que vai ser um inferno do caralho. Melhor aproveitar enquanto ainda dá tempo.

Bato meu copo de leve na borda do dela, num brinde ao lugar para onde esta noite vai nos levar. — Bem melhor.

6

CORA

A corrente de ar dentro deste paletó é insuportável. E fica ainda pior com os olhares de quarto que o dono do paletó não para de jogar na minha direção.

Pensando bem, esses olhares de quarto são exatamente o motivo de a corrente de ar ser tão insuportável. Sem calcinha, tesão, vento — é uma combinação péssima.

Do jeito que eu vejo, os problemas são vários. Primeiro: eu estou pelada, vestindo um paletó de terno emprestado. Isso não é o que nós, no ramo do empoderamento feminino, gostamos de chamar de “posição de comando”.

Segundo: eu não conheço esse homem. Ele pode ser o chefe da segurança, pode ser um palhaço sem fantasia, pode ser um espião numa missão secreta do Kremlin. Vai saber? Eu, não.

Terceiro, e mais importante: eu estou pelada, vestindo um paletó de terno emprestado. Acho que vale repetir esse ponto.

Minha cabeça não para de voltar ao quanto o Vera Wang da Francia deve ter custado. Sempre que isso acontece, eu me obrigo a dar outro gole do conhaque nojento e caro e me pergunto como, diabos, vou pagar aquilo de volta.

— Mais?

A mão enorme do homem já está quase em volta do copo quando eu percebo o que ele está perguntando. Os dedos dele roçam nos meus e eu puxo o braço para trás como se tivesse levado um choque. A única razão para o copo não se espatifar no chão é que o homem tem reflexos de Superman e o agarra no ar.

— Não, tudo bem. — Balanço a cabeça, com as bochechas ardendo. — Mas obrigada. Pela bebida. A primeira.

E por mandar embora o cara que passou a mão em mim, com o rabo entre as pernas. E pelo paletó. E por não me jogar porta afora vestida só com a minha pele.

As dívidas entre nós estão se acumulando. Eu deveria agradecer por tudo o que ele fez, mas não consigo. Porque eu poderia ter saído dessa encrenca sozinha.

Eu deveria ter saído, aliás. Sentar e deixar um homem aparecer para me salvar não é mais a minha história. Nada de Príncipes Encantados. Nada de Felizes para Sempre.

É verdade que eu tenho pais adotivos malignos demais, mas é aí que as semelhanças acabam.

O Príncipe Testosterona está mexendo em alguma coisa atrás de mim, no bar, enquanto eu passo por cima do vestido destruído e vou mais para fora, até a sacada. O ar da noite está quente e úmido. Um burburinho de vozes se atropelando sobe direto da multidão lá embaixo.

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