Capítulo 4 O ACIDENTE
O que aconteceu no leilão foi o começo do fim para Gracia.
De volta para casa, ela olhou ao redor e começou a se perguntar se todos aqueles anos ao lado de Fernando realmente tinham valido a pena. Pior ainda... será que havia valido a pena fugir com ele e abandonar a própria família?
Tomada pela frustração, levantou-se bruscamente da cama e começou a andar de um lado para o outro pelo quarto.
A situação estava completamente fora de controle.
Ela e Fernando haviam feito um acordo, mas ele parecia agir como se esse compromisso nunca tivesse existido.
Será que seu marido mantinha um relacionamento com a secretária e estava usando a gravidez como desculpa para esconder a verdade?
Esse pensamento atravessou seu peito como uma lâmina.
O desespero tomou conta dela.
Na manhã seguinte, Gracia tomou uma decisão.
Vestiu-se como sempre, com a elegância discreta que a caracterizava, e caminhou até a sala principal.
Parou diante do grande quadro pendurado na parede.
Aquela pintura nunca lhe parecera tão dolorosa.
Fernando já não era o mesmo homem.
E aquele retrato parecia apenas uma mentira exposta bem no centro da casa.
Gracia o contemplou pela última vez antes de retirá-lo da parede.
Fechou os olhos e respirou fundo.
Era sua obra mais preciosa.
Um retrato de Fernando ainda jovem.
Cada pincelada havia sido feita com amor, delicadeza e a esperança sincera de uma mulher apaixonada.
Como não tê-lo amado naquela época?
Naqueles dias, Fernando atravessava a fase mais difícil de sua vida.
Sem que ele soubesse, Gracia vendeu aquele quadro para ajudá-lo financeiramente.
Quando descobriu o que ela havia feito, Fernando prometeu a si mesmo que um dia recuperaria a obra.
E cumpriu a promessa.
Anos depois, quando sua situação financeira melhorou, voltou para casa carregando o quadro nos braços.
Penduro-o na parede principal da mansão e passou a tratá-lo como um verdadeiro tesouro.
Mas, naquela manhã, Gracia sabia que aquele retrato já não merecia ocupar aquele lugar.
Ela o levou para uma exposição de arte que acontecia na cidade.
Alguns visitantes a reconheceram imediatamente.
Conheciam a história por trás daquela pintura e ficaram surpresos ao vê-la exposta.
Afinal, Gracia sempre dizia que jamais venderia aquela obra.
Muitos se aproximaram para perguntar por que havia mudado de ideia.
Ela apenas sorriu discretamente.
Explicou que fazia aquilo por uma boa causa.
Todo o dinheiro arrecadado seria destinado à caridade.
Não deu mais nenhuma explicação.
—Você tem talento.
A voz grave surgiu atrás dela, fazendo-a se virar imediatamente.
Diante dela estava um homem alto, de presença imponente.
Vestia um terno impecavelmente alinhado, e seu olhar transmitia um mistério difícil de decifrar.
Os traços marcantes, a postura elegante e a expressão fria faziam dele alguém impossível de ignorar.
—Obrigada, senhor.
Ela respondeu com educação, escolhendo cuidadosamente as palavras.
—Vou levar este quadro. Providencie a embalagem.
A ordem foi dada sem qualquer hesitação.
Gracia o observou com curiosidade.
—O senhor sabe qual é o valor da obra?
—Eu vou ficar com ele.
Sua voz permaneceu firme.
Ele sequer perguntou o preço.
Também não demonstrou a menor reação diante do alto valor do quadro.
Mas não foi sua segurança, nem o desprezo pelo dinheiro, que mais chamou a atenção de Gracia.
Foram seus olhos.
Escuros.
Profundos.
Havia algo naquele olhar que ela simplesmente não conseguia compreender.
No caminho de volta para casa, enquanto dirigia, Gracia recebeu uma mensagem de Mariana.
Ela bateu com força no volante, tomada pela irritação.
Mesmo assim, não conseguiu resistir e abriu a conversa.
As imagens fizeram seu coração parar.
Mariana vestia um belíssimo vestido branco.
Fernando usava um elegante terno de noivo.
Os dois estavam de mãos dadas diante de uma igreja, sorrindo como um casal apaixonado.
—Droga...
Ela murmurou ao terminar de ler a mensagem.
"Fernando me ama de verdade. Com você ele só tem um compromisso, uma obrigação pelos anos de casamento. Mas eu sou o verdadeiro amor da vida dele."
Os olhos de Gracia se encheram de lágrimas.
Sem perceber, soltou o volante por um instante.
Também não notou que o sinal já havia aberto.
O acidente foi inevitável.
O som estridente da buzina parecia perfurar seus ouvidos.
Atordoada, mal conseguia mover a cabeça.
Um homem saiu do outro carro e caminhou até ela, completamente furioso.
—Você ficou maluca? Olha o que fez com o meu carro! Está bêbada, por acaso?
Gracia lutava para permanecer consciente.
Tudo girava ao seu redor.
Com enorme dificuldade, pegou o celular e ligou para Fernando.
Precisava de ajuda.
A ligação foi atendida.
—Fernando... Fernando... você está aí?
Sua voz saiu trêmula, desesperada.
Mas a chamada foi encerrada.
Ela tentou novamente.
Desta vez, o telefone estava desligado.
—Fernando...
Mordeu os lábios.
Sentia que estava prestes a perder os sentidos.
Com os últimos instantes de lucidez, seus dedos trêmulos conseguiram discar para o serviço de emergência.
Ainda conseguiu pedir socorro antes que a escuridão tomasse conta de tudo.
Enquanto isso, Mariana segurava o celular de Fernando nas mãos.
Seu rosto permanecia frio e calculista.
—Mariana... quem estava ligando?
—Ninguém.
Ela colocou o aparelho sobre a mesa.
Fernando ligou o celular e percebeu que uma chamada de Gracia havia sido atendida e, logo em seguida, o aparelho fora desligado.
Um mau pressentimento tomou conta dele.
—Por que você desligou? —perguntou, confuso.
Mariana aproximou-se lentamente e acariciou seu rosto com delicadeza.
—Fernando... você me prometeu que hoje seria um dia só nosso.
Ela fez um leve beicinho.
Sorrindo com carinho, Fernando apenas ajeitou o véu de noiva que caía sobre a cabeça dela.
