Capítulo 1

Aos dezoito anos, entreguei minha virgindade a Hunter na cama dele.

Engoli toda a dor e hesitação, acreditando, com ingenuidade, que três anos de uma paixão patética finalmente tinham me garantido um lugar no coração dele.

Até a manhã seguinte, quando ouvi as zombarias descaradas dos colegas de time:

— Caralho, você finalmente pegou a nerd? E aí, como foi?

Hunter deu uma risada de escárnio, o tom escorrendo desprezo absoluto.

— Só pra brincar. Se eu for sair com uma namorada de verdade, tem que ser alguém do nível da Serena — capitã das líderes de torcida.

Sem dizer uma palavra, abri o portal de inscrições da faculdade, apaguei aquela porcaria de universidade estadual daqui da cidade que eu tinha escolhido só para ficar com ele e mudei de volta para Yale.

Ele tinha certeza de que eu o seguiria cegamente, até que, no dia da mudança, me ligou por videochamada e surtou completamente ao ver quem estava ao meu lado: o próprio meio-irmão dele.

.....

Assim que cheguei ao patamar da escada, a gargalhada estridente da sala de estar, lá embaixo, me pregou no lugar.

— Porra, finalmente fez um test drive da mercadoria? — um colega de time dele zombou em voz alta. — E aí, como é a nerd na cama, com aquela gola sempre abotoada até em cima?

Hunter não respondeu, oferecendo apenas uma risadinha baixa e desprezível. Um segundo depois, tocou um vídeo no celular e aumentou o volume no máximo.

— N-não... Hunter, tá doendo um pouco.

Um apelo choroso misturado a uma respiração ofegante e contida — a minha voz — explodiu com uma nitidez cristalina na sala.

— Não vou mostrar o vídeo — disse Hunter, com desdém. — Mas vocês podem ouvir o áudio.

— Caralho! Esse gemido é tão de puta!

— Aquela renda rosa não é praticamente nada. Você mandou ela vestir e ela vestiu mesmo?

— Manda o vídeo no grupo! Não fica só com o áudio!

— Vão se foder — Hunter riu, preguiçoso. — Acham que eu tô administrando um site pornô gratuito?

Meu estômago revirou violentamente. Mordi com força o dorso da mão, e o gosto metálico de sangue inundou minha boca na hora.

— Então, vai levar a nerd pro tailgate hoje à noite? — alguém instigou.

— Você tá maluco? — Hunter nem tentou esconder o desprezo. — Eu não seria pego morto levando ela pra um negócio desses. Se eu for levar alguém, tem que ser alguém do nível da Serena.

— Não tá com medo de a nerd surtar e sair correndo?

— Correr pra onde? — Hunter soltou um sorriso de deboche. — Por minha causa, ela tirou Yale da lista e deixou só a estadual daqui. Além de ficar me seguindo que nem um cachorro vira-lata, ela não tem pra onde ir.

Meu coração se contraiu com violência, e o sangue gelou nas minhas veias.

Olhei para a renda rosa grudada no meu corpo.

Uma corrente de ar frio subiu pela escada, transformando na hora a doçura melada da noite passada numa lâmina que esfolou viva cada migalha da minha autoestima.

— Vou subir pra ver se ela já acordou. — Os passos de Hunter começaram a vir em direção à escada.

Em pânico, agarrei um moletom enorme jogado no corrimão, enfiei por cima do corpo e disparei para dentro do armário de despejo.

Escorreguei pela parede até o chão gelado, as lágrimas derramando com violência, sem ousar fazer um som.

O “carinho” que eu achei que tinha recebido nos últimos três anos passou pela minha cabeça como um rolo de filme — agora exibindo suas presas incrivelmente feias.

O estacionamento depois da aula.

Prendendo-me com força contra a porta da caminhonete dele, me beijando até me deixar sem fôlego, o polegar limpando o canto dos meus lábios: “Não se esconda. Deixa aqueles idiotas verem que você é minha.”

A biblioteca durante o intervalo do almoço.

Enlaçando minha cintura por trás, num ponto cego entre as estantes, a mão dele enfiando sem pudor por baixo da barra da minha saia plissada.

E os cantos das festas. De propósito, derramando álcool na minha boca, o polegar roçando de um jeito sugestivo no meu lábio inferior úmido.

Ouvindo as cantadas e gritos ao nosso redor, ele sorriu com intenção: “Ignora. Olha só pra mim.”

Eu achava que era favoritismo, uma possessividade não dita.

Só agora eu entendia por completo: aquilo não era amor coisa nenhuma. Era só o Hunter, centímetro por centímetro, devorando meus limites em público — um exercício doentio de submissão, pra se exibir pra turma dele.

Meu corpo, que eu tinha entregado por um amor profundo e verdadeiro, era só um troféu pra ele — algo a ser passado adiante com descaso e julgado.

Peguei meu celular, me forçando a parar de tremer.

Mensagens do Hunter.

[Ta acordada?]

[Se quiser mais, vem me achar.]

[Tem festa hoje à noite, você não foi convidada. Pega um Uber pra casa.]

[Não esquece de comprar a pílula do dia seguinte. Seja uma boa menina, não me arruma problema.]

Nada de cuidado depois, nada de calor. O tom era exatamente o de quem dispensa um brinquedinho sexual barato, de plantão.

Fugi de volta pro meu próprio apartamento. Apavorada com a ideia de topar com alguém que pudesse me reconhecer, eu não fui à farmácia.

Comprei o anticoncepcional online.

Depois que o entregador pendurou o saco de papel na maçaneta e foi embora, esperei dez minutos inteiros antes de entreabrir a porta pra pegar.

O comprimido, com gosto de giz, arranhou minha garganta; a ardência aguda e física me trouxe uma clareza sem precedentes.

No silêncio morto, aquele áudio nojento criou raízes no meu cérebro, tocando em loop infinito.

A tela do meu celular acendeu com o nome da minha melhor amiga, Lily.

Atendi.

“Chloe! Você é literalmente maluca! Você falou sério quando largou Yale por aquele quarterback?” A voz furiosa da Lily estourou no alto-falante.

Eu abri a boca seca, mas não consegui emitir um som.

“Olha isso!” Sem perder o ritmo, Lily virou a câmera pra mostrar o tablet ao lado dela.

Na tela, havia um vídeo de empolgação de tailgate que estava explodindo no Snapchat.

Serena estava montada no colo do Hunter. Eles estavam colados, e as mãos do Hunter apertavam, sem a menor vergonha, a cintura dela.

“Todo mundo naturalmente acha que eles são o casal oficial!” Os olhos da Lily estavam vermelhos de raiva. “O Hunter é um brutamontes famosinho que não seria ninguém fora dessa cidade! Você não pode jogar Yale fora por um lixo desses!”

Eu encarei a tela escurecida do vídeo da festa, meu coração se contraindo uma última vez.

Três anos de desejo patético e ansiedade viraram cinzas naquele exato segundo.

Puxei meu laptop pra perto e entrei no Common App.

Olhando para a inscrição da faculdade estadual local, com a qual eu tinha me conformado por causa do Hunter, a agonia de arrancar meu passado da própria carne me engoliu.

Puxando o ar pra segurar as lágrimas, cliquei em Excluir.

Então, na barra vazia de busca de faculdades, digitei Yale e confirmei minha inscrição em Early Action.

Ouvi minha voz calma: “Lily, nós vamos pra Yale juntas.”

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