Capítulo 1 Capítulo um

DIANA

Eu não conseguia respirar. Porque a vida do meu filho dependia disso.

A temporada de monções em Horrixo trazia um frio impiedoso, forte o bastante para roubar o calor dos ossos e deixar a pele queimada de frio.

Eu estava deitada bem no meio daquilo, vestindo nada além de um vestido de seda que um dia fora branco, agora manchado de terra, os olhos abertos enquanto a chuva atingia minha pele como agulhas.

Meus pulmões se contraíam dolorosamente, implorando por ar. Eu não sabia por quanto tempo conseguiria enganar a natureza, mas continuava repetindo para mim mesma… só mais alguns segundos.

— Corta!

O ar invadiu meu peito num suspiro desesperado. Eu tossi com força, o peito subindo e descendo enquanto a chuva continuava a me castigar.

— E encerramos! — a voz da diretora Joan atravessou o aguaceiro pesado.

— Até que enfim — murmurei, me empurrando para sentar. Minhas articulações estalaram alto quando me alonguei. Lama gelada grudava nos meus braços e pernas.

Eu me abracei e corri para me abrigar.

A assistente pessoal da diretora se aproximou de mim.

— Seu telefone não para de tocar—

Tocou de novo.

Hospital Thomas.

Minhas mãos tremiam tanto que quase deixei o celular cair. — Alô?

— Senhorita Diana? Aqui é a enfermeira Reyes. O Thomas teve outro episódio. Os níveis de oxigênio dele caíram muito. Nós o estabilizamos, mas você precisa vir pra cá rápido.

Meus joelhos quase cederam. Disparei de volta para a chuva, a lama espirrando nas minhas pernas, o telefone ainda colado ao ouvido. — Eu estou indo. Por favor, mantenham ele em segurança.

Eu tentei parar todo veículo que passava, o desespero gravado nos meus ossos.

— Por favor! — gritei para um, mas ele passou disparado como se eu nem existisse.

Vi uma mulher numa moto prendendo o capacete.

Fui até ela, peguei o capacete reserva sem pensar e subi na moto.

— Me leva pro Hospital Saint Festus, por favor — implorei, a voz falhando.

A motorista hesitou.

— Por favor… é meu filho… eu pago… só vai.

Ela ligou o motor e arrancou.

Ao ver as luzes do hospital, arranquei o capacete e saltei da moto antes mesmo de ela parar por completo.

Corri direto para dentro do hospital.

A água pingando das minhas roupas encharcadas deixava rastros de cor rosada. Eu estava trabalhando como figurante num filme de apocalipse zumbi. A gente era coberto de tinta branca para parecer cadáveres ensanguentados.

— Diana!

Thomas.

Meu coração se apertou com força. — Soltem ele agora!

Dois homens grandes seguravam com força os braços finos dele, o corpo pequeno espremido entre os dois. O médico e a enfermeira estavam parados de lado, tremendo de medo.

Uma risada fria ecoou atrás de mim. — Foi rápida, hein?

Meu estômago se retesou.

Eu me virei. Jezebel estava encostada na parede como se fosse dona do lugar. Baixinha, magricela e de olhar afiado, os lábios curvados num sorriso cruel, como se aquilo fosse um entretenimento. Ela girava uma faca fina entre os dedos com uma facilidade displicente, a lâmina refletindo as luzes.

— Jezebel, por favor, eu vou te pagar. Só manda eles soltarem ele. Ele está doente. Não machuca ele…

Ela soltou uma risada baixa, me avaliando de cima a baixo. — Você veio pra cá de um banho de sangue?

— Eu estava trabalhando — respondi depressa. — Se você puder me dar só alguns dias, eu prometo que junto o capital e os juros.

Um sorriso cruel se espalhou pelo rosto dela.

— Ajoelhe-se.

Eu congelei. — O quê?

— Ajoelhe-se — ela repetiu — e implore.

— Mamãe! — Thomas gritou, em dor e medo, quando os homens apertaram ainda mais o aperto.

Minhas pernas cederam antes que eu conseguisse pensar. Eu me deixei cair no chão frio, os joelhos batendo com força.

— Por favor… — deixei escapar.

Ela me observou por um longo momento e caiu na gargalhada, um som estridente que fez a enfermeira se encolher. — Você está tão patética. — O rosto dela escureceu. — Isso é por ignorar minhas ligações.

Minha respiração falhou. — Eu prometo que não ignorei suas ligações, não nos deixam usar celular—

— Você tem vinte e quatro horas para trazer o meu dinheiro, ou o seu pirralho paga o preço.

Ela deu tapinhas nas minhas bochechas. — Tic-tac.

Jezebel fez um sinal para os homens, e eles soltaram Thomas e foram atrás dela.

Corri até meu filho e o puxei para meus braços trêmulos. — Você está bem?

— Eu estou bem. Eles não me machucaram — disse Thomas, ainda abalado.

Um tremor percorreu meu corpo. Eu o abracei mais forte, com medo de soltar.

— Senhorita Diana — o médico me chamou, com desdém.

— Sinto muito, mas precisamos retirar seu filho deste hospital. Não podemos arriscar outro incidente como este. Isto é um hospital.

Ele foi embora sem esperar minha resposta.

— O senhor não pode fazer isso — implorei, segurando Thomas como se ele fosse minha tábua de salvação. — O senhor sabe que ele não consegue viver sem o tratamento. Eu prometo que vou resolver isso. Nunca mais vai acontecer.

A enfermeira me lançou um olhar solidário. — Vou falar com ele.

— Obrigada — sussurrei.

Voltei-me para Thomas, forçando um sorriso. — Não se preocupe, eu vou deixar tudo resolvido. Volte para o seu quarto por enquanto, está bem?

— Diana? — ele me chamou, preocupado.

— Eu estou bem. Vá — insisti.

Quando ele se afastou, meu celular apitou. Era um alerta de crédito do set.

Saldo da conta: US$ 100.

Suspirei, frustrada. Aquilo não chegava nem perto do suficiente. Minha dívida com Jezebel era de dez mil dólares, com juros de cinco mil. Como eu poderia conseguir isso em vinte e quatro horas?

Fiquei do lado de fora do hospital e rolei minha lista de contatos. Meu polegar pairou sobre um nome. Respirei fundo e toquei.

Chamou até a terceira vez, então atenderam.

— Diana, o que foi?

— Oi, Suzzy… eu preciso de um favor.

Houve uma pausa repentina.

— O que está acontecendo, Diana?

— Eu sei que não é a hora certa pra isso, e eu odeio pedir, mas… você pode me emprestar dinheiro? Eu pago em um mês. Eu juro.

— O Thomas piorou de novo? — ela perguntou, preocupada.

— Não. — Enxuguei as lágrimas silenciosas que escorriam dos meus olhos. — Ainda não. Mas eu preciso de quinze mil.

— Eu não consigo esse valor, Diana. Você sabe que o Julius e eu gastamos tudo com o casamento. Eu só consigo cinco mil.

— Eu agradeço qualquer coisa — sussurrei.

— Diana, a oferta do bar ainda está de pé. Eu entendo o seu motivo para não querer trabalhar lá, mas é um bar gay, e os clientes não têm interesse em mulheres. É só fazer o seu turno e ir embora. O Julius é amigo do gerente. Posso falar com ele pra te adiantar um dinheiro.

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