Capítulo 3
Alice tirou as sandálias molhadas debaixo dos pés congelados, chutando-as para o lado enquanto entrava. Já fazia trinta minutos desde que a chuva parou, então ela pendurou o guarda-chuva do estranho na haste, não muito longe de onde suas sandálias estavam. Ela ainda não conseguia tirá-lo da cabeça.
O estranho com a máscara.
O que ela não conseguia entender era quem era esse estranho e por que ele decidiu ajudá-la...
Ela pensou enquanto dava mais uma olhada no belo guarda-chuva vermelho antes de ir para a cozinha preparar um chá quente ou talvez um café.
Ela acabou optando por um café quente e fumegante, enquanto sua mente vagava pelos trabalhos exaustivos do passado.
Ela se acomodou no sofá creme com a caneca de café na mão, seus dedos direitos firmemente enrolados na alça. Suspirou de alívio e levou a borda da caneca aos lábios, bebendo lentamente. Estava mais quente do que ela esperava, então ela tomou seu tempo.
Seus olhos voltaram para o guarda-chuva vermelho que ela havia cuidadosamente colocado na sala de estar, perto da porta. Havia algo no vermelho que talvez ela desprezasse um pouco.
Seria porque a fazia lembrar de sangue? Algo que a lembrava de quem ela era ou de onde pertencia.
No entanto, parecia caro, mais caro do que ela imaginava que um guarda-chuva aleatório seria. Só que esse guarda-chuva não era 'aleatório' porque seu dono não parecia aleatório para ela.
Carro caro. Terno caro. Perfume forte que a deixou tonta de tão bom que era.
Ele era tudo, menos 'aleatório'.
Talvez fosse por isso que ela estava disposta a se molhar um pouco mais do que deixar o guarda-chuva se molhar mais.
Talvez fosse a razão pela qual ela o deixou pingando na sala de estar em vez de deixá-lo lá fora, onde seu próximo destino seria incerto e talvez perigoso.
Ela deu outro gole, deixando a nova frescura do café percorrer sua língua enquanto seus olhos se afastavam do guarda-chuva 'não aleatório' para descansar nas pulseiras douradas desbotadas que estavam no centro da mesa de madeira. Foi o primeiro presente que seu falecido pai lhe deu, no seu décimo aniversário. Foi o primeiro e último que ela recebeu e ela valorizava muito. Já estava desbotado, tão desbotado que ela estava começando a pensar em se desfazer dele, mas não conseguia, nunca conseguiria se desfazer da única coisa que a lembrava do homem que ela amava e estimava tanto.
Ela deu outro gole no café agora frio, perdendo o interesse, esticou-se para colocá-lo na mesa. Em seguida, passou a palma da mão direita na nuca por causa da dor que sentia.
Estava tão ensolarado, o sol brilhava intensamente no céu.
"Você não vai me pegar." Sua versão mais jovem gritou feliz enquanto corria o mais rápido que suas perninhas podiam.
"Espere até eu te pegar." Uma voz masculina mais velha disse e correu atrás dela, tentando desacelerar para não alcançá-la muito cedo.
Ele finalmente a alcançou e a pegou do chão, fazendo cócegas com os dedos direitos.
Ela podia ouvir sua versão mais jovem rindo alto enquanto jogava os braços para os lados com a cabeça inclinada para trás.
Ela sorriu enquanto ficava ali observando tudo acontecer.
Essa era uma das memórias de seu pai que ela raramente visitava. Um dos momentos felizes que ela gostava de reviver apenas nos momentos em que realmente precisava.
Essa era a única coisa incrível sobre seus poderes, os poderes de visitar sonhos. Seus próprios sonhos, na maioria das vezes, já que era até onde ela tinha ido. Ela nunca tentou visitar os sonhos de outras pessoas, então não sabia se podia e nunca se via fazendo isso um dia. Para ela, parecia que estaria invadindo demais, já que sonhos eram mais do que apenas sonhos. Eles são memórias, dolorosas e felizes, que realmente ajudam as pessoas a lidar com o passado, enfrentar o presente e, principalmente, ter esperança para o futuro.
