Capítulo 3 SERÁ QUE AS PALAVRAS DELE ERAM VERDADEIRAS?
Gracia estava em seu ateliê de arte quando, ao olhar pela janela, se surpreendeu ao ver um caminhão de mudanças estacionar na casa ao lado da mansão. Intrigada, saiu para verificar e, justamente naquele momento, Fernando chegou de carro, logo atrás do caminhão.
Mariana desceu do banco do passageiro carregando uma mala.
Sem conseguir conter a inquietação, Gracia correu até eles.
—Fernando, o que está acontecendo? —perguntou, apontando para os funcionários que descarregavam os pertences de Mariana.
—Meu amor, como você está? —respondeu ele, dando-lhe um beijo rápido nos lábios.— Trouxe a Mariana para morar na casa ao lado. O médico disse que a gravidez é de alto risco e que precisamos acompanhar tudo de perto, pelo bem do bebê.
—Mas você deveria ter conversado comigo antes. Achei que as decisões sobre o futuro do nosso filho seriam tomadas por nós dois.
O tom de reprovação em sua voz era inevitável.
Cada vez mais, Gracia percebia que a relação entre Fernando e sua secretária estava longe de ser tão distante quanto ele havia afirmado.
Nesse instante, Mariana apareceu carregando uma sacola cheia de objetos.
Assim que seus olhares se cruzaram, Fernando sorriu para ela com uma ternura desconcertante, como se aquele gesto fosse a coisa mais natural do mundo.
—Quer que eu ajude? —perguntou, caminhando apressado até ela.
Gracia observou a cena em silêncio por alguns segundos.
Depois, virou as costas e voltou para a mansão.
Nos dias que se seguiram, Mariana parecia morar mais na casa principal do que na vila ao lado.
Passava a maior parte do tempo ao lado de Fernando e, todas as manhãs, era ele quem a levava para o trabalho.
Em uma dessas manhãs, Mariana apareceu justamente na hora do café da manhã.
—Bom dia! Que delícia... Está tudo com uma cara ótima. Posso comer com vocês?
Gracia largou os talheres, claramente incomodada.
Fernando, por outro lado, levantou-se imediatamente para puxar uma cadeira para ela.
—Claro. Vou pedir para a Clarisa preparar alguns ovos para você.
Tudo foi dito com absoluta naturalidade.
Gracia permaneceu calada.
Limpou os lábios com o guardanapo e perdeu completamente o apetite.
Fernando continuou tomando café como se nada tivesse acontecido.
Poucos minutos depois, olhou para o relógio e levantou-se às pressas.
—Preciso ir. Já estou atrasado.
Mariana também se levantou.
Sem qualquer constrangimento, aproximou-se dele, ajeitou sua gravata com delicadeza, ficou na ponta dos pés e depositou um beijo em sua bochecha.
—Tenha um bom dia, Fernando.
Gracia arregalou os olhos.
Levantou-se abruptamente.
—O que está acontecendo entre vocês? Eu sou invisível, por acaso?
Fernando apenas sorriu, como se ela estivesse exagerando.
—Gracia, meu amor... o que foi agora? Não faça tempestade em copo d'água. A Mariana só está se despedindo.
—Ela não precisa beijar você! Isso é completamente absurdo!
Gracia alternava o olhar entre os dois, tomada pela indignação.
Fernando deu de ombros.
—Você sabe como é... A Mariana está grávida. Está mais sensível. Isso acaba deixando ela mais... carinhosa.
Gracia balançou a cabeça, incrédula.
Então Fernando aproximou-se dela e beijou sua bochecha.
—Aliás, meu amor, não precisa ir comigo ao leilão hoje à noite. A gente se vê em casa. Tchau.
—Mas, Fernando...
Ela ainda tentou protestar.
Era tarde demais.
Ele já havia saído sem sequer olhar para trás.
Um sorriso discreto de satisfação surgiu nos lábios de Mariana.
Ao perceber aquela expressão, Gracia teve uma certeza imediata.
Havia algo muito errado.
Naquela noite, sem avisar Fernando, decidiu comparecer ao leilão em segredo.
Assim que o evento começou, seu coração quase parou.
O primeiro item apresentado era uma joia que ela conhecia melhor do que ninguém.
Era o colar de ouro maciço de sua mãe.
