Capítulo 6 6

“Onde ele está? Ouvi dizer que talvez esteja assistindo pelas câmeras de segurança. Eu estou bem?”

“Não vi o Ivan nenhuma vez desde que cheguei. Duvido que ele esteja aqui. Homens como ele nunca aparecem nas próprias festas.”

“A Portia colocou silicone. Como se fosse por isso que o Ivan nunca olhou duas vezes pra ela. Esquece os dentes de cavalo e a personalidade bege; ela acha que era por causa dos peitos. Ah, vai se foder. Cai na real.”

Essa conversa sobre o Ivan está explodindo a minha cabeça. É como se ele pudesse estalar os dedos e dar a cada mulher da propriedade um orgasmo instantâneo no ponto G. Já convivi com um monte de pavões empombados e presunçosos na minha vida, mas nenhum deles jamais despertou esse tipo de devoção.

Talvez eu devesse ficar por aqui e descobrir quem é esse cara.

Mal o pensamento me atravessa e eu vejo um homem se separar da multidão lá embaixo. Ele sai, depois estica o pescoço para olhar as luzes de cordão penduradas acima.

“O Boris deve estar torcendo pra encher o Ivan de bebida o bastante pra convencê-lo a casar. Por que mais teria bandejas intermináveis de champanhe e nem um petisco à vista?”

Eu me abaixo, voltando a me esconder, e prendo a respiração. Tomara, meu Deus, que eu tenha me escondido a tempo. Dizer que meu coração veio parar na garganta não é metáfora. Eu sinto gosto de sangue. O gosto metálico do medo.

Porque eu reconheceria aquela voz em qualquer lugar.

E, se o monstro do meu padrasto me vir aqui, não dá pra saber o que ele vai fazer.

“Ou então”, ele arrasta as palavras, “ele está esperando que alguma mulher respeitável beba o bastante pra esquecer que o Ivan é um sádico do caralho.”

A voz do meu padrasto vai sumindo conforme ele avança pela multidão, mas eu fico onde estou. Não consigo me mexer. Mal consigo respirar.

Fazia anos que eu não ficava tão perto dele. Será que ele sentiu o quanto eu estava próxima? A pele dele se arrepiou de nojo como a minha?

Duvido muito. Por que arrepiaria?

Monstros nunca fogem da própria presa.

7

CORA

“Você parece assustada.”

A voz atrás de mim desequilibra a delicada estabilidade que eu estava mantendo nesses saltos. Eu me inclino pra frente, me seguro no corrimão e me puxo de volta na hora, pra garantir que meu padrasto não me veja. A brisa é fria nos lugares errados.

Eu me recomponho até parecer minimamente estável. “Hã?”

“Essa expressão no seu rosto. Como se você tivesse visto um fantasma.”

“Eu tô bem. Sem fantasmas. Só… tô repensando aquela bebida.” Eu já bebi um pouco mais do que o meu limite normal de uma saída à noite, mas eu faço qualquer coisa pra passar mais alguns minutos nesse cômodo, a salvo do bicho-papão do meu passado.

Eu preciso de tempo pra bolar um plano de fuga.

“Álcool não vai melhorar a sua situação”, ele comenta, virando-se para o bar e servindo uma segunda bebida pra mim mesmo assim.

“Que situação?”

Ele olha por cima do ombro, a sobrancelha escura arqueada. “Você realmente precisa que eu explique?”

Eu cerro os dentes. “Quer saber? Você faz pose de herói — me salvando de um cara bêbado lá embaixo e oferecendo seu casaco —, mas você é meio babaca.”

“Só ‘meio’?”

“Ah, me desculpa. Você prefere ser um babaca completo?”

Ele vem até mim com um sorriso de canto e um drinque novo. “Se é pra fazer alguma coisa, é melhor ir até o fim.”

Faço uma careta, mas pego a bebida e viro metade de uma vez. O álcool queima descendo pela garganta. Ainda tem um gosto horrível, mas eu não estou aqui pelo sabor. Se vou sair desta sala com minhas partes aparecendo debaixo de um paletó emprestado, preciso de um pouco de coragem líquida.

— Agora — ele continua —, você vai continuar trocando farpas ou vai me dizer por que ficou tão assustada agora há pouco?

Balanço a cabeça.

— Eu não estou assustada.

Pelo menos não mais.

Não tenho vontade nenhuma de ver meu padrasto ou reviver qualquer parte do meu passado, mas não tenho medo dele. Eu escapei, e ele ainda não me encontrou. Pelo que me diz respeito, isso significa que eu venci.

— Você viu alguma coisa. Ou alguém. Quero saber quem era.

— Ninguém. Não foi nada. Eu só, ahn… tropecei. — Ergo uma perna para mostrar meus saltos. — É o que eu ganho por usar sapatos nada práticos. Eu devia sempre me lembrar de usar sapatos com os quais eu consiga correr.

— Você fala isso como se estivesse sempre pronta para correr.

Eu me viro. Ele está muito mais perto do que estava um segundo atrás. O mundo desaparece enquanto ele entra em foco absoluto.

Os lábios dele estão curvados, lindos. Eu não tinha notado antes, mas marcas de tinta preta saem da gola da camisa, se enrolando pelo pescoço grosso.

— Você tem tatuagens.

— Você está mudando de assunto.

— Você também estava. Antes. Isso me faz pensar que você está escondendo alguma coisa.

— Estou — ele admite sem rodeios. — Mas não estou mentindo para você. Você está mentindo para mim, Francia?

O nome falso cai entre nós com um baque estranho.

— Não.

Ele chega ainda mais perto.

— Você viu seu namorado lá embaixo no meio da multidão? Talvez um marido? Você tem um ar de culpa.

— Você reconhece esse olhar, hm? Talvez seja por isso que sabe tanto sobre os casos de todo mundo — porque é você quem os provoca.

— Eu não sei nada sobre você nem sobre os seus. — O olhar dele escorre pelo meu rosto como mel, lento e doce. — Quem é você?

Mordo o lábio e volto a me virar para a porta. Dou um passo lento à frente. Depois outro. Meu padrasto se foi, então posso me permitir relaxar contra a moldura da porta como se não tivesse nada a esconder.

— Não sou esposa nem namorada de ninguém, posso te prometer isso. E, ao contrário de todo mundo aqui, não tenho vontade nenhuma de ser. Fico bem sozinha.

— Eu não acredito em você.

Viro a atenção para ele num estalo.

— Como é?

— Eu não acredito em você. Você viu alguém na multidão. Mas, se não quer me contar, tudo bem. Não me importa quem foi.

Eu devia negar, mas ele enxerga direto através de mim.

— Por que não?

— Porque não existe uma única pessoa nesta festa capaz de me impedir de fazer o que eu quero.

O arrepio que percorre minha espinha já é motivo suficiente, por si só, para eu dar o fora daqui. Eu deveria estar me divertindo, não caindo numa luxúria devastadora por um estranho bonito.

Mas não consigo ir embora. Porque, pela primeira vez em… bem, talvez na vida inteira, eu me sinto segura. Sinto que, se meu padrasto atravessasse esta porta, esse homem se colocaria entre nós dois sem hesitar.

— Eu não preciso que você me proteja.

Ele tamborila o dedo na lateral do copo.

— Eu vi você tentando se livrar do Stefanos lá embaixo. Você fez o seu melhor, mas não foi o bastante, foi?

— Eu não gosto de sair usando meu kung fu em civis — brinco, sem graça. — Prefiro resolver as coisas sem violência.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo