Capítulo 1 EU QUERO VIVER !
Sempre fui aquela garota que seguia as regras. Pelo menos, era isso que todo mundo pensava quando olhava para mim. Filha comportada, estudante que não dava muito trabalho e menina que, apesar de gostar de uma boa diversão, sabia a hora de voltar para casa.
Só que ninguém imaginava a bagunça que existia dentro da minha cabeça.
Meus pais nunca foram exatamente exemplos de carinho e companheirismo. Não posso dizer que cresci passando necessidade, porque nunca faltou comida na mesa nem um teto sobre a minha cabeça. Não somos ricos, mas sempre tivemos o suficiente para viver. O problema é que, às vezes, uma casa pode ter tudo de que precisa e, ainda assim, faltar justamente aquilo que mais importa.
Amor.
E, sinceramente? Eu já estava cansada de fingir que não percebia.
Desde pequena, aprendi a me virar emocionalmente sozinha. Meus pais estavam ocupados demais com os próprios problemas para notar quando eu precisava de um conselho, de um abraço ou simplesmente de alguém que perguntasse como tinha sido meu dia e realmente quisesse ouvir a resposta.
Por isso, sempre encontrei meu espaço fora de casa.
Tenho amigos de todos os tipos e de todos os lugares, mas confesso que me identifico muito com a galera das comunidades. Gosto da energia, das brincadeiras, das amizades que começam com uma implicância e terminam em histórias que a gente conta durante anos.
E os bailes funk?
Ah, meu amor, não me faça começar!
Eu gosto mesmo é da música alta, das luzes, das amigas dançando sem se preocupar com a opinião alheia e daquela sensação de que, por algumas horas, o mundo inteiro pode estar desabando que ninguém vai conseguir estragar a nossa noite.
E não, antes que alguém resolva tirar conclusões precipitadas, gostar de baile não significa que eu seja aquilo que algumas pessoas adoram insinuar.
Eu sei muito bem quem sou.
Posso gostar de dançar, rir alto, usar uma roupa bonita e aproveitar a vida sem precisar dar satisfação a ninguém sobre minhas escolhas. Uma coisa não tem nada a ver com a outra, embora sempre exista alguém disposto a cuidar da vida alheia como se recebesse salário para isso.
Se cuidar da própria vida desse dinheiro, certas pessoas já estariam milionárias.
Mas enfim…
Daqui a duas semanas, completo dezoito anos. Dezoito! Finalmente vou chegar à idade que, na minha cabeça, representa liberdade, independência e a possibilidade de começar a tomar minhas próprias decisões.
Ou pelo menos é o que espero.
Já estou procurando uma maneira de ganhar meu dinheiro. Quero comprar minhas coisas sem precisar pedir, sair quando puder, guardar uma grana e, principalmente, conquistar meu próprio espaço.
Meu sonho é morar na Penha.
Conheço bastante gente por lá, tenho amizades que podem me ajudar a encontrar um lugar para ficar e acredito que seria uma oportunidade de começar uma vida diferente. Não estou dizendo que vai ser fácil. Sei que pagar contas, trabalhar e cuidar de uma casa não é igual a fazer planos deitada na cama, com o celular na mão.
Mas estou disposta a tentar.
Só quero ter a chance de descobrir quem sou quando não precisar viver de acordo com as expectativas de outras pessoas.
E tem mais uma coisa que desejo experimentar.
O amor.
Sim, eu sei. Parece até piada vindo de alguém que ainda nem completou dezoito anos e já está fazendo planos para sair de casa, mas fazer o quê? Sou uma romântica escondida atrás de uma garota que adora debochar de tudo.
Já fiquei com um único garoto na vida. Meu amorzinho da adolescência, aquele que fez meu coração bater mais rápido durante um tempo e que parecia ser a pessoa mais importante do mundo quando eu ainda não conhecia quase nada da vida.
Foi com ele que perdi a virgindade.
E, para ser bem sincera, não foi aquela experiência inesquecível que eu imaginava.
Não teve fogos de artifício, música romântica tocando ao fundo nem aquela sensação de que o universo tinha parado para assistir ao nosso momento. Foi apenas… uma experiência. Aconteceu, passou e ficou por isso mesmo.
Talvez eu tivesse criado expectativas demais. Talvez faltasse maturidade aos dois. Ou talvez simplesmente não fosse a pessoa certa.
Não sei.
Só sei que não quero passar a vida inteira aceitando qualquer coisa porque tenho medo de ficar sozinha.
Quero alguém que feche comigo de verdade. Um cara que esteja ao meu lado quando as coisas estiverem boas, mas que também não desapareça quando os problemas aparecerem. Alguém que me faça rir até a barriga doer, que me provoque só para me ver revirar os olhos e que saiba conversar comigo sem transformar tudo em uma disputa de orgulho.
