Capítulo 3

O tapa ecoou agudo pelos armários de metal.

Hunter levou a mão à bochecha. O choque ficou estampado no rosto dele por menos de um segundo antes de ser engolido por pura fúria.

— Você tá maluca? Por que diabos você me bateu? Você disse que acabou? Repete isso. Eu duvido!

Ergui o queixo, já não sendo mais a garota tímida que costumava olhar para ele com medo.

— Eu disse que acabou. É tão difícil de entender?

Ele congelou. Estava acostumado demais à minha submissão, acostumado demais a eu fazer o dever dele e levar água para ele nas arquibancadas.

— Repete mais u—

— Ora, ora... que drama é esse?

Serena se enfiou no meio da roda. Com o uniforme justo de líder de torcida, ela tinha um sorriso de deboche, teatral, brincando nos lábios.

— Chloe, você não levou aquela postagem do fórum a sério, levou? O Hunter só estava brincando com os caras, dizendo que você era “fácil de enrolar”. O quê, não aguenta? Ou tá fazendo charme?

Uma explosão de risadas irrompeu da multidão.

Serena de repente entrou no meu espaço, baixando a voz para um sussurro venenoso:

— O Hunter disse que o jeito que você tira a roupa pra ele na cama é tão barato que dá nojo. Você transou com ele uma vez e acha mesmo que é a namorada oficial dele? Acorda. Você não é nada além de uma trepada de graça.

Por instinto, levantei a mão e empurrei ela. Mal usei força.

Mas Serena soltou um grito exagerado, se jogando para trás e desabando com força no chão.

— Meu Deus! Por que você tá me atacando?! — lágrimas brotaram imediatamente nos olhos dela.

— Já terminou de agir como uma louca?!

Com um rugido furioso, Hunter me empurrou para o lado e foi ajudar Serena a se levantar. Ele me encarou como se eu fosse uma psicopata. — Você é inacreditável! Pede desculpas pra Serena, agora!

Vendo-o bancar o herói protetor, eu só senti o quanto tudo era ridículo. — Por que eu pediria desculpas?

— Porque você empurrou ela! Você tá me fazendo passar a maior vergonha! — furioso e humilhado, Hunter se levantou e me deu um empurrão violento.

Eu ainda estava com febre. Perdendo o equilíbrio, minhas costas bateram com tudo na caixa metálica do alarme de incêndio.

Uma dor aguda e surda explodiu pela minha coluna. Minha visão embaçou rápido, manchas pretas engolindo o que eu via, até eu desabar direto no chão.

Quando acordei, o cheiro acre de água oxigenada bateu no meu nariz. Eu estava na enfermaria.

— Você acordou?

Hunter estava sentado na beirada da maca, rolando a tela do celular com impaciência. — Chega. Me dar um tapa, empurrar os outros e agora se fazer de morta? Tá se divertindo?

Ele me encarou, exibindo um sorriso convencido e arrogante. — Não importa o quanto você faça birra: quando a gente for pra State U neste outono, você ainda vai ficar grudada em mim do mesmo jeito. Essas suas gracinhas não funcionam comigo.

Antes mesmo de eu abrir a boca, o celular dele tocou.

Na tela, apareceu: “Serena💖”.

A expressão de Hunter se suavizou na hora. Ele atendeu, a voz baixando para um sussurro carinhoso. — O que foi? Tá bom, tô indo.

Ao desligar, ele se levantou e olhou para mim de cima, com desdém.

—Esfria a cabeça. Para de agir feito louca e me envergonhar.

Com isso, ele saiu sem olhar para trás.

Nos dias seguintes, comprei minha passagem e fiz as malas no meu apartamento, me preparando para Yale.

Enfiei a mão na caixa de armazenamento e tirei aquele álbum de fotos antigo. Eu torcendo pelo Hunter à beira da piscina no acampamento de verão, de braços dados com ele no baile de formatura... Um dia, eu tive tanta certeza de que aquilo seria para sempre.

Até eu ver o story da Serena no Instagram — o Corgi dela estava usando um cachecol azul-escuro tricotado à mão. Exatamente o cachecol que eu tinha virado três noites seguidas fazendo para ele.

E agora mesmo, no meu pulso, estava a pulseira de prata que o Hunter jurou que era “feita sob medida só para mim”. Ontem, uma idêntica apareceu no pulso da Serena, exibida para o mundo inteiro ver.

Por fim, a verdade cruel caiu sobre mim como uma onda.

No coração do Hunter, eu nunca fui ninguém especial.

Uma única lágrima escorreu em silêncio pela minha bochecha.

Eu a enxuguei com força.

Soltei o fecho da pulseira e a atirei, junto com o álbum inteiro, direto no saco de lixo.

Pegando o celular, abri o contato do Hunter.

Sem hesitar nem por um segundo, toquei: Bloquear. Apagar.

A partir daquele momento, o mundo dele e o meu estavam separados para sempre.

No dia da recepção, eu cheguei a Yale.

—Chloe! —Lily veio correndo, acenando com um folheto de orientação. —Anda! Vou te levar pra conhecer o capitão do time de Decatlo Acadêmico!

Ao longe, um rapaz de casaco de lã bem cortado estava parado nos degraus de pedra, conversando com um professor.

Ele virou a cabeça.

Olhos castanho-escuros e um porte impecável. Quando me viu, congelou por uma fração de segundo antes de um sorriso caloroso ondular nos olhos dele.

—Chloe? —Ele veio a passos largos, a voz grave e gentil. —Eu nunca imaginei ver seu nome na lista de orientação, vizinhazinha.

Eu encarei aquele rosto familiar, e lembranças empoeiradas me inundaram na hora. —Julian?

O menino que se mudou quando a gente tinha doze anos, o único que queria sentar nos degraus da varanda e discutir lógica comigo.

—Parece que o inverno em Yale não vai ser tão entediante assim —Julian sorriu, estendendo a mão com naturalidade para pegar minha bagagem.

Foi aí que meu celular começou a vibrar furiosamente.

Era uma chamada de vídeo do William, amigo do Hunter.

Eu aceitei.

—Que porra você tá fazendo?!

A voz do Hunter, tomada de raiva e pânico, estalou no alto-falante. —Você bloqueou meu número em tudo?! Eu tive que pegar um celular emprestado só pra conseguir falar! Eu apareci na State U hoje — por que diabos você não tá aqui? Você nem tá na lista de calouros! Onde é que você tá, porra?!

Meu tom foi completamente neutro. —Onde eu estou não é da sua conta.

Percebendo que tinha algo estranho, Julian parou ao meu lado. Ele se inclinou um pouco, a silhueta alta refletindo na câmera frontal do meu celular.

Na tela, os músculos do rosto do Hunter se retorceram em choque. A voz dele ficou mais aguda, perdendo totalmente o controle:

—Chloe... por que diabos você tá com o meu meio-irmão?!

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