Ela observou sua versão mais jovem correr no momento em que foi colocada no chão, rindo e desafiando seu pai a alcançá-la.
Como ela havia imaginado, ele era alto, com cabelo preto, rosto redondo e olhos questionadores. Olhos que também mostravam calor.
Sorrindo, ela se virou para o lado para reviver outra memória.
"Parabéns pra você! Nesta data querida! Muitas felicidades, muitos anos de vida! Viva!" Seu pai cantava calorosamente e de todo o coração enquanto batia palmas.
Ela podia ver sua versão mais jovem radiante de alegria, um sorriso caloroso fixo em seus lábios. Um que ela não tinha certeza de ter tido nos seus próprios lábios há muito tempo.
Era seu décimo aniversário, o primeiro que ele havia celebrado para ela porque não podia se dar ao luxo de fazer isso todos os anos.
"Vamos comemorar seu aniversário a cada dez anos, ok." Ele havia dito a ela alguns dias antes do aniversário.
Alice sentiu uma lágrima escorrer pela bochecha direita enquanto observava seu pai estender a caixa rosa para sua versão mais jovem.
"Abra." Ele disse calorosamente no momento em que ela pegou a caixa e a viu mexer nela por um tempo antes de ouvir o clique e abrir.
"É tão lindo." Sua versão mais jovem exclamou, sua voz mostrando o quanto estava emocionada. Seus olhos absorvendo a beleza das pulseiras, a dourada com listras azuis.
"Eu não sabia se você iria gostar, então eu só..." Ele estava dizendo antes que ela o interrompesse, estendendo-se e puxando-o para um abraço, um abraço caloroso.
"Eu adorei, pai. Obrigada." Ela disse, soando emocionada enquanto segurava firmemente a caixa na mão direita para que não caísse e quebrasse.
Seu pai suspirou de alívio e envolveu os braços ao redor dela, acariciando suas costas gentilmente.
Alice não conseguia mais lembrar quanto tempo o abraço durou, mas sabia que foi para a cama naquela noite com um sentimento misto de felicidade e tristeza. Triste porque ele teve que se esforçar demais para lhe dar um presente e feliz porque ele a amava o suficiente para lhe dar um. Um presente que ela sabia que iria valorizar para sempre.
No fundo, ela sabia que, se quisesse, poderia continuar revivendo todas as suas boas memórias, mas duvidava que quisesse. Era algo que a drenava muito porque era como viajar no tempo, voltar ao passado e tudo mais.
Ela teve um longo dia de trabalho hoje e sabia que teria um dia ainda mais agitado amanhã, já que foram informados que a grande empresa viria inspecioná-los e algo sobre importação. Ela mal conseguia lembrar, já que não prestou muita atenção em nenhuma das palavras. Afinal, isso não fazia parte do seu trabalho.
Tudo o que ela era, era uma mensageira e sabia que não deveria ultrapassar seus limites.
Ela saiu de suas memórias e abriu os olhos para encarar o espaço vazio à sua frente.
De volta ao seu espaço solitário.
De volta àquele lugar que era desprovido de amor, família ou afeto.
Ela estava de volta à sua vida solitária.
Talvez ela fosse grata por ter as memórias para se apegar.
Ela estendeu a mão direita para pegar sua caneca e a levou aos lábios. Agora estava tão fria, tão fria que ela sabia que poderia vomitar só de beber.
Levantando-se do sofá, que ela tinha certeza de que estava aliviado por se livrar de seu peso, ela foi até a cozinha, despejando o conteúdo na pia e colocando a caneca lá. Ela sabia que tudo o que precisava fazer era enxaguá-la e colocá-la de volta, mas estava cansada demais para isso.
Ela soltou um bocejo alto e saiu da cozinha, apagando a luz da cozinha e da sala antes de ir para o quarto. Ela tinha mais contas para pagar e temia adicionar mais contas de luz desnecessárias.
Ela acendeu a vela e soprou suavemente o fósforo antes de jogá-lo no escuro e encontrar o caminho para a cama.
