Capítulo 5 Desnorteado
Margaret observou o prédio por alguns segundos, tomada pela frustração ao perceber que Lucien jamais tinha lido os papéis que ela lhe entregara. Tudo o que havia preparado — sua carta de demissão e o novo acordo de divórcio — continuava intacto sobre a mesa dele, ignorado como se não existisse.
Reunindo o resto de forças que lhe sobrava, desceu do carro a passos vacilantes. Caminhou até a avenida e ergueu a mão para parar um táxi. Só queria voltar para o hotel, sumir da frente dele e descansar do tormento que era estar ao seu lado.
O motor do carro de Lucien roncou atrás dela; ele não tinha ido embora. O homem estacionou a poucos metros e saiu do veículo, caminhando em sua direção com passos firmes.
— Aonde você pensa que vai? — perguntou, com a voz tensa.
Margaret virou-se devagar, exausta.
— De volta para o hotel.
Lucien semicerrou os olhos, encarando-a sem acreditar.
— Por que não fica no apartamento? Mandou preparar tudo para você.
Ela apertou os lábios.
— Porque eu não quero nada que venha de você. Deixei o novo acordo de divórcio e a minha carta de demissão com o Carlos, e ele me garantiu que você aceitou o meu pedido.
O impacto da notícia ficou nítido nos olhos dele. Por um instante, Lucien perdeu a costumeira arrogância com que falava.
— Você pediu demissão? — repetiu em tom baixo, como se custasse a acreditar. — Acha mesmo que vai conseguir se virar sem mim? Uma mulher sem dinheiro e sem experiência... Quanto tempo acha que vai aguentar longe de mim?
— Eu não preciso do seu dinheiro nem da sua pena. Eu me basto perfeitamente sozinha.
Lucien franziu o cenho, desnorteado. A mulher submissa que ele sempre conhecera parecia ter desaparecido, e essa mudança o perturbava profundamente. Ele deu alguns passos na direção dela, com os punhos cerrados.
— Já entendi — disse ele, com sarcasmo. — Você está recusando tudo só para me fazer sentir culpado. É só mais uma chantagem para me prender a você, Margaret.
Margaret o encarou com raiva e soltou uma gargalhada amarga.
— Culpado? Você acha mesmo que eu ainda quero algum tipo de vínculo com você? Você é mais patético do que eu imaginava.
As palavras ficaram pairando no ar. De repente, uma dor aguda e intensa perfurou seu pé da barriga. Margaret curvou-se para a frente, instintivamente levando as mãos ao abdômen. Um calor estranho escorreu por suas pernas e, ao baixar o olhar, viu o sangue descendo e tingindo sua saia.
— Margaret! — Lucien a segurou imediatamente, atônito. O rosto dele se desfigurou em uma preocupação genérica e genuína. — O que está acontecendo com você?!
Ela mal conseguiu responder; seu corpo ficou entregue e frágil nos braços dele. Lucien a carregou sem pensar duas vezes e a colocou de volta no carro. Pisou fundo em direção ao hospital, sem tirar os olhos do caminho e praguejando entre os dentes a viagem toda.
Horas mais tarde, Margaret deixou a sala de emergência. Tinha recebido o atendimento necessário e, embora continuasse fraca, o médico garantiu que o quadro estava sob controle. Lucien aguardava na sala de espera com uma feição fechada, mas a rigidez das mãos entregava o nervosismo.
Quando o médico apareceu, Lucien se adiantou:
— Como ela está?
— Venha comigo, por favor.
Lucien seguiu o médico pelo corredor até o quarto onde ela repousava. A coitada da Margaret estava pálida, ainda conectada ao soro na veia.
— O que ela tem, doutor? — Lucien aproximou-se da leito, tentando decifrar o quadro.
— Eu... — interveio ela rapidamente, antes que o médico falasse. — Foi só uma cólica muito forte, não foi, doutor? Nada grave. Obrigada pelo atendimento.
O médico a encarou, surpreso com a interrupção. Margaret sustentou o olhar dele em um pedido mudo de socorro.
— Lucien... — disse ela, em tom de urgência. — Você podia buscar os remédios desta receita para mim? — Estendeu a mão para a mesa de cabeceira, apontando para o papel.
Sem hesitar, ele pegou a receita.
— Já volto.
Margaret respirou aliviada ao vê-lo cruzar a porta, e o médico se aproximou da cama.
— A senhora precisa se cuidar muito. Desta vez não passou de um susto, mas a gestação é de risco. Precisa de repouso absoluto, acompanhamento constante e, acima de tudo, evitar fortes emoções. — O médico indicou com a cabeça a porta por onde Lucien saíra, e ela entendeu perfeitamente o recado.
— Por favor — sussurrou Margaret, com as lágrimas transbordando —, não conte nada a ele. Ele não quer este filho.
O médico hesitou, mas, diante do desespero nos olhos dela, assentiu com discrição.
De volta ao quarto, Lucien permaneceu de pé junto à janela, de braços cruzados. Margaret evitou encará-lo.
— E então? — perguntou ele, sem se virar.
Ela puxou o ar, buscando a mentira mais plausível:
— Nada demais. Só uma cólica menstrual muito forte.
Lucien virou-se devagar, examinando-a com desconfiança.
— Tem certeza?
— Tenho — afirmou ela, baixando os olhos.
O relógio na parede indicava que a madrugada já ia alta. Margaret se tensionou ao lembrar do seu voo no dia seguinte. Precisava sair o quanto antes daquele hospital, da vida dele, de tudo o que a prendia àquele homem.
— Acho que já descansei o suficiente, posso pedir alta.
Lucien notou a inquietação dela.
— Qual é a pressa?
— Nada. Só quero descansar em outro lugar.
Ele soltou um riso irônico.
— Em outro lugar? Ou será que já arrumou outro? É por isso tanta urgência em ir embora?
As palavras a perfuraram como facas. Margaret apertou os punhos por baixo do lençol. A dor, a indignação e o cansaço a sufocavam. Por fim, encarou-o bem no fundo dos olhos, com um brilho desafiador que ele jamais vira nela.
— Você tem toda razão, Lucien. Assim como você, eu também tenho um grande amor. Alguém que eu nunca consegui esquecer.
Lucien travou no lugar. O maxilar endureceu e a fúria que ele tentava mascarar transbordou em seu olhar.
— O que você disse? — esbravejou, aproximando-se da cama com passos lentos.
Margaret sustentou o olhar com firmeza, apesar de o coração bater descompassado no peito. Sabia que o estava provocando, mas não suportava mais tanta humilhação. Se ele tinha a Lorain, ela também podia inventar um passado inesquecível.
— O que você ouviu — respondeu com a voz pausada e segura. — Você não é o único capaz de me substituir.
O silêncio que se seguiu ficou tão pesado que quase não se conseguia respirar. Lucien, com os lábios cerrados e o peito arfando, encarava-a como se estivesse descobrindo uma mulher completamente diferente daquela que julgava possuir.