Quero sentir aquele frio na barriga quando o celular tocar.
Quero sorrir feito uma idiota depois de receber uma mensagem.
Quero sentir saudade, vontade de encontrar, desejo de ficar mais cinco minutos quando já estiver na hora de ir embora.
Quero um amor que me tire um pouco do eixo, mas que não me faça perder quem sou.
Será pedir demais?
Porque, pelo andar da carruagem, parece que estou exigindo um milagre.
Eu não quero necessariamente um príncipe encantado. Até porque, se aparecer um homem montado em um cavalo branco na minha porta, provavelmente vou perguntar se ele está perdido.
Quero alguém de verdade.
Um amor intenso, daqueles que começam de um jeito inesperado e mudam os planos que a gente passou anos organizando. Um romance com risadas, provocações, cumplicidade e aquela dose de loucura que transforma dias comuns em lembranças inesquecíveis.
Só não sei se um dia vou encontrar isso.
Mas quero viver.
E, se depender de mim, ainda vou ter muita história para contar.
Naquela tarde, eu estava deitada na cama, mexendo no celular e imaginando como seria minha vida dali a alguns meses, quando ouvi as vozes dos meus pais vindo da sala.
Outra vez.
— Você nunca me escuta! — minha mãe reclamou.
— Ah, pronto! Lá vem você com essa conversa de novo! — meu pai respondeu, já demonstrando irritação.
Fechei os olhos por alguns segundos.
Lá vamos nós.
Ultimamente, parecia que a programação da minha casa tinha virado um canal de discussões vinte e quatro horas por dia. Não importava o motivo. Podia ser dinheiro, trabalho, alguma coisa que um tinha esquecido de fazer ou simplesmente o fato de os dois estarem no mesmo ambiente.
Sempre encontravam um jeito de discutir.
Aumentei o volume do celular, mas não adiantou. As vozes continuavam atravessando a parede, interrompendo qualquer tentativa minha de fingir que estava tudo bem.
Sentei na cama e fiquei olhando para a porta fechada.
Às vezes, eu me perguntava por que eles ainda estavam juntos.
Não via carinho, não via companheirismo e muito menos aquela vontade de fazer o outro feliz. O que existia era uma convivência desgastada, cheia de cobranças e palavras atravessadas. Pareciam duas pessoas que já tinham desistido uma da outra, mas continuavam dividindo o mesmo teto porque mudar dava trabalho demais.
Talvez fosse comodismo. Talvez fosse medo. Talvez existissem motivos que eu, como filha, não conhecia.
Mas uma coisa eu sabia: não queria aquilo para mim.
Deus me livre passar anos ao lado de alguém e terminar vivendo como uma estranha dentro da própria casa.
Eu queria olhar para a pessoa que estivesse comigo e sentir vontade de ficar. Queria que ela também sentisse isso. Queria construir alguma coisa bonita, mesmo que a vida tentasse complicar tudo.
— Eu não aguento mais! — minha mãe gritou.
Revirei os olhos.
Nem eu, mãe. Nem eu.
Levantei da cama, caminhei até a janela e fiquei observando o movimento da rua. Lá fora, a vida parecia seguir normalmente. Um vizinho conversava no portão, duas crianças corriam pela calçada e alguém passava ouvindo música tão alto que dava para reconhecer a batida mesmo com a janela fechada.
Sorri de leve.
Era disso que eu precisava: sair, respirar e começar a viver minhas próprias experiências.
Eu sabia que não tinha todas as respostas. Ainda tinha muito para aprender e provavelmente cometeria alguns erros pelo caminho. Mas não queria passar a juventude inteira esperando que alguém me desse permissão para ser feliz.
Meu aniversário estava chegando.
Minha independência também precisava começar a sair do papel.
E, quanto ao amor…
Bom, esse eu deixaria para a vida resolver.
Só esperava que a vida tivesse bom gosto.
Porque, se aparecesse mais um garoto sem atitude, cheio de conversa e com a maturidade emocional de uma colher, eu juro que pediria meu dinheiro de volta.
Mesmo sem ter pagado nada.
Soltei uma risada sozinha, balançando a cabeça diante dos meus próprios pensamentos.
Eu ainda não fazia ideia de que meus planos estavam prestes a tomar um rumo completamente diferente.
Não sabia quem cruzaria meu caminho, quais escolhas me colocariam diante de situações que jamais imaginei enfrentar ou quanto minhas certezas seriam testadas.
Naquele momento, eu só queria completar dezoito anos, ganhar meu dinheiro, conquistar minha liberdade e encontrar alguém que fizesse meu coração bater mais forte.
Parecia simples.
Mas a vida, como eu descobriria mais tarde, tinha uma mania irritante de transformar os planos mais simples nas histórias mais complicadas.
E a minha estava apenas começando.