O mesmo colar que desaparecera anos antes, quando sua madrasta se mudou para a casa da família e vendeu todos os pertences que pertenciam à falecida.
Sem pensar duas vezes, Gracia levantou sua placa.
—Mil! Temos mil da senhora de echarpe! Quem oferece mais? —anunciou o leiloeiro, empolgado.
Do outro lado do salão, outra placa foi levantada.
O lance dobrou imediatamente.
Gracia franziu a testa.
Ela não perderia.
Não de novo.
Muito menos aquele colar.
Ergueu a placa mais uma vez.
Mas o mesmo comprador respondeu sem hesitar, aumentando novamente a oferta.
Ela insistiu.
O outro lance veio imediatamente.
Quando percebeu que o valor já ultrapassava todo o dinheiro que havia levado, levantou-se decidida.
Precisava descobrir quem era aquela pessoa tão determinada a ficar com o colar.
Então ela viu.
Sentado ao lado de sua secretária mimada...
Estava Fernando.
Era ele.
Era Fernando quem aumentava os lances repetidas vezes.
Tudo para comprar aquele colar...
E entregá-lo de presente para Mariana.
—Fernando... —murmurou Gracia entre os dentes, sentindo a raiva consumir seu peito.
Ao vê-la, Fernando caminhou rapidamente em sua direção.
—Gracia... o que você está fazendo aqui? Eu pedi para você não vir ao leilão.
—Claro! Porque a Mariana estaria aqui, não é? O que diabos aconteceu com você, Fernando? E por que quer comprar o colar da minha mãe? Você sabe que eu passei anos procurando por essa joia!
—Meu amor... eu tinha esquecido completamente. Como eu poderia lembrar que esse era o colar da sua mãe? Por favor, se acalma...
—É o colar da minha mãe! Eu quero esse colar! Pode usar o dinheiro da nossa conta conjunta, eu não me importo. Mas essa joia é minha. Eu não vou perdê-la outra vez.
Sua voz tremia.
Não de medo.
Mas de indignação.
Fernando suspirou.
—Gracia, meu amor... você precisa deixar o passado para trás. Sua mãe já não está mais entre nós. E sinceramente, acho que ela não se importaria de ver a Mariana usando esse colar agora. O que realmente importa é o nosso filho, que vai nascer em breve.
—Não, Fernando. Esse colar significa tudo para mim. Você sabe quantas vezes eu chorei por causa dele. É a única lembrança da minha mãe que eu ainda poderia recuperar. Você não pode fazer isso comigo.
Fernando aproximou-se um pouco mais.
—Meu amor, pensa no nosso bebê. Mulheres grávidas costumam ter desejos e vontades inesperadas. Se elas forem contrariadas, isso pode fazer mal à saúde delas... até mesmo ao bebê. A Mariana realmente quer esse colar. Ela me pediu isso como um favor especial. Disse que ficaria muito feliz.
—Ah, por favor, Fernando...
A garganta de Gracia se fechou.
—Querida, pelo bem da gravidez dela... e principalmente pelo bem do nosso filho, deixa isso para lá. Não vale a pena discutir por causa de um colar.
Gracia empalideceu.
Fernando sempre soubera exatamente como manipulá-la.
E, quando as lágrimas cuidadosamente calculadas de Mariana entravam em cena, ela se sentia completamente derrotada.
Algo dentro dela se despedaçou.
—Eu não consigo acreditar nisso, Fernando! Eu sou sua esposa! Estamos juntos há tantos anos... O que está acontecendo com você?
Ela finalmente perdeu o controle.
Cansada de tanta humilhação, ergueu a mão e lhe deu um tapa no rosto.
Fernando respirou fundo e passou a mão pela face.
—Gracia, por favor... não faça um escândalo na frente de todo mundo. Não há necessidade disso. Se acalme e volte para casa.
Sua voz era fria.
Ele sequer voltou a encará-la.
Virou as costas e caminhou de volta para Mariana, deixando Gracia sozinha, imóvel, no meio da multidão.
Naquele instante, o chão desapareceu sob seus pés.
Ela observou o homem que um dia amou se afastando...
E, pela primeira vez, percebeu que ele já não era o mesmo.
Era um completo estranho.
Foi então que compreendeu, com uma dor devastadora, que havia deixado de ser importante na vida dele.
